Fonte: [+] [-]






15° FESTIVAL DE CINEMA E VÍDEO DE CUAIBÁ



3ª Noite


Por Cid Nader

Hoje o sábado tem jeito de cuiabano - no quesito cinema, bem entendido. Dia de homenagem a um cineasta local - emigrado para o sudeste e meio esquecido por aqui - Reynaldo Paes de Barros, e dia do início da exibição da Mostra Vídeos do Mato (basicamente trabalhos mato-grossenses, incluindo agora os do Mato Grosso do Sul). Antes de entrar diretamente no assunto real que me trouxe aqui (o cinema) e antes de falar algo sobre esse dia cuiabano cinematográfico, até imagino que tenha algum leitor - ao menos um - realmente preocupado com minha saúde (física ou mental) após tanta reclamação por conta do calor que tem feito desde o dia em que cheguei (talvez até, quem sabe, tenha algum leitor me lendo mais especificamente tomando atenção à minha descrição meteorológica pensando numa esticada de alguns dias para uma pescaria no rio Cuiabá, ou uma passada na Chapada...), e a esse(s) digo que: ou meu termostato (seria termômetro?) orgânico torrou, ou eu estou me acostumando com essa loucura de ar abafado e sol incandescente, ou a temperatura caiu um pouco mesmo. A ponto de não me pegar em nenhum momento do dia que vai passando com vontade de tocar bumbos na tentativa de chamar chuva (já que neve seria um pouco demais).

Quanto à homenagem ao cineasta Reynaldo Paes de Barros, interessante saber pelo breve discurso de Luiz Borges, que não se "sabia" da existência dele por aqui - de uma maneira mais geral - até pouco tempo e que havia um desejo interno entre os organizadores do evento em se homenagear a atriz Fernanda Montenegro. Quando se falou na figura de Paes de Barros, prontamente os louros foram preparados para ele - por conta de uma lógica em se privilegiar sempre alguém nativo. Subiu ao palco, fez um breve discurso, soube-se que fez carreira no sudeste, estudou nos Estados Unidos, mora em São Paulo e, entusiasmado quando soube das homenagens que receberia, saiu à cata de negativos de um de seus longas, "Pantanal de Sangue" (1971), encomendou uma cópia nova do trabalho que não ficou pronta a tempo, adiando parte do programa dedicado a ele hoje para o próximo final de semana. Mas dois curtas documentários (que falavam da região, de sua estrutura biológica básica, e de sua estrutura alterada pelo homem fazendo da região desde a década de 50 um enorme campo de pastagem de gados) dele foram exibidos, e deu para perceber um domínio técnico bastante correto e até tentativas mais "ousadas" de captação e montagem, com o evidente intuito de dar velocidade e atratividade aos filmes. Boiadeiros bem filmados em trabalho, com zooms e enquadramentos típicos dos anos 1970, belo uso de helicóptero para contar a formação geológica da região e a necessidade inequívoca das cheias, e alguns "truques" interessantes, como o dos vaqueiros e seus cavalos correndo na direção das lentes. São sempre válidas essas homenagens dentro da necessidade muito humana do auto-reconhecimento no outro (que de alguma forma venceu) que poderia ser qualquer um de nós, por fazer parte da minha origem geográfica ou étnica.

Quanto aos vídeos mato-grossenses passados hoje, só o comentário de que há uma evidente tentativa de linguagens diversas (experimentações, comediazinhas, documentários), mas há ainda um bom caminho a ser percorrido dentro de um formato (esse do vídeo) que nunca se mostrou o melhor para resultados de mais bom acabamento.


MCC - Mostra Competitiva de Curta Metragem

"Esboço Para Fotografia", ficção de Bruno Carneiro - 35mm - 15 min - 2008

Um exemplo não muito comum - mas já experimentado - de filme construído por elipses. Toda sua "costura" carrega nas emendas um salto temporal à fente. O recurso da narração em off se faz quase que uma obrigação nesse modelo de trabalho se a história base tem a pretensão da linearidade, da compreensão normal. Bruno Carneiro tem essa intenção e acaba contando uma história que fala das eternas dúvidas existenciais humanas que acometem somente a espécie (uma carga quase sempre indesejada, gerada por nossa "maravilhosa" capacidade de raciocínio e elaboração de idéias), muito ligadas, nesse caso, ao envelhecimento. Acabamento de primeira - cenografia, elementos físicos, fotografia, edição -, numa obra que tem alguns momentos nitidamente melhores que outros. E são variados - independem do momento cronológico -, me parecendo díspares mais pela entonação dos variados narradores, do que pelo acerto ou erro da "dúvida" impingida a cada "idade do personagem". Resta a impressão (certeza) - quando constatada a essência - de um trabalho bonito e bastante triste.

