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46º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro


*Sábado (21/09/2013)

Por Cid Nader

Desde a confusão com a projeção do primeiro dia, e após diversas dúvidas diante dos testes subsequentes, até agora as coisas engrenaram em Brasília e nenhum equívoco mais ostensivo aconteceu. Teria de ser assim desde o início, pois não? Quase excelente – ainda não – mas prometendo continuidade. Muito mais do que perceber esses dramas afetando ao público ou à imprensa, quando notei por diversas vezes as feições de apreensão dos diretores foi por eles que me senti indignado. Repito: ver o artista, dono de seu domínio, de sua obra, passando pela tensão de uma conspurcação é triste, injusto... Isso vale demais inclusive quando as conspurcações podem ser pensadas menores, como é o caso de exibições comercias onde a luz do projetor é fraca, ou na quase comum troca de janelas. Você vai, se esforça e calcula uma obra à sua maneira, e na hora de mostrá-la não é ela mesmo que está lá.

Fatos daqui que reacenderam uma questão que vira e mexe me coloco: e um crítico, até que ponto é justo vê-lo dando pitacos oficiais sobre obra alheia? Tenho consciência de que o exercício da crítica, quando dentro de parâmetros mínimos de avaliações com embasamento de quem oficia esse ato, é atitude a ser considerada honesta: já que são fatores de viés intelectual a elaboração e o pensamento: trabalhar em cima disso. Mas entre a honestidade (sempre preferível à canalhice ou canastrice) e a moralidade do ato de interferir diretamente em obra alheia... Sei lá. Tento me ver como alguém que elabora e o que faz por processos que sempre tentam as justificativas em paralelo às observações, mas sinceramente ando me questionando mais, principalmente depois do início tumultuado do evento.

MOSTRA COMPETITIVA - DOCUMENTÁRIO

O Gigante Nunca Dorme, de Dácia Ibiapina. Documentário, cor, digital, 15min, DF, 2013 (FOTO 2)

A diretora Dácia Ibiapina, da qual já conhecia anteriormente ao doc Em Torno da Beleza, desta vez surge com um curta onde relata o nascimento do MPL (Movimento Passe Livre) em Brasília, lá pelos idos de 2004 ou 2005, bem antes dos acontecimentos que desembocam nessas novas e mais generalizadas manifestações que se espalham pelo país, agora. Para tal, se muniu de imagens feitas nas ruas – bastante material captado in loco -, onde se é possível notar com bastante nitidez as tensões entre polícia e manifestantes, por onde se entende o quanto de determinação (por vezes lembrando messianismo) é necessário para que as coisas perpetuem, antepondo-as aos discursos e relatos de uma ex-líder movimento à época, já nos dias atuais. Tanto tem sua importância, por ser documento de situações e instantes, quanto pode ser questionado por uma certa sensação de acomodação no discurso.

Sim, que se faça do cinema veículo para questionamentos e até panfletagem: é justo, é da arte, e até necessário. Mas que não se faça isso pensando em ater-se ao proclamado pelas vias abrangidas, pelo conclamado, sem que uma mínima “interferência” da arte onde tudo está sendo relatado se faça de forma mais perceptível: fica parecendo “só cartilha”.


Morro dos Prazeres, de Maria Augusta Ramos. Documentário, cor, digital, 90min, RJ, 2013 (FOTO 3)

Algumas questões restam após a apresentação de Morro dos Prazeres. Seria o fato de acompanhamento com tanta facilidade dos trabalhos da UPP que se instalou nessa favela carioca algum tipo de coadunação com o trabalho da polícia? Há ficcionalização em algumas passagens da jornada pelo morro e entre alguns de seus habitantes e trechos, mas com a intenção de que se finjam verdade? Observar diversas situações mantendo forte atenção à beleza da cidade lá em baixo seria uma maneira de idealização da pobreza, diante do espetáculo que a natureza proporciona como um brinde compensador?

