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46º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro


*Quinta-Feira (19/09/2014)

Por Cid Nader

Sessões que atrasaram porque buscavam soluções para os problemas técnicos do dia anterior: a princípio valeu, porque tudo correu bem. Hoje direto aos textos.


MOSTRA COMPETITIVA - DOCUMENTÁRIO

O Canto de Lona, de Thiago Brandimarte Mendonça. Documentário, p/b, digital, 25min, SP, 2013 (FOTO 2)

Thiago Brandamente Mendonça, que dirigiu anteriormente o bom curta Guerra dos Gibis, e que aparentemente anda buscando desta vez resgatar coisas de São Paulo (da cidade, e coisas relacionadas a manifestações culturais que cada vez mais perdem espaço), surge novamente nesta mesma Brasília que o premiou ano passando com um curta que fala do circo paulista, de tradição tão de paridade ao que é mundialmente, tanto quanto com nuances locais – raramente notadas por um país que nunca enxerga o estado paulista como local de emanações populares: aliás, aproveito para um aparte em meu próprio texto, por conta de Thiago ter dito ontem em palco sobre a cidade ser cruel com sua memória, numa repetição “autodetratadora” que tem se tornado comum entre os paulistanos, mas que nem sempre representa plena verdade (a cidade tanto não cuida de sua memória como outros locais do país também, enquanto talvez seja a que tenha mais mecanismos e locais de incentivo à memória – partindo da instituição ou por outras vias, como sempre foi o mais comum, em terra que sempre teve de se “virar” mais por esforço próprio do que por benesses naturalmente surgidas da federação).

Voltando ao trabalho: há muita beleza nele pelas opções estéticas adotadas na utilização do PB, deixando para a cortina de um circo cênico a função do vermelho imemorial que liga à arte; há beleza no belo aproveitamento de imagens de arquivo, filmadas ou em fotos (as filmadas, com alguns instantes coloridos que contrastavam belamente com o matiz do filme no seu todo; as em foto, com utilização de realce para uma espécie de sépia com bastante contraste; todas como grandes representações imagéticas da memória do que era contado oralmente pelos mais velhos). Há um certo alongamento nas exposições dos fatos narrados ou nas criações musicais, que entregam logo pelas primeiras investidas, mas que passam a impressão, enquanto o filme avança, de que não se queria desfazer de nada o obtido na hora da edição: atitude que acaba dispersando um pouco a atenção. Mas diria que justo e raro nisso de resgate de memórias.


O Mestre e o Divino, de Tiago Campos. Documentário, cor, digital, 83min, PE, 2013 (FOTO 3)

E quando surge um documentário como esse O Mestre e o Divino diante da gente, assim do nada - construindo sua razão (ou razões) por processo de acumulação e geração de volume, para desfechar com sensação deixada de satisfação plena ante situações que jamais havíamos pensado existir antes, como se deve reagir? Diria que reagir com alegria e agradecimento pela “alegria elucidadora” deixada como contrapartida pelos minutos dedicados a assisti-lo; diria que mais uma vez com alegria, por ver outro um doc tomando para si a função de entretenimento satisfatório, que cada vez mais têm feito pensar o modelo como o que mais avançou e diversificou na história do cinema (tomando para si a função que tanto se fez a marca/razão maior da ficção, a ponto de fazê-la o grande modelo de atração após a indústria ter percebido lá um pouco após o início de tudo que seria pela dramatização da arte que nascia o melhor meio de atrair público, e consequentemente lucrar com isso); diria que impressionado, pois antepor os dois principais “modelos” humanos desde o momento das grandes descobertas geográficas (os invasores, mais “avançados” – pelas concepções de entender avanço ditadas por quem contou a história -, tendo como “sub-braço armado” a companhia de instituições religiosas; e os conquistados, normalmente constituídos por povos que ainda se fiavam no aproveitamento sazonal do que a natureza lhes proporcionava, e com ligações aos deuses também tendo como base pilar essa natureza dadivosa e mantenedora), no caso um padre salesiano e um índio da etnia Xavante, sem fazê-los antagônicos pela porção conquistado/subserviente diante do catequizador/aproveitador, mas sim antagônicos e parceiros por aclaramento deles pelos viés mais humanos.