"Café com Leite", ficção de Daniel Ribeiro - 35mm - 18 min - 2007

Daniel Ribeiro parece que chocará no início - para alguns até acontece o choque, ainda - ao explicitar na tela um relacionamento homossexual masculino. Mas ao final, seu objetivo - isso se revelará via imagens e construção, obtidas com câmera elegante e firme que não busca as extremidades em busca de ousadias, numa evidenciação óbvia (pelo obtido) de que o seguro (nesse quesito "técnica") pode ser a melhor opção - girará mais em torno do relacionamento entre um ser jovem e um ser mais jovem ainda. O fato de um irmão ter que assumir um outro mais novo é o mote. Conforme o final se delineia e desfecha, poderia ser até entendido como um tanto careta quando define rumos "comuns" - numa aparente fuga da ousadia de proposta inicial. Mas não deve ser desconsiderado esse rumo adotado - e hoje na revisão do filme isso me pareceu mais firme - se entendido como um rito de passagem, aproximação e reconhecimento.


MCL - Mostra Competitiva de Longa Metragem

"Anabazys"
, documentário de Paloma Rocha e Joel Pizzini - 35 mm - 98 min - 2007

O diretor Joel Pizini costuma ser reconhecido como autor que trabalha o cinema sob uma ótica mais poética, digamos assim. Seu modo de compreensão da arte inviabiliza pensá-la linearmente, narrada concretamente, editada de maneira comum ou conformada. É o típico exemplo do autor que procura sempre atingir seu público via outros sentidos de compreensão; suas obras costumam se contar muito por subtextos, que levam a sub-compreensões... Talvez o fato de ter surgido de modo inequívoco através da linguagem dos curtas metragens tenha feito com que seu olhar tenha sido construído com uma urgência que fizessem com que tempos alongados e minuciosos de detalhamento oral fossem desconsiderados - o que teria contado como elemento bastante pertinente na sua "formação" -, em primeiro lugar; em segundo, é bem possível, também, que sua veia "artística" que privilegia formas mais tênues, menos "claras", mais intuitivas - se bem que sempre muito bem respaldadas por informações cultas - tenha encontrado nesse início somente o formato diminuto como o disponível para abrigá-lo e à sua essência "alterada".

Associado à sua mulher Paloma Rocha - filha de Glauber -, e ao montador original de "Idade da Terra", Ricardo Miranda, empreendeu uma odisséia que os mergulhou no trabalho extenso (por tempo demandado) e ansiado, de pesquisa, de restauro, de suor e certezas que resultou na espécie de documentário denominado "Anabazys". Tratou-se de uma empreitada mesmo quase épica na tentativa de apresentar ao público detalhes e raridades ligadas à obra mais "descontruída" e "desconstuidora" do genial diretor baiano, que é o seu "Idade da Terra" (1980). Filme que ganhou aura de mitológico, sempre e sempre causando debates, falácias, especulações sobre casos atrelados a ele: verdadeiro testamento do diretor. Glauber envolveu-se em discussões que se tornaram mitológicas na tentativa de defesa dessa sua criação - reveladas em "Anabazys" com detalhamentos, humor, momentos de rispidez e dedos levantados.

Jamais poderia esperar de algo vindo das mãos e cabeça de Pizzini algo como uma simples e formal demonstração de resultado de suor braçal - obviamente que resultou louvável esse lado da questão quando constatado o resultado obtido pelo cuidadoso restauro de trechos quase perdidos, de entrevistas e afins. Paloma surge como uma tenaz batalhadora, e trabalhadora, em busca da explicitação pública de um trabalho que sabe ser de importância vital para quem se diz apreciador de cinema. Imagina-se ser dela boa parte esse suor e pé-no-chão executador. O resultado obtido em parceria com a Cinemateca Brasileira e Ctav é dos mais raros que já tive a oportunidade de ver nos quesitos limpidez, brilho, cores, sons... Técnica. E a complementação obtida quando percebido o lado "artístico" do trabalho é de fazer chorar de emoção, de cair o queixo, de acreditar que Deus existe. Joel interferiu - como poucos poderiam, com sua "compreensão" particular da arte, com sua criação nela -, mas manteve a linha provocadora de Glauber. A sucessão de imagens, o ritmo dos sons, as seqüências, restam, ao final - como fosse um retro-gosto -, como obra que faria Glauber se enxergar, se cheirar, se apreciar: fosse vivo. Raridade tratando de raridade em pé de igualdade, organicamente. Artista compreendendo "o" artista. Trabalho de gente grande que se faz merecedor da visita à sala escura, muito menos do que de textos e críticas.


