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FESTIVAL DO RIO 2008

"Aquiles e a tartaruga", de Takeshi Kitano

Por Anahí Borges


Com “Akires to Kame (Aquiles e a Tartaruga)”, Takeshi Kitano encerra a sua trilogia sobre o vazio iniciada com “Takeshis”, em 2005, e no ano passado com “Glory to the filmaker", também em exibição no Festival do Rio.

“Akires to Kame” é um filme em tom de fábula-tragicômica que conta a história de Machisu e seu sonho de se tornar artista plástico. Um filme que possui um arco de tempo extenso, partindo da infância burguesa e sofrida do personagem, atravessando sua fase adulta até chegar à sua velhice incerta e fracassada (na velhice, Machisu é interpretado pelo próprio Kitano). Através do percurso de vida de Machisu, Kitano discute as condições materiais, emotivas e espirituais que possibilitam a existência e reconhecimento de um artista na sociedade.

Machisu enquanto criança rica, filho de um colecionador de obras de arte e, que, portanto vive entre artistas, é estimulado (e financiado) pelo pai a pintar quadros. Kitano ironiza a questão: “O menino havia o sonho de ser pintor, mas era um sonho induzido...” Depois de uma tragédia familiar, a vida prática de Machisu muda e as condições para o exercício da pintura são ameaçadas. Sem um mecenas, o que é de um artista? A arte exige um conhecimento técnico obrigatório e específico que legitime o seu exercício? Enfim, quais são as regras para alguém ser reconhecido artista-plástico? Para responder a estas tantas perguntas, Kitano constrói um filme irônico, colorido (as telas de pintura são feitas pelo próprio cineasta), melancólico, com momentos de humor que são improvisadamente interrompidos por alguma situação trágica (elemento característico da poética do cineasta). Sonho e realidade, morte e vida, arte e vida, vida e fracasso. No percurso de Machisu, a loucura e obsessão são as bases de um discurso que resvala muitas vezes na retórica e sentimentalismo para expor a tentativa frustrada de um homem de encontrar sua identidade artística. Universidade serve para alguma coisa? No filme de Kitano, a eficácia de uma Academia de Belas Artes é contestada, assim como a obrigatoriedade da invenção e da vanguarda. Qual é o limite ético e estético para e experimentação artística? Machisu perde a razão, copia, experimenta, inventa, põe em risco sua vida e a de outros, mas continua encarcerado em seu eterno círculo de não-prestígio.








Leia as matérias deste festival:

I - Release de abertura
II - En La Ciudad de Sylvia
III - Queime depois de ler
IV - Guerra sem cortes
V - Inútil
VI - Vocês, os Vivos
VII - Viagem do balão vermelho
VIII - Pan-Cinema Permanente
IX - Aquiles e a tartaruga
X - Glória ao cineasta
XI - Simonal
XII - Feliz Natal
XIII - A Raiva
XIV - O Céu, a Terra e a Chuva
XV - Puffball
XVI - Gomorra
XVII - Terra Vermelha
XVIII - Liverpool
XIX - A Fronteira da Alvorada
XX - Adoração
XXI - Boogie
XXII - Noite e Dia
XXIII - O sal desse mar
XXIV - Segurando as Pontas
XXV - Les Amours d'Astrée et de Céladon
XXVI - Sukiyaki Western Django
XXVII - Minha Mágica
XXVII - Fatal
XXVIII - Amor e Honra
XXIX - Renascimento
XXX - Alexandra
XXXI - Diego Rivera: A Revolução do Olhar
XXXII - Cinzas do Passado - Redux
XXXIII - O Silêncio de Lorna
XXXIV - Mais tarde, você vai entender...
XXXV - Premiados