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46º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro


*Domingo (22/09/2013)

Por Cid Nader

Só pra citar. Ontem, no dia mais quente durante o evento (a cada dia está mais quente por aqui) o ar-condicionado do cinema (recém-reformado) estava quebrado - informação passada por um funcionário de lá quando fui perguntar porque não ligavam, sob vento produzido pelos papéis e folders que todos abanavam. Acertam a projeção, quebra o ar. Acho que um salzinho grosso ia bem.


MOSTRA COMPETITIVA - DOCUMENTÁRIO

A que Deve a Honra da Ilustre Visita Este Simples Marquês?, de Rafael Urban, Terence Keller. Documentário, cor, digital, 25min, PR, 2013 (FOTO 2)

Tomar uma figura como do “Marquês” Max Conradt Jr. para a frente das câmeras parece aposta quase certeira de que se depender do entrevistado, do retratado, qualquer documentário resultará bem. Aparentemente, Curitiba – com sua formação composta por etnias europeias de nem tanta representatividade no restante do país – anda parecendo um celeiro de figuras atraentes, com jeito de mundo antigo, meio à parte do que se pensaria de modo imediato como os comuns, apropriadíssimas para se tornarem assunto de documentários. Rafael Urban, tomando rumo de garimpador de tais figuras em sua terra, havia concretizado o possante Ovos de Dinossauro na Sala de Estar como seu premiado curta anterior, onde trouxe ao “mundo” a figura genial e exótica de Ragnhild Bolgomanero.

Utilizando processo bem similar de confecção, desta vez com a companhia de Terence Keller, é trazido para a frente das lentes – dá para dizer que literalmente – o tal marquês, com seu setenta e muitos anos,vivendo numa casa repleta de livros, revistas e quadros, como que para reforçar a vocação da cidade em parecer “celeiro” de tipos ricos, casas antigas e recheadas de recordações: talvez dê, por um viés mais rígido e de teor sociológico, pensar estar sendo construída aí uma obra que referencia às saudades. Tanto quanto fica impossível permanecer em elucubrações sobre a constituição de uma série de teor tão sério, quando deparamos com o resultado proporcionado pelo misto entre o rigor absoluto e intocável proporcionado por câmeras que se recusam qualquer movimento (qualquer mesmo, nem mesmo quando a tentação de uma dedicatória nos fundos de um quadro canta ao zoom com canto de sereia) e as atitudes do entrevistado: por palavras, modos gestuais, ideias, e até setores de suas coleções – especialmente quando em frente ao setor das revistas insinua certa pequenez às revistas mais lidas na atualidade, enquanto eleva a Playboy ao merecido patamar de imprescindibilidade.

Ao apostar na câmera fixa, ganha o quadro: pelo entorno que em cada situação preenche a tela com os motivos da paixão de Conradt (o dos livros que falam basicamente do Paraná, o das revistas, as paredes com quadros de figuras que frequentavam sua casa...), que permanece como a moldura ideal de fortalecimento imagético do que é narrado por ele. Ao apostar na câmera fixa, ganha o quadro: pela dinâmica proporcionada pelos movimentos dele pelos ambientes (por vezes procurando um livro específico, por outras em busca de uma pintura), que num certo instante geram um momento genialmente belo e engraçado – quando quase sai totalmente pela direita da tela, voltando e criando efeito visual bem bacana. Ao apostar na câmera fixa, ganha o filme: porque com quadros imóveis na maior parte de sua composição (a não ser a figura que anda lentamente por eles), o que é contado por ele merece atenção redobrada – e o que é contado por ele beira genialidade e destrezas de comunicação inatas. Pode ficar uma questão: estariam os diretores aproveitando-se de uma figura “atípica” para lucrarem em cima de suas excentricidades e modos? Eu diria que não: diria que com certeza isso é cinema, indo além de ser “só um documentário” - mas cheguei a ouvir tal colocação na saída da sessão.


Plano B, de Getsemane Silva//Codireção de Santiago Dellape. Documentário, cor, digital, 84min, DF, 2013 (FOTO 3)

Não pareceu ter real razão de ser a conclusão final desse documentário, que parte em busca de um filme que estaria perdido no tempo: de 1967, representante do Cinema Novo, dirigido por Joaquim Pedro de Andrade, “Brasília – Conradições de uma Cidade Nova”. Ao adotar o nome para seu trabalho como Plano B, pode subentender-se que no meio do caminho de uma jornada proposta e iniciada sob signos, no mínimo, de desatenção, Getsemane Silva mancou-se do fora que dera, e ao invés de interromper tudo, resolveu continuar criando outras prioridades para tal.

