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15° FESTIVAL DE CINEMA E VÍDEO DE CUAIBÁ



"Amigos de Risco", "Corpo" e curtas
 

Por Cid Nader

Dia modorrento, regado a sono, cansaço... Sono interrompido na hora de escrever as matérias de ontem, momento em que aproveitei para acompanhar um trecho do debate a respeito de "Onde Andará Dulce Veiga". Só para citar algo do que ocorreu na conversa entre os componentes da mesa, o diretor Guilherme de Almeida Prado, a atriz Maíra Chasseraux, o ator Eriberto Leão, e a platéia - tudo mediado pelo jornalista Lorenço Falcão -, vale alertar pelo excelente bom humor e pelo entusiasmo do realizador, que respondeu, respondeu, respondeu, a perguntas que tentavam decifrar os mínimos detalhes possíveis de terem escapado da observação de alguns espectadores mais "exigentes". Foi bom porque Guilherme e os atores se mostraram afáveis e disponíveis, mas ruim porque o evento recaiu no velho e quase insolúvel problema das perguntas que se repetem, ou que nada trazem como adição à compreensão do que é a técnica cinematográfica. Esse lado ruim com certeza se repete por conta da omissão de quem teria a obrigação de cutucar com perguntas mais instigantes - mais vasculhadoras -, mas que acaba se retraindo e recolhendo diante do "entusiasmo" alheio (eu sou o típico exemplo de quem perde a disposição de questionar).

De qualquer modo, metade do dia modorrento havia passado. O corpo, acometido de um desejo insano de paz, tentava convencer a mente que percebia ser necessário atividade; produção. Logicamente que não é muito de meu feitio querer mordomia e calmaria quando freqüento mostras ou festivais. Logicamente que a culpa só pode ser creditada ao calor (nem pensar em mais nada do que isso)... Para quem pensou que estava escapando ileso de uma nova ladainha chorosa a respeito do assunto vou lembrar que ao menos o "calor daqui é seco"... Palavras "tremendamente reconfortantes" dos moradores locais, pensei, quando as ouvi como tentativa de dar algum tipo de valor a essa insanidade em forma de graus centígrados. Pensei ainda mais: "sim, bacana, melhor queimar e virar carvão do que evaporar, em alguma caminhada comum ao meio dia local". Mas tudo bem, desculpem, vou deixar pra lá e rezar por um pouco de neve.

À noite, a sala de cinema estava mais vazia do que na abertura. As sessões atrasaram, mas nada de complexo, como falação exagerada, erros graves. Coisas normais. Coisa boa foi perceber que o sistema de som proveniente da projeção local é de boa qualidade. Coisa notável por simples orelhadas, mas constatado mais a fundo com o exemplo concreto no momento da exibição do longa "Amigos de Risco" (Daniel Bandeira), que numa outra ocasião me deixou em dúvida quanto às boas mixagens e captação de som, e que hoje se tornou obra perfeitamente bem e facilmente audível. Aos filmes.


MCCO - Mostra Curta Centro-Oeste

"A Cilada Com Cinco Morenos"
, ficção de Luiz Borges - 35mm - 15 min - 1999

O idealizador e criador do festival também já se aventurou por trás das câmeras. Esse seu filmete lá do século passado surpreende de forma positiva. E muito. Conta a história de um grupo de rasqueado (ritmo típico local), os 5 Morenos, mas para isso o diretor quase que antecipa um movimento bastante em voga na atualidade: "a ficcionalização do documentário". Seu trabalho já "instituiu" em seu formato de concepção tal fusão. Conta uma história conduzida por um roteiro de ficção (aliás, o ponto fraco do filme, justamente a "atuação", "encenação" do casal, que no final, percebe-se, acaba não influindo no resultado), que na realidade se presta como fio condutor e agregador de atenções, para a verdadeira história que é um curtíssimo e justo documentário que revela o "jeito" do grupo. Há uma singeleza narrativa que corrobora demais com o que se denota ser o espírito gentil e interiorano do conjunto musical. A história se conta pacata e se encerra como uma conversa banal de roça. E há a contrapartida técnica da qualidade de tomadas tremendamente boas da Chapada dos Guimarães e algo de seu entorno: com lentes que revelam sua grandiosidade assombrosa, conduzidas por olhos de quem aparenta realmente conhecê-las a fundo, e com corretíssimos travellings horizontais que ditam alguns ritmos de momentos.

