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15° FESTIVAL DE CINEMA E VÍDEO DE CUIABÁ



5ª Noite


Por Cid Nader

Hoje foi um daqueles dias em que minha opção foi a de acompanhar um dos eventos paralelos do Festival. Dia em que o "Projeto Cinema Paradiso" direcionou suas atenções a um lar de idosos, na tentativa de fazer com que o cinema realizasse uma de suas funções primordiais e ancestrais que é a do entretimento, pura e simplesmente – sem competições motivadoras, preocupações com críticas, estilos e opções estéticas, pipoca e refrigerante servidos à vontade e atenções direcionadas somente à tela. Esse projeto é nitidamente um dos que salta de maneira mais carinhosa dos olhos dos organizadores, que percebem a possibilidade que a arte pode carregar consigo de trazer para o mundo dos "vivos" os que trafegam em espécies de limbos. A organização designa alguns locais para levar uma pequena tela de cinema desmontável, uma caixa de som, aparelho de DVD e projetor, os refrigerantes e as pipocas. Quando falo de limbos, refiro-me a lugares que raramente podem ser considerados como apêndices saudáveis de uma boa vida "terrestre", como hospitais para pessoas pobres, casas para idosos, penitenciária (que foi a minha missão iniciadora como jornalista acompanhante no ano passado), APAEs, Casas de Amparo às Mulheres Vítimas e por aí afora.

Desembarco junto com a coordenadora do projeto, Aliana Camargo e Luiza Goulart no Lar Dona Bebé (cidade vizinha, Várzea Grande) e começa um pequeno ritual de aproximação como tentativa de breve apaziguamento para almas cansadas. Um local simples, porém muito grande, com vasto terreno externo e vasta área construída. Percebo logo na entrada que a simplicidade é o mote do ambiente. Percebo logo de cara que os idosos lá acolhidos são oriundos das camadas mais desfavorecidas. Simpáticos, alguns se aproximam para cumprimentar – umas duas ou três mulheres intimidadas e uma quantidade maior de homens, que fazem do aperto de mão, olhar direto e sorriso (como se fosse uma auto-afirmação de que ainda transitam firmes e fortes no mundo comum, e de que são jovens e saudáveis). Achei curiosa essa reação masculina passando a impressão de que estavam se enxergando em mim ou nos outros dois homens que nos acompanharam como ajudantes de Aliana. Numa seqüência de tentativas de interpretação das reações, ficou nítido que a fixação firme num ponto único de atração (mesmo sendo uma tela de cinema como um ineditismo que pressuporia atenção) está longe de ser uma característica dessas pessoas nesse estágio da vida. Poucas prestaram atenção realmente ao que era projetado nas suas frentes. Curioso mesmo esse momento da vida de um ser humano. Onde será que vagam de verdade seus pensamentos; em que nível de compreensão transitam suas idéias; provável que esse escape deva ser um dos responsáveis para a continuidade de desejo de vida, de alimentação, de resistência. Mas vamos lá...

Os que conseguiram se fixar mais demoradamente nas imagens reagiram placidamente, sutilmente, e percebi que compreendiam o que acontecia em momentos mais específicos – uma senhora, um pouco mais jovem e robusta que os outros, bastante magros e mirrados, com jeito um pouco mais "maluquinho", foi a que mais reagiu de maneira perceptível. Reconheceu Laura Cardoso como "aquela mulher da novela", riu, questionou um senhorzinho "perdidinho" sobre um acontecimento, que prontamente respondeu afirmativamente e entusiasmado a ela. A intenção, das mais nobres, funciona por diversos canais em cada uma das situações buscadas. É óbvio que o fato da mudança de rotina traz ganhos. O ambiente, no mínimo ganha ares, de novidade; há frescor no ambiente. Alguns e algumas vêm se despedir de forma nitidamente mais "ligada" ao final – mesmo sem que eu saiba se é mesmo de "ligadas" que esses seres necessitam; mesmo sem saber o quão felizes podem estar lá no sue mundinho – e isso de alguma forma também nos lava a alma. O projeto é importante e é barato como tentativa de reaproximações. Gosto dele.

Só como dado mais específico, soube que o Lar Dona Bebé se mantém através de uma associação com a Prefeitura (que paga os funcionários do local, fornece gás, luz e energia), consegue o dinheiro necessário para o dia-a-dia e alimentação por conta da aposentadoria dos velhinhos internos (inclusive vai atrás dos direitos dos que ainda não tem sua pensão oficialmente e mereceriam), recebe auxílio de médicos em fase de estágio, de enfermeiros e fisioterapeutas na mesma situação. Os que lá são assistidos são na maioria pessoas abandonadas pela família ou gente da rua. Obviamente não é um paraíso, mas deu para notar que há um esforço físico notável por parte das organizadoras do local, e há um esforço e conjunção de idéias bastante interessante, sobre como obter os recursos necessários.

