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15° FESTIVAL DE CINEMA E VÍDEO DE CUAIBÁ



4ª Noite


Por Cid Nader

Domingo de trabalho pela frente. Havia a grande possibilidade de assistir a um show no final da tarde em que a homenageada seria a Bossa Nova – 50 anos; confesso, eu não sabia. O show teria a presença de vários artistas, mas com a importância maior da participação do grande Paulo Moura. Nunca antes assisti a alguma apresentação do músico ao vivo, e não foi dessa vez. É um lamento confesso. Infelizmente, o instante quase que único chocava-se com os horários das apresentações diárias obrigatórias dos filmes no cinema do Shopping Pantanal, e nesse momento, a minha mania de querer ser justo quanto à minha verdadeira razão de estar aqui (que é a de fazer uma cobertura sobre um evento "cinematográfico") prevaleceu. Quem sabe numa outra geração...

O debate da manhã foi bastante interessante e agitado: por conta da fluidez verborrágico/culta do diretor Joel Pizzini – que falava sobre "Anabazys" com conhecimento extenso da causa "Glauber", e com conhecimento extenso também da causa cinema. Pizzini falou de captações, contou histórias, falou de desavenças, de detalhes técnicos, e "cobrou" uma falta de questionamentos mais específicos - num aspecto geral, não especialmente hoje - nesses debates a respeito de técnicas de construção, referências, e outras coisas que fazem da arte objeto de estudos aprofundados por uma boa parcela de fãs e críticos. Paloma Rocha também se manifestou bastante contando do processo de realização do "documentário", da paixão empreendida, do conhecimento técnico utilizado, mas emocionou - provavelmente sem perceber - quando várias vezes deixou transparecer o fato de ser filha do diretor, demonstrando admiração, respeito, amor. Ante o questionamento de alguém na platéia que referia a uma falácia de Fernando Meirelles que desabonava Glauber, mostrou-se irritada, e respondeu em tom calmo, finíssimo; notei reações faciais que lembravam muito os trejeitos do pai quando se exaltava – impressionante o que faz a genética.

Na mesma mesa, o assunto também derivou um pouco mais alongadamente para algumas conclusões e reações (precipitadas, equivocadas, algumas mais coerentes, mas essa diversidade opinativa é um dos fatores dos quais as artes deveria se abastecer, afinal) sobre as "reais" intenções que o jovem diretor Daniel Ribeiro teria tido na confecção de seu curta-metragem, "Café com Leite". Ele se saiu bem diante da intensidade de opiniões controversas que "exigiam" mais explicações.

Pela primeira vez me sentei à mesa de um "baguncinha" nesse ano – trailers que ficam em frente ao hotel, vendendo sanduíches e bebidas para os notívagos. Acompanhado de Sergio Alpendre (editor da Revista Paisà) e – olhem ele novamente aí – Joel Pizzini. A conversa foi pra lá de boa, divertida, esclarecedora, e revelou um Joel muito bom quando o assunto é, sacadinhas e trocadilhos. Para quem abdica de aprazíveis passeios à Chapada dos Guimarães, de reconhecimentos a outros recantos da cidade, e algumas possibilidades lúdicas a mais, em favor do trabalho duro e incansável de escriba, um tempinho no "baguncinha", é ouro.

Afora isso, ficar por perto do hotel enquanto o sol castiga tem sido uma das minhas atividades preferidas. E o dia de domingo foi passando, e eu ficando, trabalhando na sala de imprensa, indo a debates, o sol queimando, eu torcendo pela chegada da Lua, ameaças de cochilo em uma parte da tarde e, finalmente, ida à noite cinematográfica. Com sala mais vazia, mas não por isso menos barulhenta. Aliás, parte da platéia tem caprichado na falta de civilidade esse ano. Atender telefones celulares no meio das sessões tornou-se mais do que mau hábito, atividade indispensável. Conversar descontraidamente em voz alta, também (se bem que sobre isso recaia uma subjetividade sobre o que é falar alto para mim, e o que é falar alto para um surdo). Ninguém é obrigado a compreender um filme como o outro, risadas têm que ser aturadas mesmo se o caso for de morte na película, certo, mas o verdadeiro footing que ocorre nos corredores na frente a tela, realmente... Deixando de razinhices, ao trabalhos.


