FESTIVAL DO RIO “Liverpool”, de Lisandro Alonso Por Cesar Zamberlan Lisandro Alonso faz um cinema diferente, pouco narrativo, anti-narrativo, mínimo por excelência. Foi assim em “Los Muertos”, seu filme mais conhecido no Brasil, e é ainda mais radical a proposta de “Liverpool”. Longe de ser um cinema de fabulação, com uma estrutura narrativa que dê conta de uma história, “Liverpool” é o seu mais claro oposto. O tipo de filme que alguns, pejorativamente, irão chamar de filme lento, “nos quais nada acontece”. Essa opção pelo não narrar acaba revelando de outra forma os personagens do filme. Acabamos nos aproximando deles não pelos seus atos e nem pelo julgamento dos seus atos ou do que deles temos pelos outros personagens; nos aproximamos deles por meio de um retrato isento de qualquer julgamento, por uma câmera que os acompanha insistentemente de modo quase documental sem que exista interferência de uma narrativa que explique porque esses personagens agem. E o agir, no caso de “Liverpool” é um caminho, um ir sem maiores detalhes, o percurso do personagem principal, Farrel, que aproveita uma escala do navio onde trabalha para rever a mãe que ele nem sabe se está viva. Esse retorno a casa ou a uma possível casa que também está presente em “Los Muertos” é um retorno a um não-lugar. No caso de “Liverpool”, a neve de Ushuaia; no caso de “Los Muertos”, a selva. A proximidade dos dois filmes não se esgota aí. Os poucos diálogos e os tempos mortos, num espaço ainda mais morto, só aumentam a sensação de vazio que é extremamente presente nos filmes de Alonso. Filmes que revelam um projeto fortemente autoral. Projeto de um cinema que busca registrar com uma ética muita própria a natureza dos seus personagens, de homens à deriva, carregados de uma dura humanidade, distantes no tempo e no espaço do homem moderno. O cinema de Alonso está na contramão do cinema que estamos acostumados a ver e nos dá a oportunidade de rever nosso conceito de cinema, e nosso conceito de narrativa. Dando tempo ao tempo, abrimos nossos olhos para a contemplação do espaço e para o vazio. Buscamos respostas para os personagens, para suas histórias, como se pudéssemos e devêssemos ter sempre um porquê, um fim em relação as pessoas e as coisas. Ao não narrar, pelo menos no sentido convencional, Alonso nos traz momentos da mais singela e contemplativa poesia. Ao não revelar causas, motivações, juízos, nos faz sentir e intuir aquelas pessoas e aquele lugar, nos faz conviver, dolorosamente, com as perguntas. Quando deixa de acompanhar Farrel, na linda e simbólica cena na qual ele desaparece na neve, como se se afogasse, perdendo-se nos limites do plano, enterrando-se, Alonso quebra de certa forma a lógica narrativa do filme, parecendo nos querer dizer, dentro do seu estilo mínimo, que precisamos ficar ali, com o filme, para entender melhor aquele lugar e aquela relação, talvez para descobrir aquilo que não saberíamos se acompanhássemos o personagem principal, que morre para o filme. Ficar ali naquela aldeia erma pode nos trazer a resposta para o retorno do personagem e para a silenciosa recusa dos outros personagens em se relacionar com aquele que um dia partiu. Ao nos aproximar desta outra realidade, sem o personagem, sem seguirmos seus passos, Alonso mostra a outra parte do quebra-cabeça, cujo “rosebud” é o chaveiro com o nome Liverpool que o personagem deixa a menina. O que isso significa? Como as peças se juntam? O filme não diz. E ao não dizer, volta a nos reenquadrar dentro da sua lógica narrativa, de narração mínima e de uma imersão no espaço e no cotidiano dos personagens que acaba por ser bastante e paradoxalmente reveladora. |
Leia as matérias deste festival: I - Release de abertura II - En La Ciudad de Sylvia III - Queime depois de ler IV - Guerra sem cortes V - Inútil VI - Vocês, os Vivos VII - Viagem do balão vermelho VIII - Pan-Cinema Permanente IX - Aquiles e a tartaruga X - Glória ao cineasta XI - Simonal XII - Feliz Natal XIII - A Raiva XIV - O Céu, a Terra e a Chuva XV - Puffball XVI - Gomorra XVII - Terra Vermelha XVIII - Liverpool XIX - A Fronteira da Alvorada XX - Adoração XXI - Boogie XXII - Noite e Dia XXIII - O sal desse mar XXIV - Segurando as Pontas XXV - Les Amours d'Astrée et de Céladon XXVI - Sukiyaki Western Django XXVII - Minha Mágica XXVII - Fatal XXVIII - Amor e Honra XXIX - Renascimento XXX - Alexandra XXXI - Diego Rivera: A Revolução do Olhar XXXII - Cinzas do Passado - Redux XXXIII - O Silêncio de Lorna XXXIV - Mais tarde, você vai entender... XXXV - Premiados |