FESTIVAL DO RIO 2008 “Guerra sem cortes”, Brian de Palma Por Cid Nader A carreira de Brian de Palma é um caso interessante dentro da história do cinema moderno. Quando surgiu, ficou muito mais reconhecido como aquele que refazia obras clássicas através de homenagens dentro de seus filmes; uns o viam como um inventor de estilo e escola, mas outros o desqualificavam, rebaixando-o para a categoria de aproveitador. Com o passar do tempo, foi ficando cada vez mais nítida a importância de sua existência no cinema, pois sua inegável capacidade de realizador ganhou força com os roteiros hiper-elaborados, a capacidade muito mais inventiva no momento da edição, da decupagem, e, principalmente, pelos malabarismos inimitáveis que conseguia com câmeras e construções de cenas pra lá de calculadas. Num dado momento, o diretor americano passou a ser considerado como imprescindível no cinema recente e seus filmes ganharam a aura de incontestáveis, de dignos de participarem dos melhores festivais do mundo como obras referenciais. De Palma passou a ser considerado um dos grandes diretores americanos da atualidade, sendo colocado constantemente lado-a-lado com Martin Scorsese, Clint Eastwood ou David Lynch. Passando à atualidade e colocando o realizador como um cidadão comum americano. Enquanto "Guerra Sem Cortes" avançava na tela - com sua história contando as mazelas de um país invadido, o Iraque, retratando barbaridades (com avisos excessivos no início da projeção de aquilo era obra de ficção, de que os personagens retratados eram fictícios, coisa e tal) cometida por soldados americanos contra cidadãos do país invadido, tudo com jeito de "novidade" a ser alardeada e de denúncia inédita jogada ao mundo -, não parava de pensar em como a maioria dos cidadãos americanos está alijada da realidade, do que acontece fora de seus quintais, e, um pouco decepcionado, como aquilo que o grande diretor denunciava em seu filme não passava de obra requentada para o resto da humanidade. Sim, como obra de denúncia, de percepção de uma realidade contundente, vá lá; mas o escândalo causado, a aura de coragem emprestada por alguns a de Palma por conta do filme, ficava na minha cabeça como coisa boba. A explicitação da realidade deve chocar realmente somente parte da população do grande país da América do Norte, pois chega às telas com jeito de alerta requentado. Se visto somente pelo aspecto da essência, o filme me pareceria uma tremenda decepção e o diretor cairia em meu conceito; passaria a vê-lo como observador lento do que ocorre fora de seu país. Mas a obra tem alguns outros aspectos que a fazem crescer e ter muita razão de existir. Dentro do filme há uma seqüência "francesa", realizada ficcionalmente - é bom alertar que tudo que ocorre na tela, apesar de retratar uma realidade inquestionável, é obra cinematográfica de puro caráter ficcional - que é de potência indiscutível, pois mostra através de um olhar "neutro" as situações que na realidade são o grande quê a ser discutido. Por esse olhar percebe-se mais nitidamente que boa parte das acusações de barbárie a soldados e retaliadores locais, é muito mais fruto de: garotos deslocados de seu país, com a idéia de que poderão morrer a qualquer momento e que reagem, como qualquer humano assustado, como qualquer animal; de nativos invadidos em seus brios, em seu orgulho, em seu território físico, assustados e que reagem, como qualquer humano, como qualquer animal assustado. Outro aspecto que dá o filme um padrão altíssimo de qualidade - e visto por aí, a distância da denúncia infantil fica para trás e, somente seu "caldo" civilizatório, sua potência humana, passa a ser o digerido - é sua confecção técnica/estética (estética também sem nenhum tom pejorativo, entendo que estética caminha junto à arte como parceira importante e imprescindível). Brian ressuscitou sua virtude de malabarista e realizou um filme com as possibilidades técnicas que esse mundo moderno e digitalizado oferece. Para dar um padrão de urgência e denúncia feita por pessoas comuns e soldados, captou as imagens com câmeras digitais pequenas, lentes de circuito fechado e usou, também, as imagens de padrão internet - Youtubes, sites e afins. Por esse aspecto, "Redacted" ganha razão de ser, e percebe-se que o diretor - inocente no modo "denúncia" - continua funcionado muito bem no modo "confecção". Noves fora - imagens fortes de estupro e decapitação - é filme que não pode ser visto somente sob um aspecto; mesmo. |
Leia as matérias deste festival: I - Release de abertura II - En La Ciudad de Sylvia III - Queime depois de ler IV - Guerra sem cortes V - Inútil VI - Vocês, os Vivos VII - Viagem do balão vermelho VIII - Pan-Cinema Permanente IX - Aquiles e a tartaruga X - Glória ao cineasta XI - Simonal XII - Feliz Natal XIII - A Raiva XIV - O Céu, a Terra e a Chuva XV - Puffball XVI - Gomorra XVII - Terra Vermelha XVIII - Liverpool XIX - A Fronteira da Alvorada XX - Adoração XXI - Boogie XXII - Noite e Dia XXIII - O sal desse mar XXIV - Segurando as Pontas XXV - Les Amours d'Astrée et de Céladon XXVI - Sukiyaki Western Django XXVII - Minha Mágica XXVII - Fatal XXVIII - Amor e Honra XXIX - Renascimento XXX - Alexandra XXXI - Diego Rivera: A Revolução do Olhar XXXII - Cinzas do Passado - Redux XXXIII - O Silêncio de Lorna XXXIV - Mais tarde, você vai entender... XXXV - Premiados |