É o mínimo que se pode fazer, chamar de desatento alguém que capta recursos, chama figuras tão importantes quanto Jean-Claude Bernadet, Affonso Beato, e Joel Barcellos (que, inclusive, acabou se tornando o produtor do doc), para partir na busca do filme, que recentemente à captação havia sido exibido no Canal Brasil, sido colocado como extra no DVD de “Macunaíma” em 2007, ou ainda apresentado na Mostra Internacional de São Paulo de 2009, dentro de uma retrospectiva do Joaquim. E aí muda-se o rumo, passa-se a atentar em quem trabalhou no filme tentando fazer com eles um paralelo para explicar sobre a produção, sobre a apresentação veloz no Festival de Brasília, numa quase desespero para dar razão do prosseguimento.

E muda-se o foco do filme, suas razões e dramas com a censura, para utilizar boa parte do trajeto numa investigação de teor até superficial em busca de um dos nordestinos entrevistados lá em 67, nos dias de hoje: ficou parecendo cortina de fumaça. Destacar o grande Jean-Claude fazendo alongamento, o início informal da conversa dos três, lembrar que no início é usado aquele truque dispensável que registra a chegada da figura do entrevistador (ou o realizador) na casa de um dos personagens que farão parte, tocando a campinha e tudo mais, cheira muito a encher linguiça.

Poderia valer pelos trechos da obra de Joaquim Pedro exibidos: mas tendo-o completo aparentemente até no Youtube, nem isso... O detalhe maior ficou por conta da recepção calorosíssima do público aqui de Brasília, que costuma mesmo sempre reagir superlativamente quando a cidade é lembrada ou retratada.


MOSTRA COMPETITIVA – FICÇÃO E ANIMAÇÃO

Ed., de Gabriel Garcia. Animação, cor, digital, 13min56, RS, 2013 (FOTO 4)

Há animações dos mais variados modelos de confecção sendo feitas por aqui. O país anda num momento em que a qualidade dos trabalhos anda superando expectativas, e eles vêm sendo concretizados pelas mais inúmeras técnicas: meio que como a diversidade se espalhando e ampliando, tanto quanto a confiança em arriscar. No meio dessa infinidade de brotações, as que com certeza causam mais desconfiança ainda são as feitas em 3D: muito pela ideia de que a computação gráfica não é coadunante com arte; ou por intuições de que trabalhar nesse esquema de produção permite o arranjo de situações já pré-definidas “num catálogo de possibilidades”; também na qualidade obtida por aqui (mesmo em crescimento, é fato que os modelos 2D têm rendido trabalhos mais memoráveis), fazendo com que na comparação às das “mecas” das produções de tecnologia de ponta pareçam (pareciam) toscas... Além da ligação quase inconsciente – mas compreensível – do modelo com o que é praticado pela grande indústria do entretenimento.

Ver Ed. rolando na tela, com a qualidade visual obtida, com a naturalidade das ações brotando de forma fluida demais, com cores e detalhes (os pelos do coelho Ed, o brilho de seus olhos, por exemplo, espantam de tão bons) que beiram a perfeição, com um trabalho de fotografia que raramente se nota tão perfeito mesmo em filmagens comuns (a impressão é de que o filme foi feito com o plano da fotografia sendo traçado como se estivesse sendo filmado campo de trânsito e pessoa s de carne e osso), chega a causar estupefação, enquanto joga por terra um monte de preconceitos. É bonito ao olhar (um refresco de luzes e cores, de contrastes entre a noite as tintas), causa ansiedade diante do comportamento “conformado” e saudoso de ED., bastante perspicaz e sagaz nas ideias arranjadas para contar situações do passado (com bacana homenagem ao cinema), perspicaz também na linearidade invertida do "presente", e impressionante. Que sejam bem vindos ao mundo das boas animações, esses que adotaram a “computação pensada”.

P.S.: rever a Ed. foi um daqueles momentos possíveis do cinema em que as sensações primeiras praticamente desabam. Não que nos quesitos técnicos possa ser questionado agora – inclusive, creio que aconteçam preconceitos por aqui quando qualquer obra de cinema referencie ou similarize às comerciais norte-americanas -, mas a essência do filme, o que motiva os atos, pareceram muito mais superficiais, muito mais necessidade de ter uma história para fazer valer as concretizações estéticas.