Talvez a fineza no trato que Maria Augusta Ramos imprimiu desde o primeiro instante a esse seu doc acabe por passar para algumas sensações mais desconfiadas algo que refira aos questionamentos acima. Porque é raro notar diretor que embrenhe terreno tão complexo (tanto física, quanto metaforicamente) da maneira quase flanante quanto a que foi revelada pelo percurso. Suas lentes não tremem diante de possíveis tensões advindas de momentos de investigação e suspeita sobre moradores ou passantes daquela comunidade: além do mais, com tino e boa qualidade na utilização das luzes de cada momento, diversos instantes de composição de quadro entregavam sensações diversas de cada setor percorrido, fazendo com que alguns assemelhassem a pinturas, à ordem arranjada – fato realmente impossível de ser obtido, a não ser pela boa percepção do que se poderia conseguir através de enquadramentos e trabalhos com os diafragmas; ao ouvir e dar voz a um capitão lá no morro mesmo, ou ao comandante que faz discursos que no final podem fazer com que ele esteja sendo ironizado (na realidade, as próprias palavras o autoironizam mesmo e o momento em que foram inseridos na edição tenham possibilitado percebê-lo num mundo em quem só crê mesmo quem é das instituições oficialmente armadas), ou quando acompanha o carteiro que tem seu pé num meio termo apaziguador quando treina meninas para o futebol, ao contrário de um outro que organiza festas por lá e contesta violentamente as ações e as razões da polícia instalada (ele diz de modo bastante interessante que a ocupação desvirtuou, apaziguou, e tirou a naturalidade do local), fechando o viés de observação dos seres numa garota que foi presa quando criança por porte de drogas, e mora com a família.

Maria Augusta traçou – porque se nota que o doc (para além de algumas fcicionalizações mesmo) é tremendamente roteirizado (pelo bem e pelo mal: porque permite mais fluidez e azeitamento nas ligações, mas engessa um tanto a possibilidade dos sustos ou até possíveis equívocos) - e trabalhou um filme que consegue cumprir de modo bastante satisfatório as questões que contam do local e dos seus (cumpre esse lado informativo e revelador dos docs): indo além, para criar momentos de forte marca. Além de alguns grandes quadros obtidos, obteve situações raras brotadas de espontaneidade: como a policial feminina loirinha que sempre vira a cara quando se revistam homens e são tocadas suas partes íntimas, ou nas menininhas que brincam em casa, ainda quando uma mulher reclama veementemente de roubos aos policiais, que não sabem muito como reagir, ou ainda na figura da avó da garota que havia sido presa com toda sua dificuldade em andar. E há situações que contribuem, mas que parecem realmente “inventadas”: a bela cena que ocorre quando alguns moleques assistem do lado de fora da casa do carteiro um jogo em que seu Vasco da Gama perde para o Botafogo; o momento em que a garota que havia sido presa e libertada, ainda menor de idade, surge na frente de uma patrulha e é revistada, ou outro, na festa, em que ela mesma fuma maconha na frente das lentes, mesmo tendo sido alertada pela juíza que a libertou para que não “incorresse mais em erros”...

Na realidade, a naturalidade de algumas situações (de todos os lados, com todos os envolvidos), contrastada com o capricho estético e àquelas que pareceram criadas; a calma nos acompanhamentos aos policiais e diálogos soltos que contavam de intimidades, resultaram um trabalho bem interessante. As questões iniciais? Ah, foram ouvidas por mim logo após a sessão, e imaginava que não seriam as minhas palavras na hora de escrever.


MOSTRA COMPETITIVA – FICÇÃO E ANIMAÇÃO

Engole ou Cospervilha?, de Marão, David Mussel, Pedro Eboli, Fernanda Valverde, Jonas Brandão, Giuliana Danza, Gabriel Bitar, Zé Alexandre. Animação, cor, digital, 8min, RJ, 2013 (FOTO 4)

Nunca há muito a que se comentar nesse filmes de Marão e companhia sob a intitulação de “Ervilhas” – ou o que fazer com elas. Porque são muitos trabalhos condensados em pouco tempo; porque a sensação maior é de que estão mais para serem notados como projeto de provocação do que “simplesmente” como artes individuais de cada animador; porque cada um deles é muito diverso do outro – principalmente no quinhão “modo de confecção”, já que por “idealismo” transitam nas mesmas vias. A maioria delas boas. No caso: a coisa é ir e ver e rir nervosamente.