"Nó de Rosas", de Glória Albuês - 35mm - 15 min - 2007

Pensar em fazer um filme para deixá-lo marcado por ser bonito visualmente, por ser caprichado na fotografia, por exibir atores bonitos desfilando nus na tela, parece facilitação das mais descartáveis. A diretora Glória Albuês, atravessou a fronteira inclusive - foi à Bolívia - atrás desse impacto visual. A atriz Julina Knust é uma verdadeira deusa (e, ao menos, não comprometeu no quesito atuação). Mas, quando o que tem a ser dito é feito com a rasa profundidade do texto desse filme, quando se vê nativos bolivianos executando "folclorices" para enfeitar uma tomada, ou quando se nota que atuação realmente está longe de ser a maior, ou menor, virtude de Sandro Lucose - faça-me o favor -, o que acaba por restar é um misto de tristeza e indignação; no mínimo.

P.S.: ano passado - quando fiz o texto acima - fui questionado pela diretora dizendo que não respeitei ao menos o suor gasto na confecção do filme e, pior, que havia classificado o curta de "indigno". Pacientemente vim reler meu texto, principalmente para me tranqüilizar quanto à possibilidade de haver classificado algo ou alguém como "indigno". Muito diferente no contexto de minha escrita quando digo que me causou "indignação" o resultado do trabalho do que imaginar tê-lo classificando-o como a diretora "leu". Bastante diferente mesmo, até porque não me sinto no direito de fazê-lo, jamais, e não creio ser da alçada da crítica chegar a tais "vias de fato" - acho aceitável opiniões mais "puxadas" para o gosto pessoal, desde que fique claro. Quanto ao suor gasto respeito sim, a ponto de raramente me exacerbar tanto por conta de um trabalho mal confeccionado. Revi o filme hoje e seus problemas continuaram a me "gritar" demais. Entendo o apego de qualquer autor à sua obra, mas imagino que ele deva ser adulto o suficiente para deixar que falem de sua cria que, exibida, já ganhou vida própria.


MCC - Mostra Competitiva de Curta Metragem

"Pajerama" , animação de Leonardo Cadaval - 35mm - 9 min - 2008

Bom trabalho em 3D. Os índios tem traços um tanto estranhos, mas a qualidade de resolução final obtida das feições não ficam devendo nada em qualidade ao que se faz mundo e "grandes estúdios afora". Na realidade nem é o caso de se pensar em comparação com outros já que temos tradição cinematográfica e em outros setores das artes que nos diferenciam e vêm embasadas pela admiração, justamente, dos de fora graças à sua qualidade e autenticidade. E é dessa espécie de "alma" autêntica que se nutre "Pajerama", acima da evidente boa composição digital. Chega a parecer que há detalhes de Mata Atlântica estudada para reproduzir a situação nada comum ou racional que acontece em solo paulista. Um momento breve de neblina é fantástico graficamente. A música enreda de maneira bastante orgânica os momentos. Mas, novamente, a "alma", a essência, o modo de se contar fazem toda a diferença.

"O Presidente dos Estados Unidos" , ficção de Camilo Cavalcante - 35 mm - 23 min - 2007

Esse trabalho vem com uma certa grife "Recife". Todo seu início é de tomadas bem enquadradas agrupadas numa seqüência de cortes secos que, captadas pelo espectador, revelam todo um entorno físico de onde se desenrolará a história - a seqüência final com uma câmera que se desloca janela afora também faz parte desse cuidado recifense com a qualidade técnico/estética de seus curtas metragens. Alguns diretores conseguem atingir com mais qualidade o rigor que se impõem, outros nem tanto, mas há uma evidente tentativa que se repete lá por aquelas bandas. Já no quesito história, o texto extraído de escrita de Ignácio Loyola Brandão foi bem transposto para a linguagem e consegue manter a atenção e determinar o ritmo do filme por boa todo seu transcurso. Há um esforço notável de atuação, mas ocorre um deslize no momento em que não existem nuances, justamente, na divisão das personalidades de marido e mulher; quero dizer que cada um cumpre bem o que foi determinado, mas são estanques demais, não se amalgamam, nunca cruzam um pouco que seja o território um do outro - o que me perece seria necessário para quebrar um pouco a rigidez dura que separa delírio de um e lucidez de outra. O filme muda seu "comportamento" repentinamente - ao contrário do que sugere durante o tempo todo -, e isso é bom. Só peca na tal rigidez imposta, sem concessões, aos personagens.


