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46º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro


*Abertura (17/09/2013)

Por Cid Nader

Pela quinta vez consecutiva acompanhando in loco esse que deveria ser considerado o maior festival de cinema brasileiro, no Brasil, pela importância que carrega desde o nascimento como uma criação de Paulo Emílio Salles Gomes, imaginando justo e importante ter no centro do país um local facilitador para a apreciação e divulgação de obras que viriam de rincões mais distantes, e que teriam aqui na capital até uma facilidade mais geográfica de comparecimento – como a cidade havia sido idealizada para numa ideia embrionária aproximar as distâncias em uma nação imensa, seria justo aproveitá-la, já que construída para que servisse até como um modo mecânico de visionamento e expansão.

Tanto isso se deu, com certeza num primeiro instante – mas mais como celeiro de criações das marginalidades e periferias do nosso cinema, quando autores e filmes de marca máxima fizeram daqui o local onde poderiam expandir o que construíam, quase sempre advindos ainda dos principais “centros nervosos”, Rio e São Paulo (as linguagens e modelos eram das bordas inventivas, mas os núcleos ainda não representavam as bordas “palpáveis” do país – talvez tendo como exceção maior o cinema de Gláuber, se bem que se deveria pensar na Bahia como local que nasceu e foi por dois séculos a capital) –, como ficou por um bom período marca indelével de que tudo derrapava e tocava o que não seria mesmo a intenção principal, fazendo do evento representação de filmografias de “menos importância”.

A grandeza e necessidade maior, durante esse período mais nebuloso e indeciso, continuou existindo principalmente pela ligação de tudo ao nome Paulo Emílio, enquanto nas “cochias” a confiabilidade e necessidade dele (o festival) passaram a ser alvo de fortes questionamentos. Outros eventos surgiram pelo país tomando para si esse papel de desveladores dos rincões (pode-se citar sem nenhum equívoco a Mostra de Tiradentes para tal), e o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro teve de se coçar para retomar importância, indo além da intenção mítica. Havia a obrigatoriedade do ineditismo (já que acontecia no mês de novembro, quando quase todas as produções do ano haviam sido apresentadas nas infinidades de festivais que passaram a surgir a cada ano), retiraram-na, transferiram sua data para setembro, aumentaram de modo substancial a premiação (ah, isso das premiações servindo como incentivador, ainda me cabe pouco na ideia – e que talvez seja um dos fatores de recrescimento)...

Por alguma razão menos “focável” assim numa avaliação mais superficial, há coisa de três ou quatro anos, quando arriscaram curadoria mais ousada, digamos, parece que a potência do evento retomou posições, filmes justamente das periferias passaram ao menos a dividir espaço com produções de menor “quilate inventivo”, Paulo Emílio deixou de ser ainda o sonho que segurava as pontas, para vermos suas intenções ganhando o espaço. Vir para cá tornou-se menos a ida ao altar onde se ora por deuses e seus ditames: vir pra cá a cada ano tem incitado a certeza de que algumas obras de suma importância poderão ser constatadas, de que verei o Brasil dos cantos (e como já se notava em outros eventos bem mais novos, se anda produzindo muito coisa boa pelo país, e principalmente – se bem que não só – de locais que até pouco tempo mal conheciam o cinema, além de mãos e processos tão novidadeiros e instigantes, como os coletivos) – inclusive na representatividade da imprensa que cobre o evento, com uma boa porção dela tratando-o criticamente (cito novamente Tiradentes como o local ainda prioritário nesse sentido), ao contrário de outros locais onde impera a cobertura fru-fru, dos bastidores, do glamour.

Portanto em Brasília, noite de abertura, no Teatro Nacional Cláudio Santoro, Sala Villa Lobos: sempre impressiona como bem gente para prestigiar a abertura do festival daqui (na realidade, em outros festivais também é assim, mas durante o prosseguimento, invariavelmente o público míngua, o que já não ocorre neste em que inicia); sempre impressiona a coragem de colocarem uma orquestra para esse início (no caso: a Sinfônica do Teatro Nacional Cláudio Santoro, regiado por Cláudio Cohen; impressiona a ideia que já vem de anos anteriores de que seria uma abertura comprida e cheia de discursos – o que não é a realidade, mas a sensação de “esticamento” se dá pelo excesso no atraso dos trabalhos. Especificamente ontem, impressionou a opção na escolha da peça sinfônica criada como trilha sonora do filme Robin Hood (composta pelo compositor norte-americano Eric Wolfgang Korngold): por ser peça de poucas variações e pouca imposição dos timbres mais fortes (e linda: o que faz pensar na decadência da qualidade nessas escolhas com o passar dos anos), aposta forte no violino spala (que no caso chamou a atenção, também, por ser de um Stradvarius original, do século XVIII (executado pelo violinista austríaco Benjamin Schmid)), com pouca força para segurar a atenção de um público mais impaciente (e dá-lhe conversinhas paralelas, e telas de celulares acendendo o tempo todo) – detalhe prum quase leigo como eu é que a sala parece ser de acústica imprópria para apresentação sinfônica, com a impressão de que o som era contido/retido, quase jogado de volta para o placo, ao invés de expandido e rebatido nos cantos mais distantes (algo se que se percebe facilmente em outros locais). Valeu a coragem na escolha...


