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FESTIVAL DO RIO 2008

A Raiva", de Albertina Carri


Por Cid Nader

Quando um nome como o de Pablo Trapero - um dos reais grandes nomes do cinema argentino moderno (principalmente como diretor) - aparece na ficha técnica de filme de diretor quase desconhecido (nesse caso uma diretora, Albertina Carri, e tendo ele como um dos produtores) resta sempre a impressão e a esperança de que algo com mais qualidade, ou ousadia, ou novidade surgirá na tela. Até que Trapero não queimou fichas nessa sua aposta, mas também ficou óbvio que essa aposta e a disponibilização de seu nome e "fama" também não serviram para trazer algo a ser reconhecido e lembrado como peça indispensável.

Em "A Raiva" alguns vícios "modernos" fazem o mal papel de macular as tentativas e intenções - tanto estéticas quanto na escolha da história - inscrevendo o filme na lista de obras que têm abusado de descobertas recentes na forma narrativa (poderiam ser os irmãos Dardenne com suas figuras "dessociadas", mas muito mais Michael Hanekke e seus tipo doentes sociais, ou ainda a conterrânea Lucrécia Martel com um modo de observar da forma mais pessimista possível sua sociedade e suas gentes) repetindo-as com trejeitos e uma certa falta de profundidade, no intuito principal de angariar a simpatia de alguns incautos ou novos na praça.

Vale lembrar que a parcela da sociedade argentina (mais doentia ou decadente) representada aqui, diferentemente do que professa Lucrécia Martel quando a enxerga no mundo mais urbano (pequenas ou grandes urbes), foi capturada do campo, e esse fato, junto a algumas situações de sexo violento ou bizarrices comportamentais (a da bela menininha surda), acaba por "encostar" o filme, também (e aí se nutrindo de mais um modismo em alta) ao que vem surgindo em grande quantidade no cinema mexicano - que está com uma certa grana para gastar e tem dourado a pílula da pobreza, fazendo-a remédio inócuo para a real pobreza e miséria do país. Vale lembrar que essa história de famílias disfuncionais, recheadas de pessoas doentes das idéias, com graves problemas com relação ao sexo e afins está cansando - como se não existissem mais pessoas "padrão" sobre a face da Terra, ou como se elas (existindo), estivessem sempre representando a faceta comum e mundana que camuflaria suas doenças.

Seria injusto ficar somente enxergando falhas nesse trabalho. Alguns momentos pictóricos beiram uma beleza plástica inacreditável - principalmente quando o céu é o limite, e mais principalmente ainda em dois momentos em que a Lua é mostrada (em duas fases diferentes) de forma opressiva -; as atuações das crianças são muito boas e sua idealização também; algumas inserções de desenhos caem bem e criam cortes (aí sim) inventivos e de bom resultado na ligação das partes; e mesmo todo o destrinchamento de um porco (coisa que já foi moda em filmes oriundos da Itália e do Leste Europeu n uma certa época), que a princípio pareceria mais uma gratuidade, resultou mais interessante do que se suporia. O modo dedicado aos animais do filme - cachorros sempre fiéis demais aos humanos (para o bem e para o mal), doninha aprisionada (com um resultado apavorante por suas reações), carneiros atacados - também empresta pontos positivos ao trabalho, que volta a perdê-los, por exemplo(além do que já havia perdido pelos cacoetes e trejeitos executados), na criação da história que trata de traição, que é tratada durante a trajetória da película com uma imensidão de "idéias", para um desfecho já imaginado.

Imaginado, mas com uma contundência interessante a mais, o que só prova que as imitações utilizadas na confecção estética diminuíram um tanto do impacto final que restaria como algo a ser lembrado mais fortemente.








Leia as matérias deste festival:

I - Release de abertura
II - En La Ciudad de Sylvia
III - Queime depois de ler
IV - Guerra sem cortes
V - Inútil
VI - Vocês, os Vivos
VII - Viagem do balão vermelho
VIII - Pan-Cinema Permanente
IX - Aquiles e a tartaruga
X - Glória ao cineasta
XI - Simonal
XII - Feliz Natal
XIII - A Raiva
XIV - O Céu, a Terra e a Chuva
XV - Puffball
XVI - Gomorra
XVII - Terra Vermelha
XVIII - Liverpool
XIX - A Fronteira da Alvorada
XX - Adoração
XXI - Boogie
XXII - Noite e Dia
XXIII - O sal desse mar
XXIV - Segurando as Pontas
XXV - Les Amours d'Astrée et de Céladon
XXVI - Sukiyaki Western Django
XXVII - Minha Mágica
XXVII - Fatal
XXVIII - Amor e Honra
XXIX - Renascimento
XXX - Alexandra
XXXI - Diego Rivera: A Revolução do Olhar
XXXII - Cinzas do Passado - Redux
XXXIII - O Silêncio de Lorna
XXXIV - Mais tarde, você vai entender...
XXXV - Premiados