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23º Festival Internacional de Curtas Metragens de São Paulo


*BRASILEIROS (R a U)

Ser Tão Cinzento, de Henrique Dantas. 2011 • pb / 25 min. (FOTO 2)<

Ser Tão Cinzento, por mais incrível que possa parecer sofre uma pequena – mas quase fatal - engasgada justamente nas linhas de conexão que procura manter e potencializar para se fazer obra reverencial e justa ao modelo da que lhe inferiu o sopro e vida: que foi o filme “Manhã Cinzenta”, de Olney São Paulo (um diretor fora da corrente mais conhecida e produtiva dos tempos da ditadura), feito há cerca de 40 anos, que tratava do assunto da opressão política da época, mas que ganhou certa notoriedade por ter sido relatado como a “o companheiro” que acompanhou os sequestradores de um avião na primeira ação do gênero no país (com finalidade política).

As imagens do filme resgatadas e inseridas nesse novo trabalho (sendo que há participação de dois filhos na concretização geral - inclusive no trabalho musical fruto também desse parentesco), automaticamente remetem o espectador a sentir-se em terreno onde a emoção respeitosa terá de ser um dos modos de constatação do que foi concluído: outra maneira de tentar fazer a emoção comparecer como elemento essencial para quem assiste o filme está situada ma utilização de depoimentos de pessoas que participaram de alguma forma na construção do trabalho homenageado. Tudo com jeito de que poderia render algo inquestionável (até por conta de uma edição bastante interessante), mas que sofre seu acidente quando se nota que a reverência acaba por insistir demais na paridade de captações e tempos de diluição do assunto (mesmo num filme que busca atalhos que lembram outras atitudes plásticas visuais), acabando por padecer de mais individualidade, de mais identidade própria, o que diminui o ritmo que a retina tem de exercer para manter a atenção desperta e aberta.

Bem longe de ser ruim ou fraco – muito mais próximo de cotações mais para elogiosas -: mas equivocado, quando se o pensa no todo que se aglomera e formata a compreensão e depreensão. Por Cid Nader


The End, de Hélio Ishi. 2011 • cor • digital / 4 min. (FOTO 5)

Muito difícil conseguir o que Hélio Ishi conseguiu em The End. Num curta de apenas 4 minutos e foco basicamente no diálogo entre duas pessoas (um home que narra para uma moça cega o que se passa na tela do cinema, com câmera fixa observando os dois subjetivo olhar da tela – a inversão ao normal do preconizado como o mais comum), evidente que toda a dramaticidade deverá emanar do texto e da qualidade na sua explanação, algo que se constituirá a partir da destreza na atuação de ambos. Tudo se dá da melhor maneira possível nesse curta feito em plano-sequência: ambos os atores dão conta do recado (se fosse necessário destacar mais um do que o outro, diria que Marilene Grama está um tanto acima de Osvaldo Gonçalves), trabalhando em sintonia ideal ao som “que” vem da projeção do filme assistido; e o texto é excelente, direto, variando na modulação as importâncias que impõem ao seguimento da trama. É filme que pareceria simples, mas que requer encaixe ajustado.

Mas apesar de todos os acertos, o que faz o curta ser melhor ainda, mais especial, foi a linha tênue sobre o qual correu em seu último minuto, num fato que ocorre após o término que estava sendo presenciado: ali, o que era drama contido sofre guinada que poderia conduzir o trabalho ao riso (que não seria riso de equívoco, inclusive, já que a situação poderia gerar-se de comedia), que trisca isso mas que, por sutileza do diretor e das atuações, remete o espectador a um grau maior de emoção (emoção que é companheira durante o percorrer do filme), de entrega à situação que poderia ser somente esdrúxula. E aí, nota-se que nesse pequeno espaço de tempo se estabeleceu algo que deveria ser bastante comum às artes de atuação, que tem a ver com a convivência, no mesmo espaço, entre a comédia e a emoção triste (dois pilares do drama), mas que raramente conseguem conviver juntas: por imperícia ou medo de assumir tal risco, do qual não fugiu Ishi. Por Cid Nader


Truque, de Edson Costa. 2012 • cor • digital / 12 min.. (FOTO 4)

Somente como algo feito por fazer parte de programas que discutam e tragam à tona assuntos relativos a preconceitos (da ordem que for, e contra os cerceados de qualquer espécie) é possível compreender a razão de Edson Costa feito esse curta, e as razões que o façam participar de um Festival. Porque, enquanto o entrevistado Marco Stocco relata sua vida desde a infância para contar de homossexualidade e de incompreensão quanto a ela, a sensação é de que regredimos em pauta e em qualidade para momentos que já ocorreram há algumas décadas.

Somente em se tentando imaginar Truque como parte de operação de conscientização é que se faria razoável comprar a ideia de que filmes com a mesma dinâmica (o entrevistado falando de casos absolutamente particulares, com imagens de ambiente – direito a chuva no telhado – alternando com as dele na montagem) ainda ganhem seu lugar em meio à concorrência ferrenha que acontece para a conquista de espaços em eventos de tal porte. Parece um tanto antiquada essa maneira de pensar que se contribui com causas segregadas, já que no estágio atual as observações maiores poderiam enveredar por verdades e buscas em patamares mais complexos.Por Cid Nader


Uma, Duas Semanas, de Fernanda Teixeira. 2012 • cor • 35 mm / 17 min. (FOTO 3)

Cada vez mais raro quem ainda filme em película – mesmo em se sabendo que a luta contra o digital, para além de ser batalha perdida, é coisa até aceita como um dos destinos “trágicos” que faz com que a vida siga sempre e sempre desde o início da condição do bicho homem, após ter descoberto que podia modificar seu destino, e não placidamente ter de aguardar a espera do próximo alimento caçado ou catado. Resultam, ainda e quase sempre, mais lindas as imagens em 35mm, e é justo percebê-las como objeto de obsessão quando se nota que há noção do diretor nas consequências que pretende obter das “imagens imaginadas” passando às que serão vistas: Fernanda Teixeira tem noção de como usufruir e extrair o máximo dessa opção na escolha do material com que trabalhará para fazer seus curtas-metragens. Tem sido assim desde o início, e a recompensa gerada pelo filme bem filmado, sempre, e como acontece novamente aqui em Uma, Duas Semanas, é algo que deveria ser motivação aos realizadores e cobrança aos espectadores.

E o destino trágico do homem – que foi traçado pelas buscas e pelo fazer -, toca a diretora, também, na questão da solidão, que é decorrente do avançar inexorável do tempo, acabando por ingerir de forma dura nas questões biológicas e mentais da espécie. Ela costuma abordar e espiar pessoas mais velhas e solitárias: com suas manias, seus temores, suas manias. O “velhinho” (que nem é tão velhinho assim) da vez mora num daqueles apartamentos desgastados do Rio de Janeiro, e pela preparação ambiental já se nota perfeitamente o que é ele em seu estágio de solidão: que pode ser opção bem-vinda quando já não se quer que tragicidades extras se imponham àquela da inexorabilidade.

Fernanda filma bem – como já intuído pelo início do texto – e observa bem. Se o porvir será abatedor ou simplesmente um passo além na degeneração da qualidade mental, ou se as relações extraordinárias à vida pacata se darão em estágios de variações no impacto causado ao ensimesmamento das pessoas anciãs que lhe provocam concretizar filmes, pouco importa. Importa que arma suas estratégias para fazê-las parte de um projeto de cinema bem realizado, e importa porque entende – evidentemente – que esse destino trágico é assim porque tem de ser, e sempre será (já que nos esforçamos tanto por nossa história para “abastecê-lo”). Por Cid Nader

















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