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FESTIVAL DO RIO

"Boogie", de Radu Murtean


Por Cid Nader


Existem filmes que cairia rapidamente na boca de detratores como obras politicamente incorretas. "Boogie", talvez caia na boca de feministas ou politicamente corretos como um filme de fortíssima matiz machista. E até é, na realidade. Mas esse trabalho romeno talvez calhe para uma breve discussão sobre o que é passível de ser discutido em patamares mais amplos - sociedade, política, religiões, racismo...- e o que deve ser compreendido como manifestação artística legítima. Há uma novidade na praça de se pensar de modo muito radical sobre algumas obras de rate como maus exemplos políticos. O problema ocorre quando se faz excessivo alarde em torno de material que não tem evidente intenção agressiva e que, mesmo com opiniões "deformadas" - dentro do que estabelecem normas de avanço sociais ou afins - acaba resultado um produto razoável (e acho que cabe bom senso para se poder perceber o que é opinião "deformada" e não incisiva ou maldosa - há uma linha tênue que é de ser procurada e testada antes de manifestações mais radicais ainda). Já até andei citando que alguns excessos de mau humor e ranzinzice fariam impossíveis algumas de nossas marchinhas de carnaval mais famosas dos tempos antigos.

Mas o que ocorre nessa produção romena dirigida por Radu Murtean é que sua história se passa durante um dia de férias, na vida de um casal e um menininho, numa decadente praia da Romênia. Desde o início nota-se uma tensão machista no ar, quando após um evidente esforço do pai em fazer de alguns momentos do moleque na areia e no mar instantes aprazíveis, uma reação ostensiva e indignada da mãe faz parecer que não houve esforço algum por parte do marido, e que ela estaria ali de férias "somente para tomar conta do filho, enquanto o homem estaria para se divertir". Desde esses primeiros instantes nota-se que o homem será mesmo o privilegiado da história. A situação complica - para os possíveis detratores - quando ele encontra dois amigos dos tempos de escola, ao que se sucede um convite para jantar, início de embebedamento, mal humor da mulher reclamando que "o filho está caindo de sono", dispensa dela por parte dele - prefere ficar com os amigos para entrar um pouco mais noite adentro -, e caos no relacionamento. Acontece birra, choro, recados "ameaçadores" e o filme avança assim até um final plácido.

O que é de se destacar é que o filme é muito bom em sua simplicidade de idéias - não há excessos com as câmeras, muito menos ousadias na edição (a única extravagância consiste na câmera grudada nos personagens em algumas seqüências decorrente do uso delas quase sempre nas mãos) - quando coloca quase o tempo as pessoas falando entre si (desde o início na praia e com o casal o trabalho é muio dialogado), mas com uma notável capacidade de texto. Se há mau humor ou ressentimento na maioria das conversas do casal, há um excesso de imaginação e sacadinhas nas conversas entre os machos. E as conversas são de alto teor machista mesmo. Mas é de se notar que não há nenhuma tentativa de camuflagem ou douramento nesses instantes engraçados e espirituosos que advém facilmente das conversas entre moleques (o filme faz notar que homens demoram muito mais mesmo para crescerem). Radu Murteam não se preocupa com possíveis acusações a seu trabalho e realiza um filme de reencontros, com conversas e atitudes equivocadas acontecendo, mas á moda antiga e, principalmente, fiel à realidade. Se existir mau humor poderá realmente se questionar as opções. Mas com bom senso, nota-se que o cinema romeno continua caminhando bem nessa sua nova existência, apostando no simples, e já sem o fantasma eterno da ditadura.








Leia as matérias deste festival:

I - Release de abertura
II - En La Ciudad de Sylvia
III - Queime depois de ler
IV - Guerra sem cortes
V - Inútil
VI - Vocês, os Vivos
VII - Viagem do balão vermelho
VIII - Pan-Cinema Permanente
IX - Aquiles e a tartaruga
X - Glória ao cineasta
XI - Simonal
XII - Feliz Natal
XIII - A Raiva
XIV - O Céu, a Terra e a Chuva
XV - Puffball
XVI - Gomorra
XVII - Terra Vermelha
XVIII - Liverpool
XIX - A Fronteira da Alvorada
XX - Adoração
XXI - Boogie
XXII - Noite e Dia
XXIII - O sal desse mar
XXIV - Segurando as Pontas
XXV - Les Amours d'Astrée et de Céladon
XXVI - Sukiyaki Western Django
XXVII - Minha Mágica
XXVII - Fatal
XXVIII - Amor e Honra
XXIX - Renascimento
XXX - Alexandra
XXXI - Diego Rivera: A Revolução do Olhar
XXXII - Cinzas do Passado - Redux
XXXIII - O Silêncio de Lorna
XXXIV - Mais tarde, você vai entender...
XXXV - Premiados