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15° FESTIVAL DE CINEMA E VÍDEO DE CUIABÁ



7ª Noite


Por Cid Nader

Hoje o dia começou de forma inusitada, quando toca o telefone do quarto e ouço a voz do jornalista Lorenzo Falcão – o mediador das mesas de debates – convidando-me para participar da de hoje, que contaria com o diretor Bruno Safati e a atriz Djin Sganzerla (ambos do grande filme, "Meu Nome é Dindi"). Fico indeciso, sugiro o nome do companheiro Sérgio Alpendre - editor da Revista Paisà (aliás, creio que começarei a cobrar uma comissãozinha dele por conta de tanta propaganda que faça da revista aqui no meu site – da qual também sou colaborador) – mais chegado aos holofotes do que eu. Tenho quase que um verdadeiro trauma no momento em que me posiciono em mesas de debates ou de palestras; minha mente parece desequilibrar, o fato de estarem olhando diretamente para mim, de frente, prestando atenção ao que falo, faz com que inicie manifestações faciais (caretas, mesmo) em seqüência espantosa e alguma coisinhas ruins mais. Não, não suo igual a um porco e nem gaguejo de modo imbecil (pelo menos, né?). Também não me recordo de ter desmaiado alguma vez por tensão extrema.

Depois de ter repassado o convite ao Sérgio – que rateou, mas aceitou – me peguei me questionado e cobrando-me: seja adulto, vá, enfrente os fantasmas... Coisinhas de Woody Allen. Resolvi aceitar, também, e sentamo-nos à mesa todos os cinco – façam as contas, repensem em quem citei no texto até agora e, bingo. O debate transcorreu de modo bem bom, bem satisfatório. O Bruno é o típico exemplo do jovem diretor, oriundo de uma das melhores escolas do país, a Federal Fluminense, e cria desse modo renovado de ver e discutir e o cinema bastante exercido pelos críticos da internet – principalmente, mas não somente; antes que os grandes veículos de outros veículos me crucifiquem. Falou das particularidades estéticas e técnicas, das referências que o filme utilizou – aliás, bastante interessante saber que entre essas referências havia a lembrança de "Repulsa ao Sexo" (1965), do Polanski (óbvia, mas não comentada em conversas com amigos que mantive anteriormente sobre o filme). Lúcido e elucidativo, calmo e didático, o diretor deve ter entusiasmado a, infelizmente, pequena platéia que compareceu – importantes essas mesas de debate, mas imagino que a organização do festival deva ficar mais atenta ao pequeno acesso do público; talvez deslocar, na próxima edição, as mesas para locais como a universidade por exemplo, num acordo com a instituição para fazer com que seus alunos se interessem e freqüentem as conversas; insistir e criar um hábito é o caminho, a freqüência jovem se beneficiaria, e o cinema da região ganharia com um maior acesso a informações que resultariam formação mais completa; são só sugestões. Voltando um só um pouquinho mais ao debate de ontem, resultou interessante uma conversa entre Djin e Bruno sobre a importância do roteiro na construção cinematográfica: ela muito mais partidária de uma importância bastante superior dele (o roteiro) dentro de um trabalho, citando até trabalhos de seu pai (Rogério Sganzerla) que foram bastante concentrados na técnica, e ele (Bruno), desmistificando essa importância (coisa que eu e imagino o Sérgio Alpendre também pensamos), "suprema e inquestionável" que alguns evocam quando falam de cinema, citando também outras obras do próprio Sganzerla.

Debate encerrado – rateei e falei algumas besteiras no início, mas me recuperei com o avançar do tempo (acho que as ondas cerebrais vão acalmando) – e a espera da noite, sem querer fazer muita coisa; só aguardando.

