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FESTIVAL DO RIO 2008

"Simonal – Ninguém Sabe o Duro que Dei, de Cláudio Manoel, Calvito Leal e Michael Langer

Por Cid Nader


Que Wilson Simonal foi um dos grandes fenômenos de nossa história recente cultural, é fato reconhecido por quem quer que tenha qualquer tipo de acesso a informações musicais ou políticas. Negro e muito mais "suingado" do que preconizava o momento da década de 60, quando outros negros surgiram como ídolos da nação – negros que se comportavam de forma muito mais 'família", muito mais dentro dos padrões sociais, muito mais dentro do se que exigia como paridade de comportamento ao que sempre executaram os brancos nas maneiras de condutas a serem copiadas para se ser bem aceito dentro da esfera "normal" e dominante -, o cantor carioca que tinha uma voz espetacular e cheia de modulações variadas, sempre incomodou por suas atitudes tidas como arrogantes. Nesse trabalho sobre a vida dele feita para o cinema, percebe-se que ele tentava exercer – na realidade conseguia – o domínio sobre platéias basicamente brancas como algo "sublimado" por sorrisinho irônicos e debochadores.

Não foi figura fácil, mas também não negou a raça. Andou sempre na contra-mão do discurso político contestador oficial da grande intelectualidade, mas sempre exerceu de modo particular essas contestações. O documentário é exemplar nesse desvendar de uma pessoa que surgiu muito pobre e alcançou a maior das famas "populares". O modo escolhido para contar essa passagem da pobreza ao estrelato não é didática, e sim construída com depoimentos e imagens diversos, que têm que ser construídas (nada complexo não) pelo espectador. Mas o avançar da história contada vai revelando um documentário bem feito, que vai revelando, por sua vez, a figura do cantor, do apogeu ao inferno. De maneira até linear. O que serve para invalidar ma quase teoria minha de que documentários necessitam demais de alterações rítmicas e na construção para se fazerem peças imprescindíveis. A própria história do cantor já o faz grande.

Muitos depoimentos e muitas imagens de arquivo (sorte retratar figuras da mídia na hora de arranjar imagens de arquivo). A glória do cantor, no início, nos remte a momentos de riso e admiração pura. O final que conta a razão de sua descida ao inferno, nos transtorna muito, a princípio. E a idéia dos realizadores em não tornar o filme somente chapa branca – se bem que, mesmo se fosse trataria de assunto espinhoso e complexo demais – se seu faz melhor momento, seu melhor achado: quando os documentaristas vêm a São Paulo em busca da figura chave do ex-contador de Simonal e lhe dá voz, o filme toma o rumo da discussão sobre o que é a verdadeira "condição humana". Na dúvida imposta – uma certeza, na realidade – percebe-se o quanto um ser tem que pagar por ter pecado minimamente. A revelação que sobra é a de que nem sempre exercemos o humanismo propalado aos ventos – e no caso, esse não cumprimento veio da parte de artistas e cultos -, quando não possibilitamos a chance de regeneração a alguém que errou. Pela entrevista com o contador, percebe-se que ele errou, mas era um outro erro; diferente do que o levou à lenta da morte do esquecimento, da não chance; sempre merecedor do "perdão". E termina um filme muito triste.








Leia as matérias deste festival:

I - Release de abertura
II - En La Ciudad de Sylvia
III - Queime depois de ler
IV - Guerra sem cortes
V - Inútil
VI - Vocês, os Vivos
VII - Viagem do balão vermelho
VIII - Pan-Cinema Permanente
IX - Aquiles e a tartaruga
X - Glória ao cineasta
XI - Simonal
XII - Feliz Natal
XIII - A Raiva
XIV - O Céu, a Terra e a Chuva
XV - Puffball
XVI - Gomorra
XVII - Terra Vermelha
XVIII - Liverpool
XIX - A Fronteira da Alvorada
XX - Adoração
XXI - Boogie
XXII - Noite e Dia
XXIII - O sal desse mar
XXIV - Segurando as Pontas
XXV - Les Amours d'Astrée et de Céladon
XXVI - Sukiyaki Western Django
XXVII - Minha Mágica
XXVII - Fatal
XXVIII - Amor e Honra
XXIX - Renascimento
XXX - Alexandra
XXXI - Diego Rivera: A Revolução do Olhar
XXXII - Cinzas do Passado - Redux
XXXIII - O Silêncio de Lorna
XXXIV - Mais tarde, você vai entender...
XXXV - Premiados