MCCO – Mostra Curta Centro-Oeste

"O Pescador de Cinema", documentário de Ângelo Lima – 35mm – 15 min - 1999

Dessa vez o homenageado não é alguém daqui, mas da vizinha Goiás. O documentário conta, com um frescor obtido pela mistura com elementos e momentos de ficção, a trajetória de um pioneiro do cinema local, João Bennio. Produtor, diretor e ator, se fez retratado aqui por Ângelo Lima, através de imagens de filmes em que atuou, de depoimentos de gente que teve obras produzidas por ele (Cecil Thiré, por exemplo, em seu primeiro filme como diretor), de gente que atuou com ele (Tônia Carreiro, mãe de Cecil) e de trechos do filme que dirigiu, "O Azarento" (1972), onde percebe-se um trabalho bastante datado – nada demais aliás. "O Pescador de Cinema" é singelo quando remete a história do homem a seu local de origem, quando destaca a natureza, as imagens de rios, as atividades lúdicas de pescadores (até por representação ficcional). Valeu a empreitada.

"Resto de Sabão" , ficção de Rochane Torres – 35mm – 13 min – 2005

Filmes que se amparam de maneira exageradamente reverencial na manifestação teatral - no seu modo de confecção – tendem a ser exagerados, ou pretensiosos demais em suas ambições artísticas. Logicamente estou próximo de uma opinião generalizadora, mas esse curta de Rochane Torres confirma os clichês que são tipos de opinião como esta que dei. Resultou um daqueles trabalhos em que as caras e caretas de atores teatrais (que servem muito bem para quando se atua no palco, e "reage" de modo muito artificial na imensidão da imagem projetada em tela grande) dominam demais a cena; onde as falas recitadas pomposamente atrapalham qualquer possibilidade de "sinceridade" do texto. Ainda mais, há uma pretensão estética que cheira a firula desnecessária, tentando agradar pelo esplendor na manipulação das cores, das luzes...

"Anjo Alecrim" , documentário de Viviane Louise – 35mm – 18 min – 2005

Bonito pela opção em detalhar - através de fotografia aproximada e correta - pequenos detalhes da cenografia regional, da ambientação interna dos lares e dos exteriores, o curta de Viviane Louise consegue se mostrar "limpo" em intenções, tanto quanto parece ser "puro" o trajeto do retratado por ela, o violeiro e cantador Doma da Conceição. A opção em trabalhar com as crianças de sua região, contando-lhes história da viola, parece resgatar coisas que quase não se imagina mais existir. Mas o filme consegue retratar um interior de nossa terra, ancestral e que ainda fala com sotaque e pureza; consegue passar ao espectador histórias que parecem perdidas no tempo. Opta por um início "atuado" (ficcional) e não entrega o ouro facilmente, fazendo com que tudo que virá a ser contado o seja, aos poucos, por entre os tais belos momentos fotográficos.


MCC – Mostra Competitiva de Curta Metragem

"Saliva"
, ficção de Esmir Filho – 35 mm – 9 min – 2007

Esse é um curta que - sob pretexto de contar uma simples (e bela) história de rito de passagem, daquele momento muito específico e marcante na alma das adolescentes em que a primeira sensação real de contato com o sexo oposto se dará fisicamente através de um beijo na boca - se faz, na realidade, de trabalho de experimentação "tátil" e visual, de tentativa de alcançar sensações por conta dos usos de texturas; de obra que o diretor concretiza com, no mínimo, duas pretensões. A pretensão evidente de contar sobre esses momentos adolescentes, que resulta bastante sensível - apesar de um tanto "over" no quesito viscosidade. A pretensão estética - digamos assim -, das texturas, cores, nuances, impressões, completada pelo firme e decidido modo de filmar e de editar; esta sim é surpreendente pelo obtido. Resta saber o que é de mais pertinência para o gosto do espectador, e se a evidente superioridade estética é suficiente para marcar. Em minha opinião, um trabalho muito superior ao badalado, "Alguma Coisa Assim". Um diretor em franco crescimento.

"Satori Uso" , ficção de Rodrigo Grota – 35mm – 17 min – 2007

O jovem diretor prega uma peça anunciada nesse filmete. Antes da apresentação avisou aos espectadores que seu curta era um falso documentário. Brincadeiras de tal gênero são comuns no cinema, mas o fato de ter de entregar o ouro, de ter de dizer antes da "visita" que está ali para pregar uma peça, revela uma certa insegurança; ou, talvez, sirva como um modo de evidenciar, "entre linhas", que a verdadeira intenção está em direcionar o olhar do público ao que parece realmente ser a intenção do trabalho: um exercício de estilo. O filme todo se reveste de pretensão fotográfica e rítmica, que no frigir dos ovos, não acrescenta nenhuma novidade à história dos curtas metragens – ninguém pede isso a cada filme lançado, mas existem indicativos de que a obra se pretende "superior". Há elaboração nas tomadas de câmera, mas nenhuma é tão complexa ou interessante como parece ser a intenção; há o ritmo das atuações que tentam fazer o clima anunciado na apresentação oral; há um trabalho de cores que tenta entregar a época fictícia de onde deveria ser originária a obra... Mas tudo, no final, rescende a juventude demais, e falta de reais conhecimentos para se atingir patamares de similaridades (temporais, narrativos e até de textos) desejados. Acaba sobrando mesmo somente o exercício de estilo aprendido na faculdade; que pode e deve progredir. Mas por enquanto, não colou.