Não tenho comentado os vídeos em competição nesse ano – opção tomada por critérios pessoais -, mas ontem foi exibido um que merece breve citação. "Paradoxo da Espera de Ônibus" (RJ), de Christian Caselli é surpreendente dentro de sua proposta "vagabunda". Vagabundice assumida (em tom, meio de brincadeira, meio que a sério) pelo próprio diretor no momento da apresentação de seu trabalho, que definiu sua animação como um "desenho desanimado" – diria que uma "desanimação", entrando no tom jocoso que ele próprio propôs. Trabalho baseado em desenhos fixos, com alguns elementos de modificação sobre a rigidez proposta (como luz falhando sobre a cabeça do protagonista), utiliza de modo bastante lúcida essa opção para deslocar o foco da atenção na direção do texto. Texto que é ligeiro e inteligente, que aproveita o estereótipo do linguajar carioca, malemolente e carregado no sotaque, e insere nos "pensamentos" que formam a narração literária algo que associa a imagem do sujeito (aquele típico "perdidinho" cabeludo, sonhador, deslocado no tempo, meio filosófico e meio cervejeiro) ao proposto pelo imaginário que formamos quando vemos figuras de tal quilate. Dá pra perceber que Christian é do ramo, e dá para perceber que vídeo pode ter vida (mesmo brotada da falta de animação). Ah, chove lá fora.


MCCO – Mostra Competitiva de Curta Centro-Oeste

"Dois Tons" , ficção de Caetano Gottardi – 35mm – 16min – 2005

A leva de trabalhos do centro-oeste que estão sendo apresentados no Festival de Cuiabá, já permite perceber que vêm revestidos de um forte apego à confecção estética mais elaborada; mais elaborada no sentido de um capricho visual rico e comportado. Certo que estou tendo a oportunidade de ver trabalhos escolhidos por poucas pessoas que, provavelmente, pensam nesse primor visual como o avanço necessário para equipará-los ao que se faz de melhor nos centros mais avançados cinematograficamente. "Dois Tons", padece e se beneficia disso. Hiper bem filmado, com movimentos de câmera elegantes e edição correta e limpa; bom. Mas ruim, por conta de deixar transparecer que essa "contaminação limpa" arrostou-se para a idéia do filme, que é bonita, mas carece de "alma" algo mais contundente, ou mais sincera, ou menos clichê...

"Paralelos", de Alexandre Basso – 35mm - 15 min – 2007

Uma ficção criada para contar, inclusive, a história do fim de linhas férreas no sul mato-grossense (região do Pantanal). Sensível com certeza, até certo ponto... O diretor utiliza a possibilidade do flash-back para explicitar dois momentos na vida do protagonista principal - na infância e no presente -, esbarrando numa certa pieguice quando dos momentos da participação materna em meio a esse vai-e-vem temporal, mas até ganha alguns pontinhos pela utilização dessa possibilidade narrativa (não nova, com certeza) ao invés do truque de uma narração em off, por exemplo. O curta é muito bem cuidado no aspecto de cenários e captação de imagens – na opção estética. Só que poderia ser um pouco menos ostensivo nessa opção, ou talvez um pouco mais despojado - faria bem a ele, e evidenciaria seu potencial de sensibilidade por aspectos mais da "essência" e menos da forma; muito comportada em sua beleza, e pouco incisiva como ajuda narrativa.

MCC – Mostra Competitiva de Curta Metragem

"Cocais, a Cidade Reinventada", documentário-experimental de Ines Cardoso – 35mm – 15 min – 2008

Curta-documentário que procura fugir à regra em qualquer quesito; sob qualquer ponto de análise. Ponto para a diretora Ines – acredito demais no cinema de invenção. Logicamente que os riscos aumentam quando há ousadia na confecção de qualquer trabalho artístico; quando há ousadia para qualquer canto que se olhe (como acontece nesse trabalho), os riscos corridos ficam multiplicados. O filme intervêm de maneira ostensiva no modo de vida de uma comunidade (cidade manicômio) onde vivem pacientes com "problemas mentais". Há uma intervenção direta e física no local – festas foram organizadas, ajudou-se por um ano o lugar para que as coisas andassem mais nos trilhos... A diretora interferiu diretamente em todos os sentidos: sua voz aparece de modo nunca camuflado quando pergunta aos entrevistados (ao contrário, nota-se entonações pouco "profissionais", alteradas, por parte dela) – coisa normalmente pouco recomendada, mas que, pela opção do trabalho, mostrou-se interessante, justa; participa das festas (inclusive tocando animadamente violão) diante de suas lentes; filma de modo pouco documental (quando procura sempre ângulos inusitados), e filma de modo muito documental (câmera muito próxima dos rostos, sem medo de mostrar as imperfeições dos rostos; atrás das "verdades" ditas); a edição dela fez do filme concluído um evento de arte, muito próximo do cinema de invenção, muito próximo da intervenção artística.


