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46º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro


*Segunda-Feira (23/09/2014)

Por Cid Nader

Último dia das competitivas do Festival de Brasília. Uma certa melancolia, um certo alivio – quando vejo que cumpri o que havia me prometido. Ar-condicionado da sala de cinema reabilitado, a certeza de uma seleção de longas de ficção nas mais bacanas que vi por aqui, de longas documentais que iniciou com obras até impressionantes, mas variou mais no decorrer do evento. Algo que ocorreu também com os curtas: variações, sendo alguns até espetaculares, e outros bem fraquinhos.

Hoje, noite de premiação – premiação sempre longa, estendida -, sendo que quem acompanha o site sabe da nossa não adequação com a questão: cinema não é futebol ou qualquer outro esporte competitivo. Sim, sei inclusive de cineastas que não inscreveriam seus trabalhos em festivais que não premiam: digamos que é questão de gosto, vá. Minha dúvida é se me meto no Cine Brasília para acompanhar o momento em solidariedade aos amigos que têm a obrigação de fazê-lo – veículos de imprensa geralmente também gostam da coisa -, ou se me solidarizo comigo mesmo e vou passear pela cidade, ver amigos e tal.


MOSTRA COMPETITIVA - DOCUMENTÁRIO

Contos da Maré, de Douglas Soares. Documentário, cor, DCP, 17min35, RJ, 2013 (FOTO 2)

Muito antigamente, quando foram criados os mitos e lendas, histórias de lobisomens e assombrações (que no interior eram contadas por avós ou médicos, prefeitos e coronéis – todos, pessoas confiáveis dos quais seria difícil duvidar), ficava óbvio que a escuridão se fazia como uma das maiores responsáveis para que qualquer movimento ou vulto ganhasse potência amedrontadora. Quando Douglas Soares coloca máscaras de bichos e figuras (ilustrações das histórias que serão contadas durante o filme) de modo singelo, alegórico e brincalhão nos seus parentes mais velhos para que contem a seu modo os momentos de criação e vida na Maré (RJ), muito dessa construção simbólica assoma, trazendo à memória algo que pareceria dos tempos imemoriais, mas que se deram há tão pouco tempo na cidade que até aquele dia mesmo era a capital do país – e a reconhecida como nosso símbolo para os de fora.

Por um lado – o narrado – as histórias pitorescas de um povo que sempre e sempre consegue resgatar razões de vida, mesmo que sob nenhuma facilitação institucional para tal. Por outro, principalmente aí se valendo das imagens – diria que mais: de tomadas específicas, que fingem uma coisa e entregam outras -, o que Douglas obtém e repassa é aquilo que se espera ao menos sendo tentado por quem trabalha com cinema: contar da indiferença vigente, numa região sempre pobre e de graves problemas urbanos, quase abandonada, somente tocada em frente porque os seus fizeram de lá sua razão, seu local. E isso se dá quando se nota em praticamente todos os takes tomados do alto - os abrangentes, onde se repara o quão gigantesco pode ser o descaso – enormidade de cartazes com propaganda política em época de eleição.

Assim: com calma e atenção aos humanos, que afinal são os que vivem lá, mostrando-os sobrepujando o que poderia ser só drama pela insistência num porvir através da singeleza de suas histórias narradas, e utilizando o poder do plano, do take, do enquadramento pensado – imagens, afinal, matéria-prima da arte - para ostentar como “quem não quer nada” as figuras de políticos em cartazes e banners (e em qual momento se nota mais do que nunca que são quase sempre falácias o que prometem em troca do voto, do que na hora de suas propagandas?), se constrói um documentário amplamente explicativo: sem canhestrices ou verbas extraordinárias. Assim.


A Arte do Renascimento – Uma Cinebiografia de Sílvio Tendler, de Noilton Nunes . Documentário, cor, digital, 72min, RJ, 2013 (FOTO 3)

Uma pena o resultado que o documentário de Noilton Nunes apresentou para contar de uma figura tão simpática e importante quanto é a de Sílvio Tendler: como ser humano, como ser de engajamentos e posições diante de assuntos palpitantes, como cineasta/documentarista de obras importantes – algumas imprescindíveis. Noilton faz de seu cinema uma espécie de modo de grita contra posições determinadas, contra políticas de cinema, contra os equívocos da instituição, mas conspurca seu idealismo quando, em nome dele, utiliza o que deveria ser sua arte como arma engatilhada sem mira específica, e não como uma câmera que permitiria inclusive servir como a captadora dos alvos a servirem de campo para suas ideias.

O que ele fez – ou melhor, não fez – com o material farto que tinha em mãos para falar de Sílvio representou em tela quase um samba do crioulo doido de tão esfacelado resultou. Nada casa, as situações atuais filmadas não são de boa monta e não acrescentam quase nunca em termos de potencialização à narrativa – a não ser alguns dos depoimentos de Tendler, mas inseridos quase que aleatoriamente -, e uma sensação de desperdício pairou de forma agressiva, estabelecendo-se, ao final,como a marca maior, como o retrogosto que permanece.