MCL - Mostra Competitiva de Longa Metragem

"O Aborto dos Outros", documentário de Carla Gallo – 35mm- 72 min - 2008

A diretora Carla Gallo fez um documentário absolutamente feminino. Esse tipo de simplificação – chamar algo de feminino, ou político ao extremo, ou machista... – pode, por vezes, denunciar uma falta de criterização mais abrangente por parte de quem a utiliza. Mas no caso de "O Aborto dos Outros", vários elementos remetem o filme a tal designação: além de ser dirigido por uma mulher, tem obviamente a mão forte na produção de Moema Müller (o nome de Paulo Sacramento, um dos donos da produtora "Olhos de Cão", até consta lá, mas fica evidente que quem pôs mãos à obra foi ela), retrata um pedaço do universo de mulheres que procuram o aborto por variados motivos e, principalmente, tem um ritmo que procura entender e emanar de modo muito feminino um evento que cabe a elas decidir; que cabe a elas como interesse principal. Há também um modo de compreensão quanto ao assunto que remete o trabalho a uma "singeleza" e atmosfera muito próprio do universo delas.

Carla não força a mão nunca na tentativa de obter depoimentos ou de mostrar momentos específicos onde o aborto está sendo – ou para ser – concretizado. O filme ganha a tal singeleza que evoquei acima, muito pelo estilo confessional obtido, que passa a agir como narração e também como um elemento que define o ritmo e o trajeto da câmera. O documentário vai sendo construído sem nenhum tipo de solavanco – algo que é tipicamente masculino – e o respeito aos fatores que deflagraram cada história parece fazer com que ocorra uma aceitação admirada e atenta da platéia. Há uma queda evidente da diretora em favor do aborto – só pra constar, creio até que as preferências dos realizadores quando da realização de um trabalho sejam fatores que acabem por imprimir qualidade extra no resultado final (advindas da sinceridade e da paixão que motivam tal empreitada) -, mas isso não faz com que o filme desvirtue para algo com cara de propaganda ou de teor panfletário. Ela sabe como lidar com essa sua "tendenciosidade", revertendo-a para um bom proveito que as seqüências como ferramentas de informação. Mostra-se clara e lúcida, sem jamais deixar que a "sua opinião" prevaleça sobre o senso.

Há uma divisão nítida obtida pela escolha das diversas depoentes. Há uma percepção bastante clara que se decifra por conta da descrição de cada razão para tal empreitada. Os ambientes onde ocorrem os procedimentos, quando por "normalidade" jurídica (quando autorizados oficialmente), não são captados pelas lentes com diferenciações de resultado imagéticos que provoquem espanto ou tristeza devido diferenças de posses de cada uma das mulheres – na realidade esse cuidado em não permitir que hospitais públicos sejam representado na tela como locais menos limpos ou viáveis em relação aos hospitais particulares, é um dos fatores "femininos" do filme (no sentido de que o que importa mesmo é contar a história sem o choque do contraste como uma procura de empatia com o público). Carla trabalha com a lente sempre muito próxima das pessoas – para que suas identidades não sejam reveladas -, mas faz perceber que atrás de cada olho filmado, de cada mecha de cabelo captada, há um "brilho ansioso" no aguardo de um final. Essa proximidade das lentes acaba por "unificar" os locais físicos onde são captados os depoimentos, o que resulta na não manipulação do contraste social como algo a nos fazer tomar mais as dores de uma em detrimento de outra. A idéia da discussão acaba preservada e reforçada por essa similaridade de ambientes.

No final sim ocorre um depoimento mais de cara aberta – onde o rosto e o corpo da pessoa são totalmente desvendados – em que coincidentemente há um evidente prejuízo social que motivou o ato, e que deflagrou a ação mais equivocada em busca do auxílio. Nesse caso as conseqüências foram mais complexas – em vários sentidos -, mas a opção da diretora me pareceu dirigida mais para servir como o alerta potente do qual o filme sempre fugiu, ainda mais se associado aos depoimentos aproximados e seqüenciais de médicos e entendidos falando do assunto. Talvez esse tenha sido o comportamento mais "masculino" de um trabalho dirigido com coerência a um público certo.


