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46º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro


*Quarta-Feira (18/09/2013)

Por Cid Nader

Falava ontem da importância do festival aqui de Brasília. Se é assim para nós, público (porque sim, o crítico, o que se arvora dar pitacos em obra alheia, mesmo que tendo de utilizar recursos de paridade com conhecimento mínimo da arte, e mesmo devendo – sabendo que nem sempre é assim – detalhar e pontuar com dados as razões sobre suas concordâncias e discordâncias , nada é mais do que o que oberva a obra pronta, do ponto de vista do que não interferiu na criação: portanto, espectador, público), imagine-se o que o evento não significa para o realizador, o artista, afinal de contas.

E lá vamos nós para o primeiro dia da competitiva, na renovada sala do Cine Brasília, com todo o tipo de expectativa aumentando a adrenalina enquanto os momentos do início se aproximam: imagine para o diretor, o artista. Por fora, prédio tinindo de limpinho, carinha de coisa bem feita, com a entrada principal sob iluminação bem mais adequada, sutis transformações nos caminhos e tal. Já dentro, de cara, chama a atenção as cadeiras novas e o espaço bem amplo em relação às da frente – além de serem largas e com material sintético que imita couro de bom toque -: beleza e espaço que para alguns (eu incluído) não resistiu e impôs suaves dores na lombar após uma hora e tanto sentados (talvez para alguns modelos de anatomia funcionem bem, para outros não, mas causando aquele desconforto que leva à necessidade de rearranjos de posição a cada poucos minutos). Para o artista, o ator, o que editou, os envolvidos na confecção da obra, até isso tem serventia quando funciona bem, porque mau humor causado por má postura, pode derivar facilmente para a má apreciação.

E a “noite fílmica” começou bem na tela nova (tela que tem ao menos uma emenda impensável para um cinema redivivo), com projeções boas, som bom, e tal. Até o momento em que o artista, o que mais anseia no momento do primeiro encontro entre obra e público, vê como que seu mundo ruir, diante de questões que não são as da apreciação do concretizado, mas por falhas no suporte utilizado para a exposição: até o momento em que o som estoura em ruído ensurdecedor nas caixas de som, lá pelos 40 minutos de projeção do belo Os Pobres Diabos. Todos pasmos, vaias de um público impaciente (aqui em Brasília essa é a tradição – até alardeada como uma virtude do festival, mas que gerou percepções em outras ocasiões nem sempre justas de razões para tal...). Alguns minutos e vota a projeção... Tudo transcorrendo a contento – se bem que a suspeita já deixasse um ar tanto mais tenso - e novamente... Mais um ajuste, e minutos após, outro estouro.

Público agitado, evidente pensar no diretor Rosemberg Cariry e sua trupe em pânico, a imagem volta, dessa vez com algum desajuste, já não ocupando a tela toda, fixando-se num quadro um tanto menor (como se houvesse trocado de mídia), escurecimento no brilho, diminuição da potência das cores (um certo “acinzentamento”), chuviscos, espocares e cessamento. Plateia ruidosa levantando e saindo - alguns berros e vaias... Nós da imprensa, lá em baixo, grudados na tela, especulando, quando o Petrus (filho do Rosemberg, grande amigo, maior diretor ainda, espetacular fotógrafo) desce correndo, esbaforido, tenso e evidentemente triste, para explicar que “o problema não era do filme, ou do arquivo original, e sim algo mesmo do local, do equipamento utilizado para a projeção, e que a sessão estava cancelada por que não era possível continuar”. Muito triste ver um artista tendo sua obra corrompida, ultrajada, sofrendo baques: muito triste ver o artista (por tudo que citei lá no começo) tendo de encarar a plateia para se explicar sobre problemas que não são de sua obra: sobre problemas que lhe roubaram a obra, na realidade. Soube por conversas paralelas hoje cedo que até ontem à tarde o som ainda não havia sido testado; que o equipamento ainda estava sendo instalado na terça-feira; que o tipo do projetor e o servidor não dão problemas. Sem acusar ou desculpar: mas o festival daqui é tremendamente importante para “sofrer de urgência”.