Uma pena: porque do que deu para pescar solto sem ordem lá dentro, havia situações a serem exploradas, trechos de filmes a serem valorizados – inclusive como modo de azeitar a fluidez -, os momentos em que se fala da infância e origem do homenageado (é bacana e curiosa a história do pai dele)... Havia fartura de elementos: faltou um “organizador mais organizado”.


MOSTRA COMPETITIVA – FICÇÃO E ANIMAÇÃO

Quinto Andar, de Animação, cor, digital, 7min40, MG, 2012 (FOTO 4)

Animação com recorte em papelão e traços, utilizando o PB – sutis derivações para o bege ou cor de papel – e elementos vermelhos para criar vez por outra o destaque que causa o contraste e empresta riqueza nesse modelo de matiz pensado em alguns tipos de animação: situação que tem se tornado um tanto padrão. Falar de estranhezas, seres à “parte do mundo”, trazendo a morte como personagem palpável, também têm ganhado força em certos modelos de animação que se valem de questionamentos e insegurança de seus “personagens” principais para dar validade à pouca variação nas cores.

Marco Nick não se equivoca quando concretiza o que se propôs: é bem correto e até fino nos recortes. Mas fica a sensação de que poderia ter ido além de seguir um padrão, “somente”: de quem tem capacidade e poderia ousar mais com as opções adotadas de manuseio e construção. Algo que tem reflexo perceptível na contenção do narrado, que também se detém antes de um mínimo desejado – ou necessário, para não parecer “somente” um correto exercício de animação.


Tremor, de Ricardo Alves Jr. Ficção, cor, 35mm, 14min, MG, 2013 (FOTO 5)

Ricardo Alves Jr. já é quase um veterano nesse setor do cinema (o dos curtas-metragens) que parece, para muitos, um simples trecho de caminho em direção da concretização de longas-metragens, num futuro o mais próximo possível – digo isso mesmo sabendo que anda já nos trabalhos de seu primeiro longa-metragem, mas consciente de que seu vagar não ficará somente como “meio de ascensão”. Já há coisa de sete ou oito anos nesse caminho, faz nele um cinema que funciona bastante bem, que nem sempre é compreendido (e é oscilante mesmo), mas que, nota-se a cada trabalho, para além de ser explicitamente preparado para abarcar as possibilidades velozes ou mais ousadas do modelo, varia em tipos de história, em modos de narrativa, em conceitos de construção. Em alguns há histórias non-sense, em outros forte apego a construções de matiz e ligação com as arte plásticas, e agora, em Tremor vemos uma história mais “linear”, mais facilmente captável, sem jamais notá-la cedendo espaço à acomodação ou ao puramente clássico (sim, o grande cinema clássico também é coisa difícil de ser feita, mas aí já é outra a conversa).

O filme traz à tela um homem atormentado em uma busca difícil, que espantaria já qualquer ser humano que tem de buscar um ser (ente) seu perdido, mas revelando mais sufoco e terror quando se nota por onde a busca se dará. O aspecto da atuação de Elon Rabin imprime raro senso de angústia e chama a atenção: há um calar, um andar, um gestual que parecem impossibilitar a intromissão em seu sentimentos – tanto quanto haverá o espanto e certeza do que se passa em sua mente na única reação demonstrada, já no final. E se falo da atuação é porque as opções de filmagem adotadas se valem demais desse gestual dele (mesmo da mais absoluta contenção de expressões), com câmera que caminha próxima (há um belíssimo plano-sequência, que inicia em corredor e vagueia por lances de escadas, para desfechar com atenção às sombras), ou observa-o. Lentes que “enfatizam” um ambiente hostil ( e aí, se valendo demais da justeza na iluminação), trazem o clima para a sala de cinema, puxam violentamente o espectador para dentro da tela – isso é raro e simboliza um dos aspectos do bom cinema.

E quando nos notamos impressionados também com o som do filme – que coaduna e potencializa o visado -, se vai aos créditos finais em busca de informações e novamente se nota (já ocorrera o mesmo em Permanências) o nome de Pablo Lamar envolvido. Resumo: cinema ousado e bom, por mais incrível que possa parecer, faz parte de um mundo redondo, afinal de contas.