Sim, porque Tiago Campos não busca destruir um e elevar o outro para fazer com que seu filme se nutra da potência que, compreensivelmente, ganha atenção quando se antagoniza os retratados, quando se os põem em trincheiras avessas, elegendo um para mártir e outro para carrasco. Quando o filme já está abastecido com a forte carga de dados que vai avolumando por seu percurso, enquanto se aproxima do final, o que resta de mais belo e imperante diante da sensação do espectador é notar que o velho padre salesiano, o alemão Adalbert Heid, se revela um ser humano, dentro da mais completa acepção, inclusive com destaque para reações de ciúmes e espanto/admiração, diante da “evolução” que um seu pupilo, o xavante Divino Tserewahú conseguiu nas questões de filmar e editar (algo que se fez pregressamente como a maior motivação e orgulho da vida do padre), que, por sua vez, demonstra pequenas e escapadas reações que lembram algo de “vingança” e jocosidade/amorosa em relação ao seu tutor. Esse acúmulo que se faz como a maior atração técnica do doc, desemboca em perceber que ambos são simplesmente humanos, sem querer fazer da constatação de que podem incorrer em todas as facetas possíveis formadoras do caráter da espécie uma espécie de aula de moral e cívica, mas deixando claro que se podem ser cometidos erros ou acertos no decurso da vida, por vezes com intenções nobres (ditadas por regaras particulares a cada modelo de criação), por vezes não, mas deixando de lado qualquer modelo de indução gerada por acusação fácil.

E para chegar a tal belo desvendamento de duas personalidades (extraídas, e ao mesmo tempo representativas, de duas sociedades) Tiago de aproximou de forma quase informal delas, de maneira rara, conseguindo (talvez à semelhança do que faziam os conquistadores no início) empatia suficiente para que fossem se abrindo com o decorrer dos contatos, a ponto de estarem abrindo suas almas e contando questões que raramente fariam para um de fora, de modo quase confessional a ele, de modo como se faz quando se confia num grande amigo. E um tanto antes, entrega ao público a história desse padre, que chega ao Brasil em 1957 para poder catequizar os indos Xavantes de Sangradouro (MS) que ainda não haviam se convertido, que se apaixona por eles e resolve fazer de sua função inicialmente religiosa algo que extrapolava os dogmas para transforma-se retrato físico da nova adoração: para tanto, passando a filmá-los por décadas, a seus ritos, à sua natureza, à atuação dos salesianos diante deles... – o que resultou mais de 500 filmes (algo que fazia surpreendentemente cheio de imaginação juvenil, e que ainda guarda catalogados); nesse tanto antes do trabalho de Tiago, ele puxa para junto a figura de Divino, que de criança foi índio catequizado pelo padre, mas que teve como maior marca restada mesmo o gostar desse processo de filmar e editar – daí um pulo para cair nos “braços” da organização Vídeo das Aldeias, e opções diferentes de captação e de geração de interesse nas imagens (algo que também vem pela diferença de interesse civilizatórios entre ambos).

O doc é rico, porque inicia contando a história (já bastante rica e pitoresca) do padre e, caminhando como quem não quer nada, para derivações que criam estofo raro – até um tanto desordenado, por instantes, mas que juntados ultrapassam todas as exigências. Documentário que se explica todo “fisicamente” (nas imagens dos filmes, nas coisas de arquivo, nos relatos), e que deixa no ar aquela bela sensação de que respeitou dois seres humanos acima de tudo. Para ver e mergulhar aos poucos, até as águas mais profundas, de riquezas raras, onde as perturbações existem, mas não são manipuladas.


MOSTRA COMPETITIVA – FICÇÃO E ANIMAÇÃO

RYB, de Deco Filho, Felipe Benévolo. Animação, cor, digital, 4min, DF, 2013 (FOTO 4)

Nada como trabalhar ao lado do amigo Celso Sabadin para ter algo a escrever a respeito dessa animação digital, de qualidade muito fraca, concretização que faz pensar na razão de ter sido selecionada por Brasília: basicamente, trabalho que se deve respeitar pelo trabalho empreendido, pelo tempo gasto, mas que não entregou nada demais – aliás, muito de menos -, com traços estranhos, cores estranhas, mecânicas estranhas.