Falar um tiquinho do filme. A direção de pai e fotografia do filho faz notável e incrível o que conseguiram em “fundição” de conceitos: já que o mitológico Rosemberg traz em sua carreira longa (nem tão profícua, mas com forte referência autoral) um modo de enxergar a evidente carga de ancestralidade mundial como a que nutre a formação do sertanejo (o que desemboca nas cores, nos cantares, na narrativa de forte carga fabular...), nem sempre atentando ao máximo da justeza técnica (se bem que com olhar estético que reproduz à perfeição esse mundo), mas sempre embutindo o discurso que cobra ante os beneficiados do sul com suas menores variedades/riquezas, sempre enaltecendo ao máximo suas tradições; enquanto Petrus, um esteta da melhor qualidade (esteta num sentido de perfeição, de atenção e utilização das gamas em favor da arte que professa, não como um “discurso” autocentrado e autoelogioso), mantém olhar técnico e preciso ao que pretende projetado em tela ( e aí há mais a “imperação” das lentes agindo para tal, do que o entorno cenográfico arranjado, ou de vestuário), e sempre deixou evidente, em seus filmes como diretor, estar em “luta” (ou tentando conciliar internamente) para justapor as coisas desse interior/sertão com suas nuances seculares, e as da cidade grande (com suas similaridades ao bradado contra por seu pai, representado pelo sul do país). Encaixam perfeitamente (e isso já havia ocorrido anteriormente).

Fica a esperança da possibilidade de uma projeção por esses dias completa, para um filme que se apresentou até onde foi possível como uma joinha rara, de lapidação ao modo antigo, com jeito quase artesanal.

Dramas por vezes são incontornáveis; por outras, sim... Maior drama maior é ver um criador entristecido. Hoje pela manhã, soube pelo grande amigo João Sampaio, que havia uma foto de Rosemberg chorando no Correio Brasiliense. Rapaz... Não chore não meu caro e querido mestre; um poeta; um ser sensível de olhar calmo e falas humanistas... Chore não.


MOSTRA COMPETITIVA - DOCUMENTÁRIO

Luana e Cinara, de Clara Linhart..Documentário, cor, digital, 14min, RJ, 2012 (FOTO 2)

Luna e Cinara é curta doc que tem essência um tanto rara dentro desse quinhão: trabalho que oberva muito de perto as reações entre seres humanos, sem que interferências demais sejam tentadas. E isso resulta (também deriva) de paciência na observação, e “pouca atenção” (na realidade, atitude proposital, para tentar com que o tom mais próximo do real prevaleça) aos problemas que alguns desfoques ou enquadramentos sendo mudados em andamento causarão. Fica a sensação de que nós, os espectadores, acompanhamos o desenvolvimento quase como se estivéssemos sentindo o cheiro dos locais, das pessoas, das comidas. Tal aposta, justamente, se dá melhor quando executada diante de fatos ou gente de “não notoriedade”: já que a tentativa é em busca de naturalidade, que se opte pelo ser humano de pele e osso.

A diretora Clara Linhart, neta da senhora Luna, que é cuidada com extrema dedicação e parceria por Cinara, percebeu nesse relacionamento raro e íntimo uma razão interessante para fazer cinema: e fez. E fez ao seu modo, deixando com que a câmera nos representasse (e a ela própria, com certeza) na sala do apartamento do Leblon, na sessão de cinema, no restaurante... E para tal embutiu nesse olhar os “defeitos” da ação mecânica humana. E fez, deixando com que tudo delas juntas (e delas separadas, também) transparecesse para as lentes e microfones, criando ritmo e narrativa com absoluta fluidez, sem solavancos, com verdades sendo contadas (mesmo que pareçam estranhas a uns e outros), com sentimentos não sendo cerceados pela possibilidade que a má utilização da técnica por vezes por provocar.