Exilados do Vulcão, de Paula Gaitán. Ficção, cor, DCP, 125min, RJ/ MG 2013 (FOTO 6)

Uma dúvida que poderia pairar pelo tempo todo em Exilados do Vulcão, desde o primeiro take onde uma caixa com fotos é desenterrada por mãos femininas, está em saber se o que a motiva a mergulhar num mundo em que sonhos, memórias e imemórias vão alternando sem que se saiba onde se fundem – sem se saber mesmo se fundem, ou se mesmo sonhos, memórias e imemórias –, que é uma paixão, um homem, está em sobre se estaria morto ou teria simplesmente sumido fisicamente de sua vida: momento que se insinua de forma mais determinante dos caminhos para trazer a luz esclarecedora (que terá de ser pescada ou intuída, como é toda proposta do filme, aliás) através da imagem de ressonâncias magnéticas de um cérebro e um tumor na região do lobo temporal direito (ou de um lobo temporal já retirado – o que, fisicamente, afetaria de modo muito mais incisivo a questão da preservação plena da memória), e na visão por entre a fresta de uma porta de quarto de hospital. Parecendo justo alertar que a diretora Paula Gáitan não fez essa sua mais recente obra para esclarecer, para contar por vias comuns, mas que foi “cinematograficamente” generosa ao possibilitar a quem necessite de certezas, ou caminhos, tal momento.

E o que possibilitam os trechos, os planos, as sequências e cenas que avolumam e avolumam, parecendo quererem preencher os espaços vazios ou cumprirem a função de “sinapses fílmicas” – criando algum fluxo tenso - para que as ligações se completem? Possibilitam mesmo entender que a busca “dela”, pelas mãos de Paula, representarão campo ideal para o trânsito alegórico e concreto que buscas de tal monta embaralham. E quando digo alegóricos e concretos é porque realmente há uma preocupação, jamais ostensiva, jamais ostentada de “modo legendado”, em fazer com que a construção da narrativa se faça com o que seria de se intuir como os caminhos comuns nesse modelo de busca empreendido por uma mulher que quer resgatar seu amado de um campo onde talvez nem ele nem ela conseguirão mais o mesmo tempo de trânsito: e estão lá no filme o excesso das imagens, de músicas, de “falares” estrangeiros (ou neblinas, águas, campos quase etéreos), dessa busca feita pela intuição/desejo/anseio, sim, mas com dados concretos insinuando-se pelas brechas – porque há as fotos, há a caixa, há a visão dele, como se documentos palpáveis em que se pode ao menos tentar um amparo confiável.

Estupefação diante do mundo criado pelo setor das coisas diáfanas, que a jogam por caminhos, como numa trilha imaginária que compreende montanhas, rios, neblinas em um estágio de buscas onde se apresentarão pessoas e situações, histórias e suspeitas. Momentos de beleza rara e até ostensiva, constante e presente, como se fossem instantes apaziguadores e resguardadores para uma jornada optada que é de mergulho profundo, que pode machucar, mas necessária quando ela opta não querer ter a seu amado “somente” como “uma” memória, mas toda as possíveis: nossa memória é composta por amplidão de informações, de dados, e é justo percebê-la querendo fazer de uma delas, a que mais lhe toca, algo mais complexo e repleto.

A cena do reflexo nas costas, das estrelas de mentira geradas por uma luminária que sumirá, (como por vários momentos ocorrerá – pessoas estão e num movimento da câmera de volta já não mais, coisas, também) enquanto lá em baixo, numa Belo Horizonte que talvez seja o fato mais real dentro do campo dos sonhos – porque, repito, há a realidade palpável das fotos e de ressonâncias –, ou a do corpo na água, as das neblinas servindo com locais específicos e apropriados para servirem de campo de mesclas, são alguns exemplos de criações obtidas, de falsificações que o cinema exige, como qualquer outra arte visual, quando quer escapar de ser entendido somente como ferramenta reprodutora de ficção ou verdades, indo na direção sempre desejável de ser percebido como o “veículo” (feio o termo, mas é o que me ocorre nesse instante) propício para o delírio. O momento que se dá num quarto de revelação de fotos, com sua luz vermelha e tensão sexual explodindo sob a música de tocada mais pegada – onde a câmera, inclusive, cumpre o ir e vir ambiental que se repete por diversas vezes pelo filme, resultando sempre um estar e um não estar mais -, é dos mais belos vistos ultimamente. Questões e situações estéticas que situam o pensar cinema, por Paula Gaitán, como algo de pleno apego à construção e elaboração da imagem, para fazer-se ela o conduto/narrador da história.

P.S.: evidente que elaborar sobre um filme de tantas possibilidades – ia falar em complexidades, mas não é o caso: é mais, mesmo, diverso e cheio de veios a serem explorados - quanto é esse Exilados do Vulcão, em plena correria de um festival de cinema, tem de ser de resultado contido, insinuador do que deverá ser feito numa próxima oportunidade, com mais tempo e calma.



















Leia as matérias deste festival:

*Abertura (17/09/2013)
*Quarta-Feira (18/09/2013)
*Quinta-Feira (19/09/2014)
*Sexta-Feira (20/09/2014)
*Sábado (21/09/2013)
*Domingo (22/09/2013)
*Segunda-Feira (23/09/2013)
*Extra: Os Pobres Diabos
*Premiação