Já na rua de volta ao hotel: calor, muito calor. Antes, na manhã, a mesa de debates esquentou por conta de questionamentos à diretora e à produtora de "Aborto dos Outros" (Carla Gallo e Moema Müller). Após explanações das duas relatando as motivações que as fizeram concretizar tal trabalho, pessoas inverteram a mira oficial do documentário, que vinha na defesa da mulher dentro do processo, e colocaram "dados científicos" que provariam a existência de vida (a possibilidade de classificação técnica como vida de um ser) já vinte e quatro horas após a fecundação. Essas pessoas também opinaram ter entendido que as realizadoras cometiam simplificações colocando boa parte de culpa de insucessos e abortos ilegais nas instituições religiosas, Houve réplicas convincentes, o assunto estendeu um pouco a mais e, novamente, o questionar "cinema e técnicas de construção" ficou praticamente esquecido. E mais uma, referente ao documentário: em meu texto sobre o filme citei o fato de tê-lo percebido bastante feminino, intuindo até uma participação mais "ostensiva" da produtora Moema; ontem no debate elas fizeram perceber que Paulo Sacramento (diretor, produtor e dono da "Olhos de Cão", produtora que abrigou o trabalho) também participou decisivamente do trabalho – como é de seu estilo, aliás – em todos os momentos.

Programação da noite na sala de cinema.


MCC – Mostra de Competitiva de Curta Metragem


"Igbá-Odú, Cabaça da Criação", documentário de Carla Lyra – 35mm – 16 min – 2007

Trabalho inicial de cineasta com formação em Ciências Sociais, se mostra obviamente "refém" da formação original de sua realizadora, Carla Lyra. Quando digo refém, quero dizer que é típico filme feito com toda a carga de estudo antropológico, que vem com o intuito de informar – e consegue – sobre uma cabaça que serve de elo de ligação entre criação artística e religiosa (tudo dentro de um contexto africano, adaptado para os ares pernambucanos). Ela manda muito bem nessa elucidação antropológica e em opções de edição que facilitam essa intenção: principalmente pela boa utilização de desenhos infantis como unificadores de momentos, com um bastante especial que ganha animação e música bastante bem realizados. Mas quando digo refém, também, é porque fica nítido que em alguns momentos há a tentativa da obtenção de imagens por manipulação das lentes de forma mais ousada – tomadas de imagens sacras africanas, tomadas do mar e de movimentos ritmados -, mas de resultado em alguns instantes bastante abaixo do que se deveria esperar, como se ficasse óbvio que é trabalho de iniciante que não é formada na área. Nada que o tempo não corrija.

"A Peste de Janice" , ficção de Rafael Figueiredo – 35mm – 15 min – 2007

Ficção que fala da maldade inerente à infância. Comum vermos obras que retratam esse comportamento "ruim" que vem atrelado talvez por formação genética, talvez por criação, mas bastante usual entre as crianças. Mas não me empolga por se conformar em narrar de modo comum demais. O trabalho de cenografia e reconstituição são bem caprichados, as atuações das duas atrizes mirins, também. A abordagem do tema vai sendo revelada aos poucos, e nesse sentido o filme tem méritos e me contradiria a afirmação inicial – vá lá: o texto inicial era de uma visita ao filme num festival, anteriormente, e me senti à vontade para mantê-lo intacto aqui, porque o que me incomodava continuou incomodando; sinto um pouco de falta, quando o assunto é provocador, de provocação no formato. Mas, por outro lado, cresceu muito em essência e no modo não técnico da narração (aquela que fala do uso das câmeras e da edição), e amadurece como obra com avançar da história, até desfechar de modo bastante sensível e direto.


MCL – Mostra Competitiva de Longa Metragem

"Ainda Orangotangos"
, ficção de Gustavo Spolidoro – 35mm – 81 min - 2007

Enquanto esperava a oportunidade de ver esse primeiro trabalho em formato de longa=metragem, que estava preparando o profícuo curta-metragista Gustavo Spolidoro, dúvidas sobre o que se propalava aos quatro ventos como o grande atrativo do filme – ser ele todo rodado através de um único plano-seqüência – me passavam pela cabeça. Seria esse o único e grande atrativo em que apostavam os realizadores, como o que faria o filme ganhar espaço na mídia para atingir o público? Lembrava automaticamente do mais badalado de todos os filmes que ousaram arriscar nesse terreno – vale lembrar, que fato de filmes realmente sem nenhum corte ou truque, com mais de setenta minutos, poderem ser constituídos é fato razoavelmente recente, proporcionado e possível de ser concretizado a partir do surgimento das câmeras digitais (antes disso, não havia a possibilidade técnica da criação de películas de tamanho tão avantajado para tal procedimento) – que foi o badalado e atacado "Arca Russa", de Alexander Sokurov.