Todos Esses Dias em que Sou Estrangeiro, de Eduardo Morotó. Ficção, p/b, 35mm, 20min, RJ, 2013 (FOTO 5)

Não é fácil manter o modelo de PB que Eduardo Morotó mantém nesses seus curtas-metragens: já havia sido assim em Quando Morremos à Noite (um filme quase sempre escuro e que mantém em visual o sentimento, as tensões, as variações dos personagens), e o é novamente aqui, com Todos Esses Dias Em Que Sou Estrangeiro. Há uma evidente entrega do diretor na tentativa de criar na retina do espectador marca que será de difícil “apagamento”: tanto quanto há paralela a essa busca outra que “dialogue” técnica e esteticamente com os motes propostos - ele trabalha com mundos duros, nada leves, bem humanos no seu quinhão real de intempéries interiores (creio que o ser humano é a espécie perturbada por ser tão outra no planeta, que sofre com isso, mas que também tenta quase sempre fingir só felicidade), e tenta nas variações de um PB seco e por vezes esmaecido a falta da “luz fingida”.

Num mundo duro, qualquer, no meio de regiões desconhecidas, Antonio vive, enquanto anseia não mais estar lá: é de infelicidade que se fala aqui, de desespero contido na marra, do diálogo contido, da proibição do se pensar mais à frente - é de humanidades, que são “invenções” da espécie que busca a mais do que somente sobreviver, se alimentar, procriar. E a partir dessas angústias, nada mais comum do que se imaginar modos de reação: diferentes uns dos outros, mas sempre em ponto de aflorarem. O diretor até cria o breve momento do idílio, do escape, em Quando Morremos.... Dessa vez parece que não acreditou em nada a mais do que o possível se fingir idílio na relação sexual paga. Não permitiu nada a mais do que isso, impregnou as suas figuras com ambições bem definidas, economizou mais nos diálogos – valendo-se, portanto, de edição mais apurada ainda para “fingir’ os modos de explicação -, e foi acima: fez um curta melhor ainda: tanto quanto mais duro na destinação optada.


Amor, Plástico e Barulho, de Renata Pinheiro. Ficção, cor, 35mm, 82min, PE, 2013 (FOTO 6)

Não tem como escapar do delírio visual que Renata Pinheiro cria e “estica” por todo o processo de apresentação, vida e fim – que não se contenta com “um final”, extrapolando suas funções e indo aos créditos com esquetes até mais densamente elaborados do que o filme – de Amor, Plástico e Barulho: inclusive quando se vai embora da sala de cinema e a retina fica espocando internamente (talvez os outros reparem, sabe-se lá) luzes coloridas, brilhos de artifício... Não há como escapar do ouvido repercutindo para dentro (e que se possa talvez até notar alguém dançando inesperadamente do seu lado, com o que teria razão real para tal) horas após terminado o filme, porque “espocam” também nos tímpanos os acordes emanados por todo o tempo, por um trabalho de som quase incrível de tão perfeito, das músicas ditas bregas que são executadas pela banda que abriga a novata e ambiciosa Shelly (Nash Laila), e também a estupenda/entediada Jacqueline (Maeve Jinkings).