Voltando ao Celso, quando me pergunta se eu entendi a razão do nome do filme e vai logo emendando: “a meu ver podem ser duas: uma, referindo ao som que os sapos fazem, como algo que se assemelha mesmo a ‘ryb’ (em tom bem grave); outra, como uma sacadinha que leva às cores geradas pelos sapos num laboratório de experimentos, que acabam como três, um red, outro yellow e mais um blue (o que poderia ser uma brincadeira com o sistema de cores da televisão, RGB – no caso, o “G” como Green). Mais?


Lição de Esqui, de Leonardo Mouramateus, Samuel Brasileiro. Ficção, cor, digital, 23min, CE, 2013 (FOTO 5)

Mauro em Caiena foi o primeiro e belíssimo curta “carta” que vi de Leonardo Mouramateus – belíssimo mesmo, e que cresce a cada revisão. Agora, em associação com um amigo< Samuel Brasileiro, dou de cara com Lição de esqui. E vejo novamente um trabalho ousado, diferente (e ainda bem que é assim quando se trata de curtas-metragens – que se brigue cada vez mais por não adequação), que vai por caminhos que se fingem brincadeira, mas que resulta de trabalho com bastante e perceptível elaboração.

Texto e primeiros atos que insinuam, na realidade se mostram com o decorrer, quando se poderia pensá-los somente sacadinhas (o que não se confirmará à frente,quando será possível notar que há mais razões para esses instantes); momentos de desvio do olhar da câmera para o que se poderia pensar respiro ante algumas sequências, mas que acabam cumprindo a rara função de complementação cenográfica, com a trazida de pequenos detalhes e enriquecimento de dados; belas atuações dos dois, que talvez estejam mesmo brincando em cena, mas que impõem confiança nos protagonistas; e ideia engendrada para botar caminho ficcional elaborado em tela.

Um curta que faz jus ser curta, esperto, que perde um tanto nuns dois minutos finais que parecem inseridos sem uma certeza de onde parar, e que tem na cena da festa, sob luzes “escapistas” e som eletrônico um momento raríssimo, bom de se ver e de sentir: só esse instante já paga uma filme.


Depois da Chuva, de Cláudio Marques, Marília Hughes. Ficção, cor, digital, 90min, BA, 2013 (FOTO 6)

Falar de Cláudio Marques, Marília Hughes é lembrar deles, logo de cara, como realizadores de curtas-metragens bastante interessantes (Carreto, Nego Fugido, por exemplo) numa Bahia ressurgindo a cada dia para o cinema (após um fenômeno como Gláuber, e tendo ainda um gênio de pouco reconhecimento amplo, como é Navarro). É relembrá-los donos de certezas quanto à utilização das técnicas, coisa que emprestava aos trabalhos iniciais probabilidades bastante referentes às possibilidades de invenção que o formato curto permite, aditadas de resultados pictóricos bastante bons (sob quaisquer quesitos específicos pensados: desde a “simples angulação para as captações”, às nuances geradas pela iluminação...)...

Quando se sabe do pregresso bom de um realizador nesse universo curtista, as expectativas diante de sua estreia no formato longa atiçam: principalmente quando se notava o que estreia na nova casa com todos os domínios da anterior e sabedor de que transitava bem por todas as exigências que o formato impunha – e não como um apostador que acertou um filme ou outro. E então inicia Depois da Chuva, trazendo um assunto que para eles já existe como carga de estudos e não como memória adquirida - que é o momento de eleição ainda biônica do primeiro presidente não militar após o golpe que instituiu uma ditadura militar entre 1964 e 1984 -, que de imediato faz imaginá-los tendo de se “instruir” para tal: e foram corajosos, pois excederam o tratamento que poderia ser mais forte e bem estudado se dirigido mais ao momento político, para mesclar diversas situações do então, como coisa óbvia, mas que nem sempre ocorre - indo à grande e bela inserção musical que costura momentos (há um equívoco de datas na reinterpretação de “Poema em Linha Reta”, gravado pela “Patife Band” no ano de 1987, no incrível disco “Corredor Polonês”, que também entrega a música que encerra o filme – mas credite-se isso á liberdade poética); aos atos e modos teatrais que rebatiam a luz dos de vanguarda de então; ao gestual e insuflamento típico nos adolescente de então (que queriam muito as mudanças, e que tinham setor do mundo bastante mobilizado e motivação para atos de similaridade); e até na inclusão de um sutil mas importante drama familiar, na casa do jovem Caio.