Outro Sertão, de Adriana Jacobsen, Soraia Vilela. Documentário, cor, digital, 73min, ES, 2013 (FOTO 3)

Sempre questiono (por gostar demais do formato) sobre quais as possibilidades e razões maiores a serem tentadas na hora de se pensar em fazer um documentário para cinema? Dentre várias, uma das que mais me atrai é de trazer á tona, entregar ao grande público assuntos que nunca forma de grande conhecimento. Isso, normalmente se dá quando se fala de coisas mais íntimas, ou de recantos específicos, ou ainda quando buscam pessoas que têm importância para poucos ou para lugares específicos: paga-se a ideia quando o assunto de desconhecimento consegue explicar a que veio.

Adriana Jacobsen e Soraia Vilela foram espertas, ousadas, pormenorizadas ao extremo, e raras, quando trouxeram uma das maiores figuras da história brasileira, por um viés (faceta) que quase ninguém, conhece: falaram do grande João Guimarães Rosa que ganhou reconhecimento mundo afora - com certeza um dos nossos três mais importantes escritores -, quando exerceu a função de embaixador do Brasil, em Hamburgo, na Alemanha Nazista que iniciava o forte processo de perseguição aos judeus, 1938. Guimarães Rosa, de escrita complexa e riquíssima, que é apresentado no documentário principalmente através de um diário particular, onde sua erudição teimava em escapar, mesmo por trás de escritas que relatavam o simples cotidiano da cidade alemã, ou nas observações incrivelmente pertinentes de um observador que acompanhava e preconizava o início e destinos II Grande Guerra Mundial.

Ampararam-se com enormidade inacreditável de “belas” imagens de arquivos – desde algumas em que o próprio Guimarães aparecia em fotos; a outras quando de uma entrevista para uma TV alemã nos anos 60 (onde se nota em seu modo de falar e de olhar, pessoa de extrema inteligência, assertividade, poder de raciocínio – momentos raros); e infinidade de outras que retratavam o cotidiano lúdico da Alemanha do período (imagens em PB ligadas aos fatos narrados como se faz quando se quer ilustrar um texto, se vai ao Google e se cata a imagem desejada), ou as impactantes em cores, filmadas pelo regime nazista, como peças de propaganda grandiosa, com aquele colorido espetacular criado por eles na década de 30 -; costuraram-nas com justas e não invasivas (ao menos não “desvirtuantes”) peças e sons do Grifo (de MG), criando riqueza sonora em coadunação justa à riqueza e proficuidade das imagens; ousaram até numa singela, veloz e fugaz animação em cinza para retratar um momento em que se falava de tempo nublado no diário; e com depoimentos recentes que comprovavam a passagem dele naquele instante por lá, de seus atos em defesa de infinidade de judeus, até – isso no início – com a presença de uma desejável namorada de então, ainda viva hoje em dia.

A história contada é tão rara quanto inacreditável; ler seus textos no diário, tão sedutor quanto mais revelador ainda de suas capacidades como observador – o que ele nota naquele início de conflito, ao vivo e in loco, nem grandes entendidos e historiadores posteriores conseguiram reproduzir com tantas certezas e ousadias -; as analogias ligando tal período de vivência influenciando fortemente sua literatura são reveladoras e justas como mais um fator de enriquecimento do trabalho das diretoras... E por ai. Num doc tratado com muita atenção, de edição maravilhosa e fluidez fácil, trabalhoso com certeza, mas que recompensa/presenteia maravilhosamente o espectador.


MOSTRA COMPETITIVA – FICÇÃO E ANIMAÇÃO

Deixem Diana em Paz, de Júlio Cavani. Animação, p/b, 35mm, 10min, PE, 2013 (FOTO 4)

Fazer animação a bico de pena é processo tão raro (quanto mais o tempo passa, a impressão que fica é que desses processos mais lindos gerados por “artesania”, o único que sobrevive de forma mais consistente e perceptível é o do 3D proporcionado pelo stop-motion), que quando deparamos com uma a atenção parece redobrar, na tentativa de encontrarmos equívocos ou belezas a mais. Talvez o processo mais fino e preciso na confecção em 2D, trabalhar por essa opção requeira mais do que a já sempre desejada atenção ao movimento (quando não se faz ideal o surrupiamento de quadros na tentativa de economizar tempo em estúdio), a certeza do traço, o ajuste da linha, que serão, afinal o suporte estético a conduzir toda a narrativa.