O olhar da diretora para esse mundo de tanto sucesso nas ruas e programas dos mais populares de sua Recife é amplo, generoso, indo muito além do que já seria genial se “somente” justo para tentar fazer com que se note com mais atenção os personagens que o tocam em frente. O olhar da diretora atenta a uma construção fílmica dinâmica e extremamente variada, que diversifica as captações “comuns” de suas lentes para valer-se também de outros modos de captação (mais sujos, amadores, pobres, com suas razões específicas, e que cria em tela contraste genial – pela falta de pixels – quando comparado ao que as “câmeras profissionais” fizeram); que insere brilhos artificiais nas cenas (por vezes processos mecânicos, por outras com aparência de obtidos na “mesa de edição”) noturnas e internas, fazendo do ato exemplo cinematográfico (sempre bom lembrar e repetir que o cinema se explica por - e vive das – imagens) para a “explicação” de uma palavra do título do filme, que é “Plástico”; “olhar”, que faz da banda sonora algo raro e hipnotizante, capturando pela audição, ao presentear o espectador com sequências das tais músicas bregas, também pela explosão de sons que inundam a sala de exibição (fica óbvio que aumentar o som da projeção foi uma tática usada, tanto quanto perceptível notar isso como justo e necessário para o alcance desejado: “Barulho”); que é concreto e absolutamente consciente na perseguição aos personagens (com câmeras que até poderiam incomodar pelo fato de serem urgentes e ariscas na necessidade de estarem próximas demais das pessoas, mas dão a volta por cima quando resultam momentos tão necessários à observação deles), na compreensão obtida dos ambientes rastreados e esquadrinhados de forma inquestionável (a partir de quadros fortes e complexos visualmente, cenas de resultado bem avesso ao comum, variações ambientais contrastantes para representar com certezas as especificidades das situações – os momentos no programa humilhante da TV são de tal percepção, os da praia num sonho/noite de outra totalmente diversa, os dos locais dos shows mais antagônica ainda...); e na utilização “veloz”de luzes e som, que emprestam ao filme tudo que foi desejado abordar desde o início.

O olhar da diretora para esse mundo de tanto sucesso enxerga diversos seres, mas é amplo e generoso às suas duas protagonistas, focando atenção rara e cuidadosa nelas, concorrentes ao “cargo” de musa e líder de sua banda: com certeza, fato que Renata conseguiu muito por conta, também, de atuações extremamente dedicadas. Por um lado, o filme tem nelas explosões de cargas de sexualidade (isso é latente, pulsa), incitando desejos e fazendo entender como se é possível progredir ou cair por conta da transformação da carnalidade em amor ou interesse: Jaqueline é potência máxima com seu corpo e modos, Shelly do tipo desejada por ter um tanto de ingenuidade mesclada – todas e mais um tanto, preenchendo a tela com atenção das mais raramente bem completadas por diretores ultimamente. Também tem nelas representação máxima de anseios, de medos, de fins e inícios, de inveja e necessidade de cumplicidade, de necessidade, também, de “Amor”. Se as notamos cada uma em seu mundo, que num certo momento (mesmo que já fora do filme, mesmo após o encerramento) confluirá, e provavelmente quando uma já não estiver mais na banda: se nota que elas fazem parte de um mundo musical idealizado e cultuado pelos “mais simples”, o que talvez possa fazer entendê-las mais ainda como gente do mundo comum, e que sofre pelos amores – “coisas do povo”.

A especulação imobiliária, o aburguesamento estranho de Recife estão lá novamente, por todo o tempo: visão dos prédios em construção, som do anúncio de um novo Shopping que “inaugurará breve”, na corrida insana por uma liquidação “indispensável”. Isso que faz notar quase todos os diretores pernambucanos com consciência rara e insistente em defesa do que é seu.

E Renata consegue demais nesse seu longa: demais mesmo. Lembro agora do trecho/sonho onde Shelly despeja purpurina (ou pó dos “plásticos”, da artificialidade) num ônibus, se movimentando com ritmo e trejeitos de dança da banda – com direito a coreografia e tudo -, talvez como o resumo mais perfeito para tudo que foi contado durante o trajeto em tela: que é o da quase certa desilusão após sucessos tão fugazes como os que são proporcionados pela fama breve de modismos, ou pela falta de empenho dos setores imperantes da divulgação das artes (mesmo os mais populares), quando tudo, se nota, desmoronará diante de um almejado reconhecimento que extrapole o proporcionado pelas camadas mais simples: sempre a velha busca do mais, mesmo quando afirmando que seu público alvo é o mais simples. E tal cena, com cores, brilhos, luzes e atenção danada da câmera, inicia à sonho de David Lynch, para desembocar em coreografia que remete a pensar em Tsai Ming LIang (aliás, diretor que também trata das desilusões e medos da solidão).



















Leia as matérias deste festival:

*Abertura (17/09/2013)
*Quarta-Feira (18/09/2013)
*Quinta-Feira (19/09/2014)
*Sexta-Feira (20/09/2014)
*Sábado (21/09/2013)
*Domingo (22/09/2013)
*Segunda-Feira (23/09/2013)
*Extra: Os Pobres Diabos
*Premiação