E já dentro do longa, caminhando junto de uma narrativa densa e com força suficiente para segurar a atenção, que permite a fluidez das histórias de modo limpo e capturador, nota-se que as imagens criadas são sempre provenientes de atenção e dedicação máxima a cada instante: por vezes, observado o que ferve e ocorre à frente das lentes de modo calmo, como que sem querer interferir nos atos que deveriam ser a razão maior de algumas situações (isso se dá na apresentação da escola, nas “conversas” de Caio com a mãe, nos encontros dele com a melhor amiga/amada, ou ainda nas tomadas da velha “fábrica” em ruínas...); por outras, interagindo com a ação de forma bastante orgânica, como se fosse um dos seres em cena no momento, embrenhando-se e afastando-se, rodando, quase mesmo respirando (já logo de cara, na primeira discussão em sala quando se discute sobre a votação ou não do grêmio estudantil, ou nas grandes sequências musicais da turma dos jovens e desejosos anarquistas - todos esses momentos musicais marginais são raros, de músicas raras, atuações raras sob o som tocado...); além de situações especiais nascidas da obtenção e perspicácia quanto às possibilidades da luz natural em uma cidade de natureza e arquitetura sob tal domínio (quando a garota simplesmente cai no mar, seguida pelo moleque, resulta uma das mais belas cenas a que vi ultimamente).

Cláudio e Marília são jovens, e talvez por isso tenham conseguido dedicar a atenção merecida que raramente se consegue na hora de trazer à tona, ao protagonismo, esse pessoal da faixa adolescente já avançando para a juventude. Normalmente isso se dá criando estereótipos, imprimindo sensações de que todas essas “crianças” são clichês de inconformismo gratuito meio bobo (coisa de hormônios em revolução): quando se consegue “trabalhá-los” com certezas e sem maniqueísmo, percebe-se um momento da vida que talvez seja o mais lindo, e com certeza o que exige mais atenção e dedicação para que se o compreenda. O filme é justíssimo nessa recriação, nessa observação, além de escapar solenemente das armadilhas que tal faixa da vida insinua e acena aos mais afoitos.

“Estranho” ver todo o inconformismo deles e quase desilusão direcionados a pessoas tão jovens, e raro como isso se nos passa de maneira crível – mal comparado, porque falo de uma obra de arte, lembra por vezes os momentos de desilusão pós-barricadas, na Paris de 1968, quando jovens mais adultos são retratados no belíssimo e forte “Amantes Constantes”, do Garrel -: ou bem comparado, porque se um filme consegue remeter a lembrar daquele, é de se pensar bem na questão, e louvar. Dizer que esse seu primeiro longa não carrega equívocos seria exagero: mas não são suficientes para embaçar esse bem-vindo primeiro impacto. Só por impressão e gosto pessoal (sendo que citar isso numa crítica é injusto, já que opção do artista): me parece que o filme manteria mais seu impacto (porque ele é de impacto pelas opções adotadas e executadas) se resolvesse seu destino em tela um tanto antes, ou melhor, se não se fechasse quase totalmente no final – com uma caminhada em direção ao destino que o início indicava. Mas repito: opções do artista são as que valem, e as deles não macularam a bela “surpresa” de um primeiro longa.


















Leia as matérias deste festival:

*Abertura (17/09/2013)
*Quarta-Feira (18/09/2013)
*Quinta-Feira (19/09/2014)
*Sexta-Feira (20/09/2014)
*Sábado (21/09/2013)
*Domingo (22/09/2013)
*Segunda-Feira (23/09/2013)
*Extra: Os Pobres Diabos
*Premiação