Júlio Cavani trouxe seu pai (creio que Cavani Rosas) para exercer a função do desenhista e parece ter acertado na escolha: traços precisos, bonitos, que invadem diversos universos (desde a cama que serve de refúgio para a figura feminina de Diana, até o fundo do mar), com recriações sutis e de bela exposição: sendo que é importante dirigir a qualidade da exposição à cofluência das outras atitudes técnicas (as filmagens dos quadros, a montagem, a iluminação optada...), que concluíram um trabalho bastante correto e pontual na direção para onde queria chegar – sem ser genial, mas bem dentro do desejado.

Para além da opção pelo traço, Júlio trouxe à cena a colaboração de Joana Gattis como uma atriz de “carne e osso”, o que demanda outras técnicas de execução. A impressão em alguns instantes dela em cena – não em todas – é similar àquelas antigas, de quando se desenhava sobre o ator, para a recriação em animação. Trabalho que retira o filme “da simples gestação no papel”, para placas que parecem querer entregar um ser perfeito, à semelhança, como uma recriação não divina: como se fosse a intervenção direta e provocativa do homem nas ações naturais. E conta história triste: bem triste.


Sylvia, de Artur Ianckievicz. Ficção, cor, digital, 17min18, PR, 2013 (FOTO 5)

Artur Ianckievicz é do ramo, Da galera de Londrina - talvez ainda hoje, mesmo com a capital querendo botar as manguinhas de fora, onde se pensam mais cinema no Paraná -, traz nesse seu filme muito de um estilo que é bastante calcado no formalismo, no bom trato das imagens: algo que sempre seria o desejável para quem entende cinema, mesmo, como arte. A história proposta é daquelas de base: amigas que treinam boxe e parecem inseparáveis que num dado momento se percebem em lado opostos no modo de sobrevivência – poderia ser outra com o mesmo matiz de algum tipo de antagonismo quebrando a ligação pata que seja criada a tensão.

Tensão que, mesmo quebrada, não joga o curta no embate da dramaticidade, no vale de lágrimas, no desregramento. Porque é essa a ideia central: fazer dele um exemplo de trabalho que busca excelência técnica e estética. E temos mesmo a exibição do bom domínio do que é filmado – quase sempre por tomadas fixas extremamente elaboradas, que se valem de iluminação específica para o clima de academias ou “fuleiros” ringues de boxe, e de poucas variações com prevalência da cor azul; e temos o bom domínio da edição – que aproveita-se dos takes elaborados para costuras secas, emprestando um filme de “linhas retas”, sem sobras ou aparas extras; e temos a qualidade do som (com o auxílio de uma bela música no desfecho).

Serve como bom exercício do que deve ser o cinema na sua base, e como exemplo do tratamento do exíguo tempo no formato curta-metragem: mas sinto um tanto de falta de alma, um, talvez, excesso de racionalidade (e talvez tenha até sido essa a intenção do diretor), um pouco de frieza (como a das luzes ideais para a imagem). É da proposta, quando levada a ferro e fogo, que tem seus prós e contras.Ah: e uma certa "pagada Black Expoloitation"?


Os Pobres Diabos, de Rosemberg Cariry. Ficção, cor, digital, 98min, CE, 2013 (FOTO 6)

*FALO SOBRE A NOITE DO FILME NA CRONÔNICA DA ABERTURA – ACIMA.



















Leia as matérias deste festival:

*Abertura (17/09/2013)
*Quarta-Feira (18/09/2013)
*Quinta-Feira (19/09/2014)
*Sexta-Feira (20/09/2014)
*Sábado (21/09/2013)
*Domingo (22/09/2013)
*Segunda-Feira (23/09/2013)
*Extra: Os Pobres Diabos
*Premiação