Quando a oportunidade surgiu e me vi constatando o resultado da tentativa, finalmente, as primeiras diferenças mais evidentes entre o produto brasileiro e o russo foram logo ficando nítidas. O filme de Sokurov é uma grande peça ensaiada, que percorre todos os ambientes do museu de L'Hermitage, com espaços e figurinos criados para retratar algumas diferenças de séculos, e que conta toda a história da Rússia até os dias mais recentes. Portanto, um trabalho complexo pelo fato de ser filmado numa tacada só, mas de "razoável facilidade" – bem entendido - de domínio por ter sido realizado num espaço fechado, onde as condições climáticas, de luminosidade, técnicas em geral, são mais facilmente controláveis (espaços fechados são a "casa" ideal do cinema. Gustavo já começou seu filme ousando, na janela de um trem, recuando, na seqüência, para a parte interna e criando um dos dois maiores momentos do filme – que tem a ver com um casal de japoneses, "perdidos" num país estranho.

Só que um trabalho tão complexo, que até denota um prazer pelo virtuosismo – se bem que o autor negue, e se bem que, com bom senso, percebamos que realmente não era ostensiva simplesmente uma demonstração do gênero –, não tem como se sustentar tecnicamente bem em todos os momentos. Em alguns instantes o som fica delicadamente comprometido e um certo cansaço – até por conta de alguns "episódios" intermediários que não tem força suficiente para se sustentarem por si só – podem fazer com que a atenção ao que se passa na tela perca intensidade. Só que creio importante perceber que "caídas" de ritmo, ou alguns momentos mais alongados – pense-se no momento do ônibus, por exemplo – também tem uma razão prática de ser, por conta de tempos nitidamente necessários para a continuidade técnica do trabalho. Toda uma logística extremamente complexa necessitava, com certeza, de espaços para respiro; de tempos para as mudanças de ambientes.

Mas no final, revelou-se trabalho que tem grandes momentos como regar geral; algo que com o passar do tempo acaba por ser o que mais resta na lembrança. O primeiro momento – o do casal de japoneses – é até esplendoroso em sua beleza e na demonstração da dificuldade do ser estrangeiro fora de seus domínios (creio impoprtante até pensá-lo como metafórico). A cena do garotinho que entra numa farmácia para comprar remédio para dor de cabeça, sua discussão, sua verve, sua "lógica" e sua ameaça final, também é exemplar. E o final, absoluta e espertamente catártico (esperto porque é o que restará mais facilmente "rememorável" na retina do espectador), é grande pela atuação física do cantor, e por um "velhinho" que o acompanha meio que à parte – note-se, nesse caso do tal "velhinho", um procedimento comum do cinema, que faz com que as possibilidades de desvio da atenção se apresentem ao espectador quando de momentos intensos de um filme: como que emprestando a possibilidade do erro da "parte" que está se manifestando no limite, e com a criação de possível um escape visual. Há um outro bom momento em que Spolidoro quebra a "linearidade" ao inserir um sonho ruim no meio da trama, contrapondo a lógica do instantâneo que nutre a essência narrativa do trabalho – trama que, como sugeriu alguém num debate, faz imaginar o filme como um amontoado de curtas ajuntados. Para terminar, há a grande sacada que faz com que tudo se passe - dentro de seus econômicos 81 minutos - como se fosse dentro de um espaço de 14 horas. Surreal isso, de fácil explicação "meteorológica", num filme que melhora com o tempo, volto a dizer. Ajuntando-se todos os "bons momentos" que fui citando durante o texto, resta uma grande experiência visual e sonora.


"Mutum" , ficção de Sandra Kogut – 35mm- 95 min – 2007

A diretora Sandra Kogut parece estar traçando uma carreira firme e diferenciada. Seus trabalhos não se repetem; circula por diversas definições, e não empresta assinatura reconhecível. Quero dizer que não vem constituindo uma carreira com teor autoral – não daria para perceber que o documentário "Um Passaporte Húngaro" (2001) é da mesma autora desse "Mutum", por exemplo – apesar de trabalhar com bastante distante entre um filme e outro concluído (uma espécie de característica comum a diretores autorais). Mas não falo isso como algo desabonador; cito essa constatação por conta de me parecer curioso somente, e porque ela tem nos entregado trabalhos todos sempre muito bons, dentro de registros não reconhecíveis entre si.