Fernando que Ganhou um Pássaro do Mar, de Felipe Bragança e Helvécio Marins Jr. Ficção, cor, digital, 20min, RJ, 2013 (FOTO 5)

Felipe Bragança (“velho” defensor de um Rio de Janeiro antigo e perdido em seus filmes) e Helvécio Marins Jr. são cineastas que trabalham fora dos padrões de entrega comum, de resultados facilmente compráveis: são cineastas que tentam fazer com que suas obras arranquem o espectador da acomodação.

Filmado entre o bairro das Fontainhas, no Porto, e o Rio de Janeiro, o que temos é uma por vezes bela e singela alegoria, por outras, momentos de um misto entre provocação e Cinema Novo, tudo para contar de um mundo que não anda lá muito bem das pernas. A “brincadeira” faz com que o desempregado português Fernando (assolado pelo horror que intromete Portugal na mais crise da história) sinta inveja de um “anônimo” patrício que lhe teria mandado por mar um papagaio, que viveria no Paraíso (o Brasil do Rio), na companhia de uma sereia e de um rei indo em seu palácio.

Na realidade, o filme revela reflexo de idealização por parte do português de lá (que não deixa de ser o daqui), até o momento em que essa idealização se rompe, quando já aqui se nota que não estamos também muito lá bem das pernas. Trabalho feito por encomenda pelo festival da Vila do Conde há formalisticamente sempre a procura do risco, da ida às beiradas, o que proporciona momentos bastante diversos do que é comum mesmo entre nossos curtas mais ousados: algo que com certeza impacta, mas que nem sempre será bem aceito, principalmente pela disparidade nos modelos de provocações e nos modelos de atuação – açgo que a meu ver é pertinente e sempre bem-vindo.

Principalmente, porque a sequência o fará assumir-se de modo escancarado como um reclamo mais do que às condições precárias da economia de lá, aos gastos e atos de violação a direitos gerados pela instalação de dois eventos invasivos e exploradores como são as Olimpíadas e a Copa do Mundo.


Riocorrente, de Paulo Sacramento. Ficção, cor, digital, 79min, SP, 2013 (FOTO 6)

Ter Paulo Sacramento novamente de volta na direção de algum filme, para quem o conhece e à sua curta obra como diretor é algo que chega a emocionar: de verdade. Mesmo percebendo-o sempre ligado ao cinema nesse hiato como realizador - que surgiu entre 2002 (como O Prisioneiro da Grade de Ferro) e 2013, com esse novíssimo Riocorrente -, já que continuou montando, produzindo gente que merecia muito sua parceria, resgatando memórias e tirando do limbo importâncias vitais de nossa cinematografia, o tipo de pensamento e modo de entender cinema dele é algo que deveria voltar à tona, principalmente por estarmos com uma rica gama de trabalhos surgindo dos mais diversos recantos do país, mas sem que nenhum se assemelhe ao seu modo.

E ver Riocorrente, quando um misto de São Paulo degradada e feérica assoma em alternância a figuras desesperadas em suas vidas regradas pelas urgências e imposições modernas, só faz reforçar o que se esperaria dele, tanto quanto revela-o um dado faltante nessa efervescência do cinema atual daqui, por ser autor de viés de mergulho absolutamente urbano, por trabalhar com signos da grande cidade como os elementos todos que conduzirão e darão cara para qualquer obra sua, derivações e questionamentos que escapam da acomodação na hora das conclamações: que buscam o impacto. Ver ao filme, com ar de esperança e angústia gerada pela expectativa, logo toma ares de “era isso mesmo que eu esperava”, desde o primeiro instante, desde que as águas sujas do Rio Tietê sob escuridão calculada preenchem os primeiros instantes, para serem substituídas em seguida pelo amontoado inorgânico de um setor do centro velho. Que não se conheça o trabalho do Aloysio Raulino como nosso maior fotógrafo (recentemente falecido) pode até ser perdoado (pois há grande ignorância quanto aos que trabalham nas estruturas de nosso cinema, ainda mais quando se fala de cinema paulista), mas fica impossível não notar o quanto era grande e incomparável logo por esses dois takes, de planejamento evidente e calculado, com resultado que não “cheira” a frieza: tais qualidades de fotógrafo ímpar se espalharão por toda a extensão, enquanto explosões comportamentais vão se acumulando pelo processo todo, mas retradas com calma, certeza, justeza, paixão (como não ficar impressionado com a atenção que as lentes dedicam à bela e incomum Simone Iliescu em sua última e desesperada aparição; como não ficar impressionado com a calma diante das cenas de sexo que desenrolam sofregamente diante de lentes que sabem acalmá-las).