"Alphaville 2007 d.c.", ficção de Paulinho Caruso – 35mm – 16 min – 2007

Esse curta vem fazendo uma incrível carreira de sucesso dentro do mundo cinéfilo. Faz uma observação sobre as diferenças sociais em um país onde a miséria caminha lado-a-lado com a mais enojante das riquezas ostentatórias, utilizando signos inequívocos do clássico longa de Jean-Luc Godard. A "brincadeira" cola – principalmente com quem está mais familiarizado co o filme francês -, mas o avançar do trabalho, o discurso que contesta, ganham um ar de discurso juvenil, muito mais ajustado para fazer paridade à brincadeira. Vão revelando um filme muito mais de formato externo do que "recheado". É precioso nas ligações que tenta ao filme clássico, mas o discurso vai tomando uma cara que passa da "inocente brincadeirinha culta" da contestação, a um certo ar de revanchismo estranho. Contestar é sempre necessário nessa nossa cidade de ricos inconscientes, mas levar o filme a desfechos que sugerem vingança, acaba por sair das possibilidades de indignação ou escracho puro, para inseri-lo num degrau um tanto mais perigoso.

MCL - Mostra Competitva de Longa Metragem

"O Grão", ficção de Petrus Cariry - 35mm- 88 min - 2007


Petrus tem algo a mais para diferenciá-lo: é filho do cineasta mais conhecido da região, Rosenberg, e traz essa "carga" como um diferenciador - para o bem e para o mal. Tem realizado curtas exemplares no quesito imagens, edição, e estreou no mundo dos longas com os "dois pés direitos". "O Grão" é filme que narra o fim, o ocaso, num interior cearense que remete à paralisia. Parece um tanto uma fábula. Tem a interação entre a avó e um garoto que a ouve como narradora de história. A ação se passa num interior mítico e tradicional, mas a intenção de Petrus parece muito mais atrelada ao que se preconiza como intenção dos trabalhos surgidos de outros diretores locais: desmistificar a região como algo pitoresco ou belo e simples na essência - a turma de lá não nega e até se apodera (faz bandeira) dessas tradições, mas tenta "readequá-la" ao seu estilo culto cinematográfico.

A estética é tão bela - lógica facilmente perceptível quando se pensa na obra do diretor e de seu fotógrafo, Ivo Lopes Araújo - quanto árida, e isso causa um distanciamento de uma possibilidade facilitadora que a remeteria ser compreendida com obra somente "romantizada", importante e necessário. Rosenberg é duro com seus personagens, trata-os com aridez, mas não impede o aconchego do olhar do espectador. Talvez faça o distanciamento através do texto e das ações, mas aproxima por conta de revelá-los - com toda a sua humanidade (e aí, pense-se em humanidade no sentido mais amplo do termo - falha, emocionante, errante e "buscadora") - de maneira muito próxima. Mesmo assim não se percebe uma busca da empatia por parte do diretor, que também não empresta a ninguém (nem ao menino, observador e centro por onde passa tudo) o poder do vislumbramento total. Quem faz isso é a câmera - o próprio Petrus -, num tentativa determinada de dominação total do ambiente, da narração, do nosso olhar.

O que resulta ao final é um trabalho extremamente concreto nas opções estéticas adotadas. Belíssimo nas figuras criadas - o cachorro, a avó.., - e em cenas belamente criadas para elas. Forte ao evidenciar de maneira exemplar o isolamento da família, faz disso razão para tomadas de câmera que narram situações, dispensando a oratória. Talvez a música interfira um pouco a mais do que o necessário - mas é bonita, no entanto. Termina num corte abrupto que tem sido usado como modismo, mas que cabe no filme com maneira de evitar firulas desnecessárias.


"Rita Cadilac, a Lady do Povo", documentário de Toni Venturi - digital - 75 min - 2007

Há assuntos que necessitam de empatia particular para se fazerem mais aceitáveis. Uma das funções de um bom documentário consiste em angariar a empatia de quem não se interessado pelo assunto tratado. Documentários de pessoas físicas, normalmente, são os mais acometidos por essa dificuldade/desafio. A figura de Rita Cadilac nunca foi de particular interesse para mim. Nunca imaginei – e pode-se considerar isso como falha minha mesmo – seu tamanho apelo popular como algo de real interesse. Ex-chacrete, ex-atriz de filme pornô, a mulher, Rita de Cássia, se emocionou no palco quando o filme foi anunciado. Disse que se sentia por muito mais tempo, na vida, a Rita mulher do que a Rita artista.

