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FESTIVAL DO RIO

“Terra Vermelha”, de Marco Bechis

Por Anahí Borges


“Um índio descerá de uma estrela colorida e brilhante...”. Cinco índios brasileiros caminhavam iluminados sobre o ambicionado tapete vermelho veneziano. Vestidos em traje de gala, acompanhavam o diretor ítalo-argentino Marco Bechis à Sala Grande do Palazzo del Cinema para apresentar a sessão de “Birdwatchers – a terra dos homens vermelhos” ao público. Flashs, aplausos, caos. Imagino o que não passava na cabeça dos protagonistas do filme que saíram do Mato Grosso do Sul para exibirem a sua realidade em Veneza. Atores que interpretaram a si mesmos, e colaboraram no roteiro que, segundo Bechis, foi constantemente modificado inspirado nas vivências e imprevistos ocorridos no set durante os seis meses de filmagem. Uma obra-resultante do interesse e pesquisa antropológica aliada a um processo criativo colaborativo? Enquanto assistia ao desfile dos índios brasileiros em traje de gala, pensei no glamour do cinema, me recordei de diversos atores, brasileiros ou não, que interpretaram a si mesmos e caíram de um zepelim prateado em meio a estrelas de cinema em festivais internacionais, para depois retornarem à vida corriqueira (e muitas vezes pouco feliz) que os espera. Mas não só de melancolia era o meu olhar aos índios brasileiros em Veneza... Recordei-me também da turnê mundial de Sting, em 1986, em que, depois de conhecer o cacique Raoni Metuktire, da tribo brasileira Tchucarramãe, o músico britânico denunciou nos palcos internacionais a condição do índio no Brasil. Vinte e dois anos depois da popularização de Raoni, cinco índios Guarani-Kaiowá vieram a Veneza acompanhando o admirável filme de Marco Bechis; vieram protestar o modus operandi da sociedade brasileira.

Marco Bechis é autor de filmes caracterizados por sua veemência política na exploração de temas como o dessemelhante, a identidade e a liberdade do indivíduo contra o sistema opressor. “Hijos” (2002) é o seu filme mais conhecido e explora a temática dos desaparecidos políticos na ditadura argentina. Com “Terra Vermelha”, Bechis enfia o dedo na cicatriz do nosso país, contando a história do conflito de terras no centro do Brasil entre os índios Guarani-Kaiowá e os latifundiários da soja transgênica. Bechis problematiza o caráter das reservas indígenas, o aumento crescente do alcoolismo na população indígena, as dívidas e o trabalho semi-escravista como condição silenciada pelo povo nativo brasileiro. O filme surpreende pela sua força de representação antropológica: Bechis foge dos estereótipos e nós de trama previsíveis e constrói um discurso político situado na fronteira entre o documentário e a ficção. Um filme anos luz de distância de “A Missão”, de Roland Joffé, por exemplo, e de “Brincando nos campos do Senhor”, de Hector Babenco, e mais próximo de “Serras da Desordem” de Andréa Tonacci.

Anahí Borges viu o filme em Veneza.








Leia as matérias deste festival:

I - Release de abertura
II - En La Ciudad de Sylvia
III - Queime depois de ler
IV - Guerra sem cortes
V - Inútil
VI - Vocês, os Vivos
VII - Viagem do balão vermelho
VIII - Pan-Cinema Permanente
IX - Aquiles e a tartaruga
X - Glória ao cineasta
XI - Simonal
XII - Feliz Natal
XIII - A Raiva
XIV - O Céu, a Terra e a Chuva
XV - Puffball
XVI - Gomorra
XVII - Terra Vermelha
XVIII - Liverpool
XIX - A Fronteira da Alvorada
XX - Adoração
XXI - Boogie
XXII - Noite e Dia
XXIII - O sal desse mar
XXIV - Segurando as Pontas
XXV - Les Amours d'Astrée et de Céladon
XXVI - Sukiyaki Western Django
XXVII - Minha Mágica
XXVII - Fatal
XXVIII - Amor e Honra
XXIX - Renascimento
XXX - Alexandra
XXXI - Diego Rivera: A Revolução do Olhar
XXXII - Cinzas do Passado - Redux
XXXIII - O Silêncio de Lorna
XXXIV - Mais tarde, você vai entender...
XXXV - Premiados