FESTIVAL DO RIO "Puffball", de Nicolas Roeg Por Cid Nader Estranho? Esdrúxulo? Excêntrico? Quaisquer desses termos podem ser colados quando se for comentar esse mais recente trabalho do veterano Nicolas Roeg. Talvez, sabendo ser obra dele, nem devesse causar tantas exclamações anormais as conversas surgidas após a apreciação do filme. Talvez esteja bastante dentro da normalidade o trabalho, vindo de um diretor que já havia feito o muito bom (apesar de estranho) "O Homem que Caiu na Terra", de 1976, ou o mais "espetacularmente" esdrúxulo (muito menos conhecido e não tão bom mesmo) "Insignificance", de 1985. "Puffball" transita dentro de uma atmosfera - criada não sei até que ponto de maneira proposital ou não - meio ao "Deus dará". O ritmo do filme é todo - e digo todo mesmo - dentro de uma inconstância tal, que por muitas vezes fica a impressão de que algo deve estra acontecendo mas não conseguindo ser captado pelo "espectador desatento". Desde o início as imagens são costuradas com músicas leves - geralmente piano - que fazem com que a atenção auditiva se atenha a algo, enquanto o sensorial visual teima em mostrar algo outro nada combinante. Há descompasso na composição narrativa quando vista pelo todo, e isso fica muito mais grave quando entretrechos realizados por flshbacks são insinuados na película, de maneira pouco elucidativa e com a certeza que mesmo à frente restará como peça solta da engrenagem. Engrenagem que faz com que o filme ande a "leves" solavancos - sem sustos, sem catarses, mas atravancando a fluidez. Além do mais, a história que o sr. Roeg foi buscar faz com que a credulidade e a boa vontade do espectador sejam postas em prática na tentativa de de se fazer razoável como qualquer modo pretendido de entretenimento. Mostra nos tempos atuais, na Europa - se bem que a Irlanda se preste a histórias que busquem distanciamento do iluminismo, ou do pragmatismo -, um casal que compra um chalé, passa a reformá-lo, mas acaba se envolvendo com uma família vizinha que além de não ser muito boa da veneta no geral - mãe que insiste em ter um quarto filho mesmo um tanto além da idade, filha que vive ao piano, marido manipulado ao prazer que se faça necessário -, ainda vê na avó uma praticante de magia negra, e citações a Odin, como se em tempos medievais, antes da imposição cristã que abateu a fé primária dos povos nórdicos. Tanto quanto o deslocamento narrativo na forma, o filme se apresenta deslocado com o tema escolhido. Mas o mais interessante - e esdrúxulo, e estranho, e excêntrico - é que acaba passando a impressão de que a idéia do diretor era a de que tais descompassos acabassem por se mostrar como sua assinatura: ou talvez só impressão mesmo - como citei acima - e a verdade esteja mesmo no engano, numa má direção, numa má jornada de Nicolas Roeg. Mais um motivo detrator vem próximo do final - mas há tantos, como a cena da menina no piano dentro da casa em reforma, como as aparições non-sénse de Donald Sutherland, a cara da avó praticante de magia negra em algumas seqüências, as reações de Miranda Richardson e irmã, histéricas reclamando o filho que não está em sua placenta... -, quando algo de suspense e ação é imposto gratuitamente, numa breve perseguição de carro que, interrompida, continua com uma luta muito fora da realidade no chão da estrada: algo que não combina com esdrúxulo de se citar magia negra e Odin de forma tão reles e equivocada, e que passa uma impressão de mais uma ação, no mínimo, equivocada. |
Leia as matérias deste festival: I - Release de abertura II - En La Ciudad de Sylvia III - Queime depois de ler IV - Guerra sem cortes V - Inútil VI - Vocês, os Vivos VII - Viagem do balão vermelho VIII - Pan-Cinema Permanente IX - Aquiles e a tartaruga X - Glória ao cineasta XI - Simonal XII - Feliz Natal XIII - A Raiva XIV - O Céu, a Terra e a Chuva XV - Puffball XVI - Gomorra XVII - Terra Vermelha XVIII - Liverpool XIX - A Fronteira da Alvorada XX - Adoração XXI - Boogie XXII - Noite e Dia XXIII - O sal desse mar XXIV - Segurando as Pontas XXV - Les Amours d'Astrée et de Céladon XXVI - Sukiyaki Western Django XXVII - Minha Mágica XXVII - Fatal XXVIII - Amor e Honra XXIX - Renascimento XXX - Alexandra XXXI - Diego Rivera: A Revolução do Olhar XXXII - Cinzas do Passado - Redux XXXIII - O Silêncio de Lorna XXXIV - Mais tarde, você vai entender... XXXV - Premiados |