FESTIVAL DO RIO 2008 En la Ciudad de Sylvia, de José Luis Guerin Por Fernando Watanabe Em meio ao emaranhado de imagens a que somos submetidos durante um festival, dificilmente se esquece deste filme de José Luis Guerin, para o bem ou para o mal. Mas, não é tanto a sensação ou emoção que se impõem (claro que estes são fatores sempre subjetivos); são suas imagens. Mais especificamente, a construção de suas imagens enquanto quadros minuciosamente compostos. Pois, se a narrativa sugerida (a busca do homem por uma mulher, cujo nome seria Sylvia) anda a passos lentos (lentíssimos), e também a emotividade resiste em surgir, as atenções do espectador são sempre desviadas dos acontecimentos em si para serem concentradas na forma de construção desses acontecimentos. E isso parece ser uma aposta firme e consciente do filme. Somente essa crença em deixar em primeiro plano suas formas metódicas de construção pode justificar a dilatação extrema de certas seqüências, cenas e planos. Como se esquecer dos enquadramentos recorrentes em todo o filme, aqueles nos quais a câmera se fixa e compõe o quadro com as cabeças e faces das pessoas, sejam elas personagens secundários ou figurantes? Nesse sentido, uma riqueza incontestável do filme com certeza é esse “estudo”, ou observação, das expressões faciais humanas (principalmente femininas), configurando uma coleção de rostos. Tais rostos são sempre belos - padrão de beleza ocidental atual, claro, mas a relatividade dessa beleza não está em discussão – porque o personagem principal do jovem desenhista idealiza a beleza. Ele busca uma mulher de nome Sylvia, mas, na verdade, logo se percebe que ele está atrás mesmo é de uma imagem. Uma imagem bela. Essa sua busca está diretamente conectada, claro, à sua falta de jeito para entrar em contato de fato com as mulheres. Numa festa noturna, ele xaveca uma gata, sem sucesso na empreitada. Não ouvimos o que ele diz ao pé do ouvido dela, mas, provavelmente, ele não foi capaz de seduzir a moça. Ela nem mesmo o olha nos olhos para fazer um contato visual mínimo que seja. Durante o dia, no café, ele passa longos tempos observando as mulheres, sem, no entanto, tomar qualquer iniciativa de estabelecer contato. O que ele ama é a imagem das mulheres. Incapaz de – ou evita de forma consciente - estabelecer algum contato que vá além do puramente visual, o que significaria se envolver, conhecer um pouco mais da substância das pessoas antes idealizadas como perfeitas pelos seus olhos. Seu olhar apurado é justamente seu limite. Podemos instantaneamente nos lembrar do “A Prisioneira” (La Captive, de Chantal Akerman, 2001), filme cuja tese era essa sobre o desejo que os homens sentem pela imagem feminina, desejo esse que inevitavelmente toma direções outras a partir do momento em que a imagem idealizada se desfaz e o “encontro” se faz necessário. O jovem desenhista, no caso, é mal sucedido em sua busca. Em seus rascunhos feitos nas mesas do café, vê-se que cada um dos desenhos que dedicara a um rosto feminino permaneceu inacabado. Das imagens idealizadas, só restam esboços. Apesar do esforço, ele não foi capaz de reter as imagens. Em uma das seqüências chaves do filme, ele persegue uma moça cujo nome seria Sylvia. Seria, sabemos disso porque depois ela diz a ele não possuir este nome. Nesse momento, uma confusão instala-se: o que mais importa ao jovem moço, a imagem de Sylvia ou o nome que deveria acompanhar tal imagem? Ainda, ele foi em busca de uma imagem antiga (de 6 anos atrás), logo, a mulher em questão deveria hoje estar diferente do que foi quando ele a conheceu. Estaria ele buscando a pessoa? Ou estaria ainda apegado a uma imagem já passada e que nunca irá se reconstituir, pois para lembrar dela ele só possui a memória, que quando solicitada é sempre traiçoeira e imprecisa? Se o contato humano é raro (uma cena sugere que ele teria tido uma noite com uma desconhecida encontrada na festa), constituir a imagem idealizada, a imagem bela, é então praticamente impossível. Dentro do extremo rigor com o qual o filme é conduzido – e aqui entenda-se rigor como uma escolha restrita de opções estéticas e narrativas com as quais o cineasta trabalha -, os planos mais abertos causam impressão diferente daqueles mais fechados nos rostos. Quando o quadro da câmera se abre, o que se vê é a encenação robótica, quase de autômatos, de transeuntes que vêm e vão, entrando e saindo pelas bordas do quadro. Ecos de influência estilística de um Antonioni, ou de um Bresson, talvez. Bem, isso não importa tanto quanto o resultado obtido por Guerín nesses planos abertos, que é o de afirmar a incomunicabilidade dos seres humanos via mecanização dos corpos. Às vezes, no entanto, essa intransigência que não permite outras formas de enquadrar e de encenar acaba por evidenciar mais o estilo do cineasta enquanto alguém que possui o “olho bom” do que constitui um mundo cinematográfico abstrato propriamente dito. Há sempre a sensação de que há vida fora do quadro enquanto o cineasta comanda seus atores dentro dele. A mecanização das situações não aparece como evidência “natural”, mas como algo que está imposto. E essa impressão só se dá justamente pela repetição incansável dos mesmos tipos de planos, sem variações, mesmo quando as situações parecem pedir por elas. Com efeito, a conjugação entre os planos fechados nos rostos (cheios de vida) com os planos abertos (onde há tudo menos vida), proporciona essa sensação de vida que ficou de fora, mas que poderia estar no filme. O filme parece demandar um pouco da vida, mas o cineasta não dá brecha. Diante dos planos dos rostos pode-se sentir encantamento, mas diante dos abertos fica-se na admiração fria diante de um encenador persistente, rígido, disposto a manter a constância de seu projeto até o fim em nome de sua tese, em nome de sua hábil demonstração. Filme seguro, sem desvios. Quando se trabalha com escolhas tão restritas, o que se espera de tal austeridade é a transcendência, seja ela vinda da poesia ou da vida das imagens. Cabe a cada um sentir e avaliar o quanto o filme é bem sucedido neste quesito de “auto-superação”. A certeza que fica, por enquanto, é que esse olhar extremamente “seletivo” do filme – seletivo nas poucas escolhas que faz de procedimentos técnicos - funciona tanto como sua qualidade como também como seu limite. |
Leia as matérias deste festival: I - Release de abertura II - En La Ciudad de Sylvia III - Queime depois de ler IV - Guerra sem cortes V - Inútil VI - Vocês, os Vivos VII - Viagem do balão vermelho VIII - Pan-Cinema Permanente IX - Aquiles e a tartaruga X - Glória ao cineasta XI - Simonal XII - Feliz Natal XIII - A Raiva XIV - O Céu, a Terra e a Chuva XV - Puffball XVI - Gomorra XVII - Terra Vermelha XVIII - Liverpool XIX - A Fronteira da Alvorada XX - Adoração XXI - Boogie XXII - Noite e Dia XXIII - O sal desse mar XXIV - Segurando as Pontas XXV - Les Amours d'Astrée et de Céladon XXVI - Sukiyaki Western Django XXVII - Minha Mágica XXVII - Fatal XXVIII - Amor e Honra XXIX - Renascimento XXX - Alexandra XXXI - Diego Rivera: A Revolução do Olhar XXXII - Cinzas do Passado - Redux XXXIII - O Silêncio de Lorna XXXIV - Mais tarde, você vai entender... XXXV - Premiados |