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46º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro


*Extra: Os Pobres Diabos

Por Cid Nader

Os Pobres Diabos, de Rosemberg Cariry. Ficção, cor, digital, 98min, CE, 2013

Quem conhece um pouco que seja da obra de Rosemberg Cariry sabe com certeza de seu apreço – mais: diria que fixação; diria que função missionária – pelas coisas do sertão, pelas coisas do interior nordestino, pelas tradições regionais. Sabe que sua obra se constitui entre um misto de grita política contra as injustiças e contra os maus políticos (e nesses instantes não dá para pensá-lo somente preocupado com os seus de região, mas usando-os como representação dos mais desvalidos do país); alternando referências eruditas, de outros locais e tempos como símbolos que também contribuíram para as conformações culturais e de vida mesmo da região; potencializando a presença do ator em cena, com atenção desmedida ao ato de viés mais exagerado, como que querendo trazer à tela o jeito do artista de rua ou do circo (algo que inequivocamente refere automaticamente ao teatro). Quem conhece Rosemberg como diretor, sabe que como bom cearense a muita cor lhe agrada – e pode-se sentir os cheiros fortes dos seus filmes, das suas frutas únicas, repassados às cores que preenchem a tela, como tentativa de despertar apetites.

Há muitas cores em Os Pobres Diabos; há o circo; os desvalidos (nas figuras dos artistas circenses, que têm de lutar pela sobrevivência contra um mundo que parece não os querer); a acusação às más gestões (que pode ser encontrada na fala do homem da luz quando alerta para a esposa que cortarão novamente a eletricidade da trupe; ou, também, na própria peça, que carrega potência no diabo e na figura mitológica do cangaceiro, citando em texto reclamos contra os maus políticos); não há o sertão, porque a essência dele repetida sempre comparece, mas adornada pela paisagem do mar Canoa Quebrada (o diretor consegue fazer entender para nós distantes que a essência e a formação são as mesmas, mesmo que por terrenos de paisagens diferentes).

Há Roesembergueres nesse novo filme: sim, no plural, porque volta à cena como fotógrafo – já que anda dirigindo mais do que fotografando nos últimos tempos – Petrus, seu filho, que consegue imprimir na tela situações de imagens com beleza suficiente para deixar qualquer um estupefato, com céus estonteantes e variantes, com atenção rara ao plano amplo, de “horizonte aberto” (o filme é a representação mais real que vi ultimamente da utilização do scope , de resultado impressionantemente horizontal), com criações noturnas de brilho belo, quase mágico (as externas e as internas, do picadeiro), atenção ao excesso de cores de personagens e lona (que gerou desde momentos de extrema vivacidade em tela, aos que ganharam ares de drama na maquiagem do palhaço).

E há o Rosemberg patriarca, que retoma seus signos e anseios, que necessita contar o que pensa, e que desta vez talvez tenha concretizado seu filme mais “palatável”: estranha a expressão, mas mesmo sempre agindo com as coisas do povo e com as representações simbólicas perpetuadas por esse povo, por vezes seus filmes ganham expressão que escapa da facilitação (e digo isso com toda a certeza de ser uma virtude, já que é de arte que se fala, afinal de contas). Ele, que resolve trazer especificamente o circo para contar dos destinos e das lutas (e que se veja na escolha algo muito mais direto, fechado, como caminho de expressar o que sempre expressou – o que talvez dê mais sentido ao palatável usado), para usar atores que dão com muita fineza conta do recado (desde os mais conhecidos às duas crianças principais), que finca a lona na região de Aracati (cidade à qual pertence a famosa Canoa Quebrada citada acima), aguardando junto com seus personagens a salvação que deveria vir da afluência de público: e, quase metaforicamente, está nesse aguardo e no não comparecimento o que desejava falar sobre esquecimentos, possibilidades de fins, transformações. O diretor não é alguém que lamenta aos brados, mas canta cantos de lamentos.

Pra terminar: quem ainda hoje em dia consegue ter a coragem e a competência de entregar uma joinha tão bela, daquelas de lapidação antiga, diante do modelo por vezes até exageradamente hermético proposto pela maior parte dos filmes bons que surgem? Quem consegue realizar um trabalho novo (pleno de evidentes bons tratos técnicos) com resultado que lembra as belas obras de artesania? É isso Os Pobres Diabos.










Leia as matérias deste festival:

*Abertura (17/09/2013)
*Quarta-Feira (18/09/2013)
*Quinta-Feira (19/09/2014)
*Sexta-Feira (20/09/2014)
*Sábado (21/09/2013)
*Domingo (22/09/2013)
*Segunda-Feira (23/09/2013)
*Extra: Os Pobres Diabos
*Premiação