Num filme que trás como mote de condução pilar a relação de uma mulher (Renata, a própria Simone) dividida entre dois relacionamentos – com o angustiado jornalista Marcelo e um ex-ladrão de veículos, Carlos-, ultrapassar a barreira dos conflitos pessoais, para instalá-las em tela cada uma com suas vicissitudes imprimindo reais sub-histórias (mesmo que isso não se dê no plano do corte técnico no trabalho – não há estanquidade para cada um dos três dramas, já que eles confluem, entremeiam, chocam-se e fundem-se, como as águas calmas do rio poluído), é ato de quem sabe como fazer isso pela consciência de que o cinema, justamente pelo seu modo de composição física, abriga paralelismos, sem a necessidade premente de isolá-las. A edição do filme confirma isso: de pegada que sabe jogar um drama dentro do outro, com separações que hora se fundem sem percepção de espaços invadidos ou deixados, e horas utilizam o impacto para as fundições (aliás, fundições surgidas dos impactos que ganham mais espaço com o decorrer da história, criando clima de adensamento em crescente quase angustiante – chega a ser inacreditével o quanto avoluma em tensão, ruídos, climas, conforme as angústias de cada personagem também passam a sair da cabeça para tomar-lhes os corpos).

O filme traz a garota dividida entre dois “amores”, extremamente ligada ao desejo e ao prazer, o que poderá submetê-la à angústia e desespero gerados pelo não querer ter de escolher; traz o jornalista indeciso sobre se é pelo mesmo caminho que desejará continuar um percurso de vida que cada vez mais lhe passa a impressão de fim dos caminhos; e traz o ex-ladrão, que num dado momento (surgido numa conversa com ela pelas ruas do centro da cidade) resolve que realmente talvez seja a hora de romper com a sociedade, passando a ser o vértice explosivo e rompedor do triângulo. Nessa fragmentação de personalidades, Paulo consegue imprimir todos os modelos que lhe parecem atraentes como motivadores da dramaturgia incomum pretendida, onde inclusive poderá representar um tanto de seu pensamento diante das instituições que governam.

A partir dos momentos em que os dramas pessoais tomam mais corpo, o adensamento das tensões citados acima passam, pela edição/montagem, a triar o filme de um patamar “mais compreensível”, para inserir em alternância símbolos e situações que parece levarão à explosão do mundo: e há barulho para agitar mais a coisa, e cenas, e fogos... Tudo em crescendo, fazendo ver um diretor que não existe outro do estilo por aqui. Por vezes , algo do que faz em seu cinema pode parecer equivocado, quando na realidade é risco que ele se propõe e à sua obra (mesmo entre os grandes realizadores recentes que temos, poucos tentam esses riscos, que têm muito mais a ver com procedimentos do cinema marginal paulista); por outras pode parecer sujo, quando ele busca mesmo tal sujeira como uma representação do que lhe angustia socialmente. Riocorrente retoma o Paulo Sacramento estranho que “nascera” assim já lá atrás, junto com a produtora “Paraísos Artificiais”, ao lado de grandes amigos em estranheza, também, como Christian Saaghard,, Paolo Gregori e Débora Waldman (citados nos letreiros finais, juntamente com o guru Carlão).

P.S.: com o garoto Exu, quase uma simbologia do que seria o futuro em mundo tão complexo – por conta de seu presente - obtém—se o momento mais tocante, por conta de uma frase quando é arrancado pelo pai do meio de craqueiros.
P.S.2: filme que remonta a Patife Band e traz um número com Arnaldo Baptista, já larga na frente.



















Leia as matérias deste festival:

*Abertura (17/09/2013)
*Quarta-Feira (18/09/2013)
*Quinta-Feira (19/09/2014)
*Sexta-Feira (20/09/2014)
*Sábado (21/09/2013)
*Domingo (22/09/2013)
*Segunda-Feira (23/09/2013)
*Extra: Os Pobres Diabos
*Premiação