"Deserto Feliz", ficção de Paulo Caldas - 35mm - 88 min - 2007

Sob o pretexto de falar da prostituição infantil como um dos males que atingem fortemente o nordeste turístico o diretor Paulo Caldas - que tem uma obra bastante interessante e, principalmente, original, com filmes que fizeram história em seus momentos, "Baile Perfumado" (1997, "O Rap do Pequeno Príncipe Contra as Almas Sebosas" (2000) - abandona um passado de autor autêntico para mergulhar com esse "Deserto Feliz" num redemoinho que mistura filmes que buscam um choque extremado misturado a um excesso de naturalismo (hiper-artificialismo, isso sim) na caracterização de personagens e suas interpretações. É algo semelhante ao que tentam "Amarelo Manga" e "Baixio das Bestas" de Cláudio Assis, ou "Cidade Baixa" de Sérgio Machado - e estou aí citando filmes nordestinos como o do pernambucano Paulo Caldas -, ou ainda o paulistano "Contra Todos", de Roberto Moreira.

O estranho é que esse "modismo" agrada uma parte da cinefilia mais engajada, que vem comprando gato por lebre sei lá até quando. É assim: no início o filme exacerba as situações, as faz feias e ostensivas com a evidente intenção de carregar para dentro de si os que querem crer na honestidade do que ele "grita"; os personagens surgem sempre como seres muito pouco comuns ao usual - como se o ser humano estivesse se revelando uma espécie somente doentia, sem resquícios quaisquer de normalidade (e é a mais pura verdade que constato isso nesses filmes que citei, e que pessoas acreditam que essa seja a regra) -, com traços estranhos, cabeças complicadas. Só que apresentar isso - por parte do diretor - como fato de "denúncia" do filme, sucumbe gravemente quando ele não se furta à imagem da sombra "esteticamente" bem captada de uma parede num cômodo de uma casa simples, em plano que se encerra com feixes de luz entrando por frestas na janela da cozinha, sobre o fogão que nubla o ambiente. Essa feiúra humana, quase sempre e quase invariavelmente, vem sacudida por lentes que balançam grudadas a corpos suados, rostos "comuns" e sujos, com focos sendo procurados, mas sem deixar de se fazerem notadas nessa "angústia" pela imagem a ser captada.

Outra coisa comum é mostrar cenas de sexo que jamais exprimem prazer; ao contrário, revelam sofrimento, nojo, aversão, "pecado", e no início o diretor ainda abusa numa seqüência em que a câmera parece grudada de verdade nos corpos, resultando um efeito que poderia até ser a primeira novidade boa, mas que ainda não me convenceu. Mais especificamente falando do resultado do trabalho individualmente - como se ele não fizesse mesmo parte (ou não quisesse honestamente isso) da quantidade de filmes similares nas "baixas" intenções -, a história tira Jéssica (Nash Laila), quinze anos, abruptamente de sua casa disfuncional, para jogá-la sem opção no mundo bravo e cruel da prostituição. Antes, já denunciava tráfico de animais silvestres, e o ruir de um lar é o mínimo que se poderia esperar como seqüência.

Com ar de seriedade, o roteiro tenta se vender como um denunciador. Quando o filme investe mais fortemente na prostituição da garota, preenche as lacunas com clichês comportamentais, com clichês de cenários, e com cenas pra lá de clichê (drogas, estrangeiros...). O diretor quase nunca procura o frescor que sua carreira anteriormente nutriu, e embrenha-se de vez na "sujeira" resquicial sobrada de outros. Quando tenta algo mais ousado por um viés prróprio (muito pouco), obtém resultados estranhos: várias vezes a câmera é conduzida pelo personagem filmado. Mas tem beleza nos momentos europeus, quando parece acomodar-se e ceder à necessidade da urgência no tempo de filmar. E tem até um pouco de humor quando do surgimento dos dois alemães comentando a placa que adverte quanto ao perigo de tubarões na praia. De bom só isso.










Leia as matérias deste festival:

I - Abertura / Dulce Veiga
II - 2ª noite - Amigos de Risco e Corpo
III - 3ª noite - Anabazys e Deserto Feliz
IV - 4ª noite - O Aborto dos Outros e Via Láctea
V - 5ª Noite - Ainda Orangotangos e Mutum
VI - 6ª noite - Meu none é Dindi e Santiago
VII - 7ª Noite - "O Grão" e "Rita Cadilac"
VIII - 8º Dia - Memória Para Uso Diário e Signo da
IX - Cleópatra
X - Premiados - Balanço Final