FILME DE ABERTURA

Revelando Sebastião Salgado, de Betse de Paula. Documentário, cor, digital, 75min, RJ, 2013

Qual a intenção que deveria ser a maior, executada, na hora de se falar de alguém que se imagine de farto reconhecimento público, como é o caso de Sebastião Salgado, considerado um dos maiores fotógrafos da história recente? Trazer para o público fatos da intimidade (que remetam ao nascimento, ao pregresso antes da fama, ao momento em que a escolha pelo ofício se deu, das dificuldades, da família, curiosidades de “bastidores” do trabalho...), de pouco conhecimento e alardeamento, com certeza: sempre imaginando que esse é um caminho padrão, que pode ser questionado por quem imagina a necessidade de maiores variações sobre o trabalho concluído, sim; mas sempre lembrando, também, que antes o fácil e com jeito de seguimento de regras de cartilha, do que ousadias para a atração à narrativa criadas por atos desnecessários e até interferentes.

Antes: tão belas as fotografias de Sebastião - que ganharam admiração inclassificável de setores da sociedade –, quanto questionáveis (pelo setor que o acusa da apropriado da miséria em favor específico do enriquecimento próprio , mas advindo da exposição de seus takes por grandes conglomerados de “imprensa” interessados nas vendas acima de tudo – não à similaridade de um pintor, por exemplo), suscitaria um bom desvio (pequeno que fosse) se a diretora Betse de Paula abandonasse por um instante que fosse o posicionamento chapa branca total assumido pelo doc (feito e pensado para a TV), inquirindo algo sobre esse processo mercantilista. Mas é só uma observação, que creio cada espectador saberá o quanto lhe tocará ao final.

Depois: alguns verdadeiros dramas (no pior dos sentidos) se instalam ostensivamente sobre o trabalho, pensado como uma grande entrevista do fotógrafo. Já começam justamente pelo fato e jeito da entrevista, que entrega uma recitação de mais de uma hora monocórdia, cansativa, em tom brotado de uma pessoa que parece sincera e humilde, tanto quanto voltada demais a si e aos seus: o modo de obtenção e a opção pela narração pelo modo escolhido acabam por cansar, fazendo o filme parecer excessivo, longo (o que não é mesmo com seus 75 minutos de duração).

Dramas que continuam nas sacadinhas integradas na edição (algumas falas, algumas reclamações, alguns sutis atos – como quando pede para que todos da equipe de filmagem limpem is pés para não sujarem a casa), que parecem trechos artificiais de quebra na sequência narrativa, mas com intenção/impressão de cooptação forçada da simpatia, bem mais do que como opção “estética”. E que se estabelecem de forma mais intensiva e distanciadora da apreciação, quando das opções de inserções de sons e ruídos (e ela se vale da sonoridade e dos modos tímbricos e inventivos de Naná Vasconcelos para tal – como se o fato de trazê-lo ao trabalho gerasse automaticamente um símbolo de qualidade superior para fazer paridade à arte de Sebastião), pelo tempo integral em tela, por todos os instantes, em todos os recantos possíveis, como se fosse equívoco deixar brechas e vazios sonoros (e isso, justamente num trabalho que fala da potência da imagem...): o documentário, em sua invasiva banda sonora, acaba por parecer um daqueles discos antigos de sons incidentais, ou programas de rádios das antigas que “tinham a obrigação” de sonorizar atos comuns narrados para enriquecer a mente do ouvinte – e tome som de algemas, quando ele fala de algemas; de barulhos dos obturadores; das páginas virando; da água pingando e tal (tudo sob a escusa de serem sons nascidos da arte de Naná, mas servindo mesmo para o quase nada).

Totalmente descartável? Não: quase. Porque há uma boa quantidade de fotos famosas (e repito: para quem gosta e para quem gosta questionarem após a sessão) sendo mostradas; e alguns depoimentos (dentro da ideia de revelação do que não se sabe) bacanas. Seria o suficiente? Ou melhor: não seriam melhor aproveitados sem as “espertezas estéticas”?










Leia as matérias deste festival:

*Abertura (17/09/2013)
*Quarta-Feira (18/09/2013)
*Quinta-Feira (19/09/2014)
*Sexta-Feira (20/09/2014)
*Sábado (21/09/2013)
*Domingo (22/09/2013)
*Segunda-Feira (23/09/2013)
*Extra: Os Pobres Diabos
*Premiação