Minas Gerais é o lugar de excelência no imaginário de um país profundo criado por Guimarães Rosa. "Mutum" é trabalho baseado em obra dele e o que mais impressiona durante o tempo todo da exibição é a capacidade da diretora em reproduzir no formato cinema o que as letras do grande escritor conseguiram incutir no imaginário das pessoas cultas – como resgates observacionais afinadíssimos e inequívocos do imaginário e dos pensamentos das pessoas "não cultas" que constituem a vida desses rincões mineiros. O filme trafega placidamente por toda uma situação interiorana de almas e espaços físicos. Há uma atenção muito especial, e bem trabalhada, das lentes aos detalhes – insetos, vegetação (muita lente macro sendo usada para captar alguns pequenos elementos e detalhes que formam a criação desses seres interioranos – a tecnologia conseguindo, de modo sensível, reproduzir por imagens as palavras escritas do grande escritor, que por si já poderiam ser consideradas como as ferramentas técnicas que reproduziram anteriormente o interior das pessoas) -, às mudanças do clima, ao comportamento comum e aparente do dia-a-dia de quem se entrega, conformado, à labuta obrigatória para a sobrevivência em regiões que exigem muita dedicação e esforço. Essas lentes conseguem também ser sensíveis o suficiente para revelarem o profundo das pessoas que não manifestam abertamente, normalmente, suas complexidades nesses ambientes do país profundo, mas para isso a diretora consegue uma composição de atuações tremendamente bem "organizada": o menino Thiago (Thiago da Silva Mariz) que é a "voz", a cara desse povo a ser registrado, faz o pivô em torno do qual tudo gira, e sua atuação surpreende pelas manifestações que brotam sempre fortes e inequívocas quanto ao que ele quer passar, pelo seu modo observador e pela sensibilidade recatada, medrosa, carinhosa (a sua admiração pelo irmão mais velho é um grande retrato da estruturação de admiração bastante comum notada como uma espécie de pilar imexível na constituição familiar desse país do interior); João Miguel, como o pai, se faz figura daquelas que parecem brotadas dos livros de Guimarães sem nenhum tipo de mudança na "tinta"; o caso impensável entre a mãe e o tio são construídos pelos atores na mesma toada irrepreensível do resto do elenco, e revelada uma das facetas profundas que raramente extrapolam para a camada exterior dérmica (quando sucede, normalmente resulta tragédia).

O tempo conseguido pelo ritmo do filme captura quase hipnoticamente. Não me pareceu em, nenhum momento, que os intentos da diretora não tenham sido atingidos. É tudo narrado na velocidade necessária. Dá para sentir um Guimarães narrando. A abordagem da religiosidade é tocada sem nenhum tipo de tentativa de opinião própria, com uma compreensão do modo de professá-la que não lembro ter visto ultimamente – ela deixa que seus atores conversem sobre Deus e seus desígnios do modo mais próximo e íntimo que outras "proximidades" à natureza já denunciavam ser procedimento comum. O tempo e o ritmo são os verdadeiros condutores das vidas dessas pessoas tremendamente enraizadas, e as possibilidades de mudança – que normalmente surgem com um deslocamento físico "forçado" e tristonho (obrigatório para uns poucos, que normalmente serão os que nos contarão essas histórias) - acontecem; e Sandra a utiliza belamente, placidamente, conformadamente. Os ruídos – outro fator forte de formação de identidades nessas condições de vida - jamais são maculados por música, e também são alvo de atenção da diretora. Mas a música comparece, única, no final, durante os créditos, e a sensação que ela causa nos faz não querer abandonar a sala – como se tivéssemos sido capturados por esse país profundo; como se tivéssemos acabado de ler o próprio Guimarães Rosa. Raro isso. Raro e grande filme.










Leia as matérias deste festival:

I - Abertura / Dulce Veiga
II - 2ª noite - Amigos de Risco e Corpo
III - 3ª noite - Anabazys e Deserto Feliz
IV - 4ª noite - O Aborto dos Outros e Via Láctea
V - 5ª Noite - Ainda Orangotangos e Mutum
VI - 6ª noite - Meu none é Dindi e Santiago
VII - 7ª Noite - "O Grão" e "Rita Cadilac"
VIII - 8º Dia - Memória Para Uso Diário e Signo da
IX - Cleópatra
X - Premiados - Balanço Final