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FESTIVAL DO RIO 2008

"Vocês, os Vivos", de Roy Andersson


Por Cid Nader


Os diretores escandinavos têm uma perspectiva muito particular do mundo e da humanidade. O frio, o bem estar adquirido como necessidade premente através dos tempos, o isolamento causado pelo mesmo frio, e ao mesmo tempo um humor estranho - para nossos padrões obviamente mais expansivos -, criação religiosa e de outro estofo moral. O que quero dizer, numa simplificação pra lá de vagabunda e acomodada de análise - sei que a Escandinávia não é única, sei que os países têm particularidades, sei que uma pessoa pode fazer a diferença em meio ao todo, e que pensar em avaliações por pacote requer, ou cara-de-pau, ou confiança em que não se vá longe demais nos meandros; que se resuma estruturas com intenções de fácil esclarecimento ou colocação dentro de algum contexto - é que há algo nos filmes originários daquela região do planeta que faz com que os reconheçamos automaticamente (sem ser os cabelos loiros dos protagonistas). Mas nem sempre - diria até que na maioria das vezes - as obras deles são dignas de elogios ou atenção a mais do que a simples curiosidade. O que - ainda bem - não é o caso desse "Vocês, os Vivos", realizado pelo diretor sueco Roy Anderson.

Curioso, que apesar de produção a que me refiro como obra típica, é co-produção de um tanto considerável de outros países, passando algo do comportamento alemão em seu entremeio, e de alguma razão exacerbada do modo de ser dos franceses. Mas fala, essencialmente, da contraposição individual de pessoas, de indivíduos, do que imaginamos ser o bloco social. Anderson filmou mais de cinqüenta esquetes para construir um painel. Primeiro: me pareceu que sempre - ou quase - com câmera parada, mas, de qualquer forma, com calma, com todo o jeito de quem observa e analisa, e dando unicidade ao tema que procurava a não unicidade (cinqüenta filminhos não podem ser imaginados como algo que procure, ou alcance facilmente, resultados orgânicos), através do mesmo tipo de iluminação, enquadramentos, cortes e velocidades. Mas, mais um ponto favorável ao filme, mais um ponto atraente dentro de proposta que poderia ser pré-avaliada como complicada e "pesada" demais, é aposta num olhar bem-humorado lançado encima das situações: sim, aquele humor estranho, afiado e pronto a empatizar.

Quando se observa o indivíduo isolado se percebe seus dramas e suas neuroses, suas alegrias, seus preconceitos, seu modo recolhido de entender o mundo - não externalizado, fato que se dá muito mais facilmente em grupo (há um exemplo disso na seqüência do jantar, com comportamentos tradicionalistas misturados a reações e símbolos nazistas, e que encaminha aquele momento para uma das situações mais non-sénse do filme, boa na solução e inventiva no modo como é narrada) -, se nota um lado da proposta do diretor. O outro - e que coaduna, dá punch, legitima de modo bem interessante a proposta -, se nota quando o todo participa, quando o tal do bolo social interfere, em situações de multidões, ou de pessoas reunidas num número considerável. Quando falo da importância dessa "complementação" da observação paralela à feita junto aos indivíduos isolados, é porque só aí se nota o quanto superficial costuma a ser a generalização dos povos: o "povo" é observado com carinho; age de maneira curiosa, vibrante; age por reação ao incentivo e, principalmente, percebe-se que Anderson quer nos dizer que apesar dos vícios sociais suas pessoas têm alma boa, acima de tudo. Meio inocente, brotando da sisudez aparente. Por essa visão dividida, "Vocês, os Vivos" tem muito mais méritos do que problemas.








Leia as matérias deste festival:

I - Release de abertura
II - En La Ciudad de Sylvia
III - Queime depois de ler
IV - Guerra sem cortes
V - Inútil
VI - Vocês, os Vivos
VII - Viagem do balão vermelho
VIII - Pan-Cinema Permanente
IX - Aquiles e a tartaruga
X - Glória ao cineasta
XI - Simonal
XII - Feliz Natal
XIII - A Raiva
XIV - O Céu, a Terra e a Chuva
XV - Puffball
XVI - Gomorra
XVII - Terra Vermelha
XVIII - Liverpool
XIX - A Fronteira da Alvorada
XX - Adoração
XXI - Boogie
XXII - Noite e Dia
XXIII - O sal desse mar
XXIV - Segurando as Pontas
XXV - Les Amours d'Astrée et de Céladon
XXVI - Sukiyaki Western Django
XXVII - Minha Mágica
XXVII - Fatal
XXVIII - Amor e Honra
XXIX - Renascimento
XXX - Alexandra
XXXI - Diego Rivera: A Revolução do Olhar
XXXII - Cinzas do Passado - Redux
XXXIII - O Silêncio de Lorna
XXXIV - Mais tarde, você vai entender...
XXXV - Premiados