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FESTIVAL DO RIO

"Adoração", de Atom Egoyan

Por Cid Nader


Parece que o diretor egípcio - canadense de criação e armênio de coração, reações, atitudes e modo de ver a vida e a política na arte -, Atom Egoyan esgotou definitivamente suas fórmulas. Quando surgiu para o mundo de maneira mais expressiva com "Exótica" em 1994 - se bem que não tenha sido efetivamente seu primeiro longa-metragem - assombrou positivamente uma parcela considerável dos apreciadores de cinema mais engajado (à época definido como "cinema de arte"), impondo-se para estes como uma novidade que vinha ao mundo para discutir a intolerância e segregações, mas com uma pimenta a mais no modo de exibir imagens de mais "apelo" e "força", e com um domínio elegantíssimo dos ambiente cenográficos. Talvez acertado mesmo um grande filme com o subseqüente "O Doce Amanhã", de 1997, onde manteve a força do texto do começo ao fim, com pequenos escorregões quando a história resvala para um lado mais político.

Política que parece nortear a cabeça dele em todas as suas obras, mas no sentido mais ampliado da palavra que é a da injunção do poder em todos setores das sociedades, com desfechos sempre nefastos a setores mais enfraquecidos num determinado momento histórico. É até fácil compreender essa sua obsessão por tratar da política - nesse aspecto - e da intolerância entre povos e raças, quando se percebe ser ele um descendente armênio, povo bastante carregado e marcado por um dos maiores massacres étnicos da história da humanidade (comparável ao dos judeus na Segunda Guerra): inclusive isso se manifestou de forma bem mais palpável e perceptível na ocasião da confecção de "Ararat", no ano de 2002, um filme sofrível e quase marco da repetição que acarretava já a decadência em suas obras.

Quando se fala em "esgotamento de fórmulas", vale lembrar que as que Egoyam - que se repetem e enfraquecem - mais executa são: a de iniciar seus filmes com excessos de informações e possibilidades, com personagens e histórias que surgem nesse início aos amontoadas e de forma bastante hermética; a beleza plástica das cenas, os movimentos exageradamente elegantes (quase ininterruptos e de deslocamento leve e horizontal) das câmeras com muita utilização de trilhos; a utilização de um "povo" (ou raça) da vez para ser defendido; e a utilização das modernidades dos dias capitalistas de hoje, principalmente num país rico como o Canadá. Diretores constroem carreiras autorias baseados em fórmulas repetitivas, mas no caso de Atom, o drama se estabelece quando se percebe que conforme seus filmes avançam na sala de projeção, toda a elaboração quase hermética (e posteriormente descoberta como nascida de ato político opressor) inicial acaba por sucumbir em favor de desfechos de tez mais pessoal, mais intimistas, normalmente bem menos complexos do que o que era sugerido até então, e de conteúdo e suspense bem mais "bobo".

Todo o início de "Adoração" é exemplar por sua construção de roteiro, que vai jogando na tela sem dó nem piedade informações e situações que chegam a exigir atenção redobrada para sua compreensão. Se cria uma falsa história dentro da história, que acaba servindo de gancho para que um assunto pungente ganhe a Internet, virando uma bola de neve por conta das discussões que se sucedem. Conforme peças vão sendo encaixadas e a compreensão vai tomando conta do espectador, o filme passa revelar que a fórmula da vez é a discussão sobre a intolerância - até aí, um bom filme ainda possível. Algumas cenas são inéditas e plasticamente impactantes, como a da mulher que surge com uma espécie de burca, sob neve, num jardim decorado e iluminado para o Natal, ou as das discussões na Internet (estética/técnica e modernidades). Mas surge num dado momento a fórmula comodista e apressada da situação individual que se sobrepõe a todo o aparato imaginado até então, enterrando o filme num poço bem fundo - e isso já era de se esperar.

Se o cinema fosse arte construída de maneira linear - construída mesmo, na "sala de trabalho", no escritório, no computador do escritor - poderia se dizer que Atom Egoyam começa as suas com muito gás e imaginação, mas que vai cansando e, no fim, extenuado, acaba por escolher as soluções menos complexas e trabalhosas.








Leia as matérias deste festival:

I - Release de abertura
II - En La Ciudad de Sylvia
III - Queime depois de ler
IV - Guerra sem cortes
V - Inútil
VI - Vocês, os Vivos
VII - Viagem do balão vermelho
VIII - Pan-Cinema Permanente
IX - Aquiles e a tartaruga
X - Glória ao cineasta
XI - Simonal
XII - Feliz Natal
XIII - A Raiva
XIV - O Céu, a Terra e a Chuva
XV - Puffball
XVI - Gomorra
XVII - Terra Vermelha
XVIII - Liverpool
XIX - A Fronteira da Alvorada
XX - Adoração
XXI - Boogie
XXII - Noite e Dia
XXIII - O sal desse mar
XXIV - Segurando as Pontas
XXV - Les Amours d'Astrée et de Céladon
XXVI - Sukiyaki Western Django
XXVII - Minha Mágica
XXVII - Fatal
XXVIII - Amor e Honra
XXIX - Renascimento
XXX - Alexandra
XXXI - Diego Rivera: A Revolução do Olhar
XXXII - Cinzas do Passado - Redux
XXXIII - O Silêncio de Lorna
XXXIV - Mais tarde, você vai entender...
XXXV - Premiados