MCL - Mostra Competitiva de Longa Metragem

"Amigos de Risco" , ficção de Daniel Bandeira - 35mm - 88 min (PE) - 2007

Produções pernambucanas têm invadido de maneira cada vez mais numerosa o cenário. Desnecessário já, atualmente, falar da movimentação culta que - principalmente - a capital, Recife, tem criado e exportado. Musicalmente e no cinema isso tem se dado de forma notável. "Amigos de Risco" tem muito a cara da cidade. Se isso é bom ou ruim é algo de que tentarei me convencer durante esse breve comentário do filme. Quando digo que é produção tipicamente recifense poderia falar disso como crítica negativa, como algo que liga demais a obra a trejeitos locais, manias locais, sotaques locais - até ocorre, mas de modo diverso de "Corpo", produção paulista dirigida por Rosana Foglia e Rubens Rewald, esse constatar a cidade, exportá-la, não vem com a carga de demonstração de uma urbanidade especial, mas como forma de trânsito sincero em um ambiente conhecido. Mas a produção é tipicamente recifense, mesmo, no modo que seus oriundos encontraram recentemente de demonstrá-la como fruto inequívoco de explosão globalizada, urbana, com um certo pé nas tradições locais que evidentemente não querem deixar morrer, e que, muito ao contrário, preservam, transformam, reinventam.

O filme tem símbolos muito particulares: é ágil, filmado com a câmera na mão que nem sempre empresta um conforto ao olhar do espectador, com imagens "sujas" pela falta intencional da iluminação extra, e a procura evidente de recantos menos pitorescos, menos turísticos, mais locais, mais de seus habitantes. Fruto do baixo orçamento conseguido, sim; mas poucos sabem como trabalhar em circunstâncias não completas. Essa velocidade procurada, aliada a uma pequena dificuldade na compreensão mais exata dos diálogos - cheio das gírias e expressões locais - causa um impacto negativo num primeiro instante, deslocando a tentativa de compreender o filme para algo amador e caseiro; com cara de ação entre amigos. Mas é impressão inicial que se desfaz quando se contata a honestidade da proposta, e a honestidade na execução dela.

E talvez esteja justamente nessa honestidade no modo de mostrar - na técnica adotada, na não tentativa de camuflar maneiras de falar e modos de expressão - o grande potencial que o filme acaba por se fazer merecer. O trabalho cresce com o passar dos momentos, quando nos acostumamos, e quando a história toma um pouco mais de pé no que quer dizer, no quer contar - que é um relato simples, despretensioso, sem firulas ou ambigüidades extras, sem uma dispensável carga culta a ser contada. O ritmo de obra que quer se mostrar de modo sincero impregna, e adota o espectador. A atuação direta e sincera ajuda muito, e sente-se que essas atuações estão definitivamente ligadas num processo orgânico geral e bem definido. Se estamos lidando com diretores em eu primeiro longa, a aposta na simplicidade é esperta. Talvez mais do que esperta, necessária.

O modo de contar uma história que fala de amizades, mas questiona o que é realmente essa manifestação humana pelo modo mais complexo que é exercitado por conta do simples fato de "pensarmos", parece bastante simples, e não grudaria à história questões filosóficas ou de moral, além do que a visão despoluída do resultado apresentado numa primeira ordem de análise faria pensar. Mas existiram os que questionaram o que seria a amizade, o que seria punição, o que seria culpa, por conta do desfecho da película; da última tomada. Entendo essas manifestações questionadoras como exagero, como querer ver a mais do que a proposta entrega e tem intenção. Mas aí reside um dos encantos da arte, e se o filme conseguiu motivar esse tipo de discussão, mais um ponto positivo para ele.

