FESTIVAL DO RIO 2008 "A Viagem do Balão Vermelho", de Hou Hsiao-Hsien Por Cid Nader Lembro de ter dito ao final de meu comentário sobre o filme "Floresta dos Lamentos", de Naomi Kawase (no Festival do Rio do ano passado), que o cinema atual talvez esteja entrando numa nova era de excelência, movida e originada nos países do extremo-oriente, e que realizadores que não souberem perceber ou não tentarem entender essa verdadeira evolução estética, ficarão defasados, para trás, e não conseguirão mais concretizar obras num novo e irreversível nível de alta qualidade. Não há como negar que o diretor chinês Hou Hsiao-hsien, construindo uma carreira já não tão recente, esteja na ponta das pontas dentre esses fantásticos realizadores orientais, e que o aguardar de novas obras suas é sempre razão para expectativas das mais acalentadas e ansiadas por parte de cinéfilos rigorosos e críticos atentos. Vem construindo uma carreira onde o mais notável é uma não repetição de "vícios" técnicos, justamente na procura que parece eterna de limites e bom senso na utilização das possibilidades e das ferramentas que o cinema oferece, e na ousadia que procura beirar os limites estéticos. Quando ele resolve filmar no seu país uma referência cinematográfica, que é a França, e homenageando uma obra de nítido teor "mitológico" dentro do que o país produziu - a obra homenageada é "Le Ballon Rouge", de Albert Lamorisse, tem curta duração (30 min), e é trabalho de referência para quem procura entender o cinema como a arte mais desenvolvida e importante dos tempos atuais -, expectativas vão ao cume e a curiosidade não consegue ser contida. E eis que vi o tão aguardado "Le Voyage du Ballon Rouge". Não dá para dizer que o cinema não possa ser a arte do abstracionismo, da não conversa, da não explicação, da não razão lógica, da motivação pictórica ao olhar, ao observar - algo muito mais ligado ao mundo das artes plásticas -, quando de sai da sala de cinema após o aconchego que o filme oferece ao espírito (crítico ou lúdico, que seja). Acontece que Hou Hsiao-hsien vem perseguindo sistematicamente maneiras diferenciadas de confeccionar filmes. Aposta na qualidade e na sutileza nos momentos de buscar detalhes, de criar imagens, de definir seqüências, e isso foi feito nesse trabalho de maneira tão "absurdamente" sensível, que a intimidade do menino que vê o balão, que toca piano, que é adulto demais para sua idade, todas as sutilezas de uma criança tão especial, são passadas para nós de forma que extrapola (abdica?) a narrativa oral para tal. Isso é: Hsiao-hsien fez uma livre homenagem a um filme que "falava" às crianças, e das crianças - mesmo sendo obra "adulta" na concepção original - mas o fez de forma a fazer perceber que, "se um balão é meu personagem de ligação, não é necessário que eu conte minha história com palavras, e se eu quiser fazer da maneira não corriqueira, pensando na comunicação possível entre um garoto e um "personagem" de plástico vermelho, pensando na sua ligação, terei que executar técnicas de cinema" (e é isso evidentemente que ele vem fazendo no transcorrer dos anos). A babá do filme é oriental, Song Fang, tailandesa, e sua admiração pelos aspectos físicos de Paris - que é filmada desde o primeiro instante do filme de maneira apaixonada e deslumbrada (seja nos pequenos detalhes, seja na vastidão dos seus telhados) -, assume, com certeza, de maneira mecânica e importante, o modo do diretor olhar a Fança, de admirá-la; e muito mais do que nos aspectos físicos: lá dentro, na sua essência, no seu comportamento e, principalmente, por seu cinema. A maneira como o balão vermelho é filmado, com calma, atenção, sem perdê-lo em seus lentos deslocamentos, empresta, numa sintetização do que se está querendo contar, toda a essência que o trabalho procura emanar. É dado àquele pedaço de borracha vermelha inflada todo uma gama de importância sensorial que muitos poucos conseguiriam contar via qualquer métodos narrativos - os mais usuais e facilitadores que fossem. E o que o diretor conseguiu com uma obsessão "messiânica" - porém plácida e tranqüila - é fazer com que lentes focando um balão revelassem um filme de alma inigualável: o balão é a imaginação, mas observa e remete a observar junto; flana pelas cenas como espírito que acompanha, e seu trajeto é desenhado pelas câmeras de maneira tão suave e quase tão sureal que se percebe estar diante de uma "marca cinematográfica". No filme, Suzanne (Juliette Binoche) faz uma mãe hiper-atarefada que escolhe a babá tailandesa para cuidar de Simon (Simon Iteanu). Suzanne trabalha com crianças e marionetes, mas é estressada ao extremo. Problemas com homens, com grana e com um vizinho folgado. Simon encontra no balão e na nova babá a paz que lhe é particular por nascimento. Encontra na babá e no balão, também, a gentileza que a irmã - que não mora mais com ele - lhe concedia. Os momentos em que a relembra, são dignos de emoção "fílmica" que somente grandes artistas conseguiriam. Mas Hou Hsiao-hsien consegue, na realidade, um filme inteiro de emoção à flor da pele. Além do modo de filmar o balão, além do modo de rememorar as conversas entre os irmãos, abastece seu trabalho com um misto de virtuosimo/técnica e sensibilidade - cortes corretos e calmos, enquadramentos maravilhosos, a inegável calma da câmera, e um detalhe típico das artes plásticas a que me referi no início (aliás, a cena de quadro com um balão vermelho comentado por várias crianças é mais um achado), que se dá com constância em todos os takes, em todas as cenas, em todos os momentos, com algum objeto vermelho compondo parte do cenário. Esse pequeno detalhe que poderia passar como virtuosismo gratuito, na realidade, insere o filme no patamar definitivo da obra que se relaciona com seu público sob vários aspectos, por várias formas, com um piano que é afinado ao fundo de uma seqüência, com balão que tem alma, com a câmera exemplar, com as personalidades bem definidas, com o garoto que procura em seu mundo a paz de alguém à parte. A seqüência final, tem velocidade e beleza de fazer chorar; e chorar aqui, somente como se chora diante da beleza suprema, da arte ímpar, da capacidade humana de fazer o belo - apesar dos pesares -, de observar o belo, de encontrar o belo. |
Leia as matérias deste festival: I - Release de abertura II - En La Ciudad de Sylvia III - Queime depois de ler IV - Guerra sem cortes V - Inútil VI - Vocês, os Vivos VII - Viagem do balão vermelho VIII - Pan-Cinema Permanente IX - Aquiles e a tartaruga X - Glória ao cineasta XI - Simonal XII - Feliz Natal XIII - A Raiva XIV - O Céu, a Terra e a Chuva XV - Puffball XVI - Gomorra XVII - Terra Vermelha XVIII - Liverpool XIX - A Fronteira da Alvorada XX - Adoração XXI - Boogie XXII - Noite e Dia XXIII - O sal desse mar XXIV - Segurando as Pontas XXV - Les Amours d'Astrée et de Céladon XXVI - Sukiyaki Western Django XXVII - Minha Mágica XXVII - Fatal XXVIII - Amor e Honra XXIX - Renascimento XXX - Alexandra XXXI - Diego Rivera: A Revolução do Olhar XXXII - Cinzas do Passado - Redux XXXIII - O Silêncio de Lorna XXXIV - Mais tarde, você vai entender... XXXV - Premiados |