"A Via Láctea", ficção de Lina Chamie – 35mm – 88 min – 2007

De diretores bissextos é justo esperar mais complexidade quando do momento da constatação de uma nova obra concluída. Mais do que justo, creio que deva ser uma cobrança. Lina Chamie é um exemplo de autor bissexto. Seu primeiro e único longa-metragem foi realizado no ano de 2001, "Tônica Dominante", e o espaço de seis anos já se faz justo para classificá-la como tal; ao menos por enquanto. Se digo que é justo esperar e cobrar complexidade, justo também é dizer que a diretora foi fundo nessa tentativa de alcançá-la e, visto por esse aspecto, "A Via Láctea" é um digno exemplo de trabalho que tenta fazer jus a espaços de tempos longos para a conclusão de obras.

O filme é complexo em sua proposta de narrativa e, principalmente, de construção. Nesses quesitos poderia se dizer que recaem os méritos e possíveis senões. Lina ousa o tempo todo nesse seu trabalho. Ousa muito e faz com que o filme corra riscos. Adoro isso, pra falar a verdade. Ao contar a velha e boa história de amor que inicia e acaba – a mais utilizada pelo cinema desde seu início -, o filme se nega a percorrer os tradicionais e manjados caminhos lacrimosos, investinndo num vai-e-vem que também escapa de ousadias já propostas em trabalhos não conformados.

Só para constar: Heitor (Marco Ricca, também produtor do filme) um professor quarentão, se apaixona por Júlia (Alice Braga), uma jovem atriz teatral. Júlia, obviamente tem mais gás para enfrentar uma vida mais urbana. Mesmo assim acaba ocorrendo a conjunção, que vem com alegrias, medos e ciúmes. Uma história de amor, medo da perda e de recordações começa a ser contada.

Lina Chamie faz com que seu trabalho demonstre ostensivamente do que o cinema é feito, na realidade: uma aglutinação de obras mais antigas, como o teatro, a literatura e a música. Mas não faz isso da maneira tradicional – e sempre louvada por todos nós –, que consiste em imiscuir essas outras artes de maneira disfarçada dentro do processo de confecção. Lina explicita as diferenças e quase que as isola em setores rígidos por boa parte do filme. Há o teatro – e há mesmo, com gravação feita dentro do mundo de "As Bacantes" -; há explícitas manifestações – leituras ou quase que - de belos textos literários, onde são citados, de maneira emocionante, trechos do grande Carlos Drumont de Andrade e do necessário Mário Chamie; e há a música de Sattie e Mozart, com trechos de obras que são eternamente utilizadas e reutilizadas pelo cinema, como ícones sonoros chavões da arte, mas que ganha aqui essa "estranheza" proporcionada por tal ousar o tempo todo da diretora, que não inclui tais trechos – como não o fez com os escritos, nem com os atuados teatralmente - de modo camuflado e "natural" na película.

Para ficar dentro do que mais chama a atenção - que é esse pé no acelerador em busca de um distanciamento do comum -, é impressionante a maneira como e cidade São Paulo se faz fotografada. Impressiona por conta da delicadeza na busca de detalhes que, num todo, aparecem de modo grandioso e "agressivo". Muito nítido que a cidade é um terceiro vértice da história, e sua importância se coaduna com as do casal "gente" de protagonistas, por conta de abraçá-los em alguns recantos particulares e só reconhecidos por quem mora nela, explodindo num momento seguinte em grandeza e até opressão de imagens e luzes. A diretora de fotografia Kátia Coelho consegue fazer perceber que a relação entre duas pessoas talvez seja algo que dependa essencialmente da intimidade, mas que não é possível exercê-la sem ser observado pela grandiosidade do horizonte das luzes e dos prédios. Incomoda um pouco o trabalho de fotografia quando a câmera resolve "tremer" em busca de alguns momentos de tensão – um modismo que poderia ser evitado, ainda mais dentro de um filme que tenta ousar a ponto de diferenciar-se em relação à mesmice -, mas isso se dá em poucos momentos, sendo que nos mais imprescindíveis não nega fogo.

Como trabalho com esse grau de aposta, de busca, o filme corre o tempo todo em cima do fio da navalha, e o medo de um escorregão fatal me sobressaltava. Como todo trabalho que não tem medo de ousar e apostar o tempo todo, ao final não se percebe um trabalho perfeito e zerado. Por momentos pensei: "isso poderia ter sido evitado"; ou, "esse outro teria sido melhor com uma outra solução". Mas muito melhor assim. O cinema necessita de coragem para não se deixar ser capturado.










Leia as matérias deste festival:

I - Abertura / Dulce Veiga
II - 2ª noite - Amigos de Risco e Corpo
III - 3ª noite - Anabazys e Deserto Feliz
IV - 4ª noite - O Aborto dos Outros e Via Láctea
V - 5ª Noite - Ainda Orangotangos e Mutum
VI - 6ª noite - Meu none é Dindi e Santiago
VII - 7ª Noite - "O Grão" e "Rita Cadilac"
VIII - 8º Dia - Memória Para Uso Diário e Signo da
IX - Cleópatra
X - Premiados - Balanço Final