Transitar em seu mundo, revelar seus símbolos, tratar da proximidade - ou da periferia, desde que seja a sua, facilitam. E é disso que trata "Amigos de Risco", na realidade. Trata do "modo confeccionar cinema" e exibi-lo para os "outros" - que irão adorar a possibilidade da novidade, ou para os seus - que irão adorar se verem. Mais exatamente: o cerne, a origem física do cinema está aí, afinal.


"Corpo", ficção de Rosana Foglia e Rubens Rewald - 35mm- 85 min (SP) - 2007

Existe um olhar pejorativo que alguns companheiros lançam sobre algumas obras da cidade de São Paulo - sou de lá, vivo lá -, dizendo que têm um humor muito característico, repetições de espaços físicos revelados e que se repetem, atuações que tentam imprimir aos personagens um certo ar de habitante de cidade grande, sotaque inconfundível. Normalmente vejo tais manifestações expressadas por esses companheiros como revelação inconsciente de algum segregacionismo, que denuncia preconceitos interiores que não são revelados jamais de forma consciente. "Corpo" padece de alguns desses modelos criticáveis.

O filme - talvez por ser trabalho inaugural, inicial (se bem que isso não poderia jamais servir de desculpa para um mau resultado, ainda mais quando se trata de trabalho realizado por quem conhece academicamente o assunto) - é muito baseado e escorado em clichês dos tipos que denunciam a obra ser muito paulistana. Tenta enganar em alguns passeios inexatos pelo metrô - mostrando a bela estação Sumaré desnecessariamente (se bem que aí, talvez eu esteja querendo interferir em modos de idealizações, de concepções) -, carrega demais na maneira de mostrar um comportamento urbano e descolado que seria quase que inato em cidadãos que habitam cidades grandes e cultas, e utiliza um pouco de humor (principalmente na concepção da personagem vivida por Rejane Arruda, que é a "maluquete atriz de teatro de plantão") descartável. Filmes de situação clichê é algo que o cinema menos precisa. Sendo trabalho de iniciantes no ramo, então, menos ainda.

Falando em atuações, a de Chris Couto - de modo até um pouco compreensível, já que não é atriz de "verdade" - e, principalmente, a do "ator de verdade", Leonardo Medeiros (o médico legista, Arthur, que imagina um corpo de mulher encontrado, intacto, em meio a ossadas de origem suposta do período da ditadura militar, como originário do mesmo período - final do sessenta, início dos setenta) são algo a ser repensado. Atuações não são tudo no cinema - dependendo do diretor, maus desempenhos podem até servir de gancho para um grande trabalho... -, mas despretensão demais, como o que passou a impressão, o resultado do trabalho de Leonardo, são coisas a serem evitadas, ou corrigidas; numa função única e exclusiva do realizador(es).

E aí vem a história, que se faz confusa - não na idéia estrutural básica, pilar, mas por entre - trechos que procuram desvinculá-la de linhas conclusivas formais, acomodadas (o que, normalmente seria até tentativa louvável) -, engana, se mescla e se reveste de "climas". Interessante se fosse idéia assumida e levada a cabo como tentativa de causar estranhamentos, fazer pensar. Mas não. Ao final, no frigir dos ovos, quando se percebe que a tentativa de incomodar não é concretizada, com um final que "se" nos é entregue mastigado e deglutido, fica a sensação de que tudo realmente não passou de acumulação de estereótipos, clichês, e que a intenção foi sempre a de surpreender no clímax, no ocaso (que nem é tão surpreendente assim, também). Sei que isso é opção dos autores, mas sei que a mim - mais especificamente - não agrada. Principalmente quando há uma nova trajetória sendo iniciada.










Leia as matérias deste festival:

I - Abertura / Dulce Veiga
II - 2ª noite - Amigos de Risco e Corpo
III - 3ª noite - Anabazys e Deserto Feliz
IV - 4ª noite - O Aborto dos Outros e Via Láctea
V - 5ª Noite - Ainda Orangotangos e Mutum
VI - 6ª noite - Meu none é Dindi e Santiago
VII - 7ª Noite - "O Grão" e "Rita Cadilac"
VIII - 8º Dia - Memória Para Uso Diário e Signo da
IX - Cleópatra
X - Premiados - Balanço Final