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FESTIVAL DO RIO

"O Céu, a Terra e a Chuva", de José Luis Torres Leiva

Por Cid Nader


Primeiro longa de ficção na carreira de diretor latino-americano, hoje em dia, pressupões quase sempre tentativas estéticas prevalecendo sobre a narrativa mais facilmente compreensível. No caso dos mexicanos o que se observa - tenho repetido isso de maneira quase sistemática - são filmes de acabamento fotográfico exemplar, com gosto bastante duvidoso pelas opções de edição e de posicionamentos de câmeras, que tendem a levar o visual dos trabalhos a uma excelência visual que filma e simplesmente a miséria - fenômeno que no Brasil de antanho recebeu o nome de "Estética da Miséria". Mas atendo-me a "O Céu, a Terra e a Chuva", e pensando nela como produção chilena (apesar de co-produzida por França e Alemanha, também), o que vem à mente são obras oriundas do mundo do curta-metragem (mais comuns, vindas do país andino), que procuram sempre o não conformismo estético, a dificuldade no tema, mas sem o engano de fazer do exercício de estrilo um simples penduricalho dourado para fazer a miséria mais palatável (como é o caso das obras vindas do país dos "sombreros").

De qualquer maneira, tanto a maioria dos curtas que andei vendo, como esse filme de José Luis Torres Leiva, também não se saem bem quando constatado o resultado das tentativas e ousadias: quando constatado que o exercício de estilos (imitados normalmente da Europa e da vizinha Argentina) prevalece demais em detrimento do que deveria "narrado". Nesse caso a não narração ou elucidação, ou construção ficcional mais linear mesmo, é parte principal da proposta. Não se usa quase o diálogo oral, não se explicam histórias, não se definem de maneira razoável papéis e razões de ser dos personagens. Nada contra, se no fundo pudesse ser pressentido que a não facilitação tem papel provocador ou instigador. O que não ocorre.

Filma-se em algum lugar qualquer no fim do mundo Austral (alguma região fria e quase inóspita do Chile) e se faz disso um mote de atração pretensamente estranha - modismo, e maneira de fazer-se ser entendido como trabalho "marginal". As pessoas que são colocadas lá vivem, trabalham, amam, se comunicam (pouco), de maneira tão fria quanto o clima. Os contatos são sonegados a partir do modo de edição. Os climas estranhos e de isolamento são ajudados pela maneira dos takes, pela iluminação escolhida, pela opção de quase não música. As imagens são bem filmadas sim, e aí surge um mérito inquestionável do trabalho, que busca no travelling horizontal e com alguns malabarismos bem sucedidos junto a rostos (tanto indo, como vindo; se aproximando ou afastando), um belo modo de composição de imagens a serem trabalhadas na edição. E aí, na mesa, o trabalho e a imaginação fotográfica acaba padecendo e sofrendo com as tais construções da moda.

A idéia de não narrar filmes via caminho normais e comuns, sempre foi válida na arte e algo até ansiado. O que ocorre atualmente - e esse filme é um exemplo - é que utilizando-se da facilitação dos modismos que são obtidos por decupagens e montagens, utilizando-se de personagens disfuncionais (que prescindem diálogos), abusando-se das imagens "opressivas" da natureza, acaba abdicando-se de um mínimo de essência, de um mínimo de razão literária, de um mínimo sincero a ser revelado, e entregam-se-nos trabalhos falsos, que fingem estar contando algo, quando na realidade estão só cansando nossas mentes, com o resultado de que nada fica arquivado.








Leia as matérias deste festival:

I - Release de abertura
II - En La Ciudad de Sylvia
III - Queime depois de ler
IV - Guerra sem cortes
V - Inútil
VI - Vocês, os Vivos
VII - Viagem do balão vermelho
VIII - Pan-Cinema Permanente
IX - Aquiles e a tartaruga
X - Glória ao cineasta
XI - Simonal
XII - Feliz Natal
XIII - A Raiva
XIV - O Céu, a Terra e a Chuva
XV - Puffball
XVI - Gomorra
XVII - Terra Vermelha
XVIII - Liverpool
XIX - A Fronteira da Alvorada
XX - Adoração
XXI - Boogie
XXII - Noite e Dia
XXIII - O sal desse mar
XXIV - Segurando as Pontas
XXV - Les Amours d'Astrée et de Céladon
XXVI - Sukiyaki Western Django
XXVII - Minha Mágica
XXVII - Fatal
XXVIII - Amor e Honra
XXIX - Renascimento
XXX - Alexandra
XXXI - Diego Rivera: A Revolução do Olhar
XXXII - Cinzas do Passado - Redux
XXXIII - O Silêncio de Lorna
XXXIV - Mais tarde, você vai entender...
XXXV - Premiados