Por esse depoimento dela já se pode notar a provável maior chave que o diretor Toni Venturi quis "institucionalizar" como o mote condutor do trabalho. O jeito mais comum de aproximar retratados dos possíveis espectadores não empáticos é a ênfase na vida "civil", na vida particular, de preferência vincando as dificuldades no início da vida, e levando (esse espectador) para dentro da casa da pessoa – se ela ainda mantiver uma vida comum, mais próxima de "todas" as realidades. Há o perigo da aproximação do sensacionalismo, da pieguice, evidentemente, mas notando que essas duas possibilidades também constituem um certo "charme" para um público menos exigente, catequizado pelos noticiários sensacionalistas e novelas de trama barata. Toni acompanha (fisicamente, mostrando sua própria figura na tela) Rita desde o início das filmagens e faz o jogo padrão das revelações de sua história intercaladas com depoimentos, cenas de arquivo e fotos de momentos dela. Inicia mesmo na casa dela nos tempos atuais, e do jeito que as primeiras cenas vão revelando os preparativos de um almoço na cozinha, percebe-se uma pessoa "humilde" mesmo após anos de sucesso. Chave condutora revelada.

Talvez o fato de eu tentar "pensar" pelo diretor e seu "modos operandi" não tenha permitido que a empatia junto ao assunto tivesse ganhado espaço. Tentei perceber o tempo todo o trabalho com o maior rigor possível para evitar cair demais na avaliação particular demais. Observei um esforço danado executado por Venturi no momento da montagem com o objetivo nítido de dinamizar e dar qualidade estética ao material garimpado e filmado (aí, avançando à frente e deixando para trás a chave principal possível de ser usada – e que realmente o foi). Ele consegue alguns momentos bastante exatos: a revelação de fotos de momentos da vida dela é feita através de um jogo de superposição interessante, como se fosse manual, e que utiliza uma espécie de pano fundo que as remetia a determinado momento de datas e complementando um ambiente propositalmente "brega" (notando que esse termo brega, utilizo mais como uma maneira de me referir ao contexto no qual a personagem se criou e de onde foi exportada para o reconhecimento); os momentos da reverência a ela nas prisões são emocionantes porque revelam o sentido de justiça e proteção que pode emanar daqueles que são considerados "bestas", quando defendem quem imagina mereça ser defendido, e a admiração deles por ela se faz bastante evidente; o depoimento autêntico de Chacrinha na TV Cultura também é uma bela peça de garimpagem.

Mas muitos dos tempos do filme estão definitivamente comprometidos pela não concretização do "angariar" em favor da personagem Rita Cadilac: é over e "intrometida" a cena do casamento; over algumas declarações pessoais e de alguns outros mais próximos quando se referem a ela em diversos momentos da vida; ruim mesmo (e novamente desnecessariamente intrometido) o encontro com uma irmã; fake as tentativas de divinizá-la em variados momentos profissionais (notando que não me refiro ao fato de se aprovar ou não suas opções, suas escolhas; refiro-me mesmo ao fato da tentativa eterna de "super-heroização" por tais escolhas). A verve de Rita incomoda também: nunca errada, nunca pecadora, nunca humana na essência (sabe, aquela espécie terrestre que acerta e erra também). Fica parecendo chapa branca demais, se bem que aí seja a opção do diretor que não deve ser questionada, somente analisada.










Leia as matérias deste festival:

I - Abertura / Dulce Veiga
II - 2ª noite - Amigos de Risco e Corpo
III - 3ª noite - Anabazys e Deserto Feliz
IV - 4ª noite - O Aborto dos Outros e Via Láctea
V - 5ª Noite - Ainda Orangotangos e Mutum
VI - 6ª noite - Meu none é Dindi e Santiago
VII - 7ª Noite - "O Grão" e "Rita Cadilac"
VIII - 8º Dia - Memória Para Uso Diário e Signo da
IX - Cleópatra
X - Premiados - Balanço Final