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23º Festival Internacional de Curtas Metragens de São Paulo


*BRASILEIROS (A a D)


A Arte de Andar Pelas Ruas de Brasília, de Rafaela Camelo. 2011 • cor • digital / 17 min. (FOTO 8)

Tão difícil quanto cumprir a missão de fazer filmes sobre adolescentes e a adolescência é acertar quanto a não impor tintas fortes e caricaturais (algo que fica cantando sedutoramente nos ouvidos, já que a fase é de intempestividade e pouca paciência), quanto a notar que os sentimentos são muito mais frágeis, pois é momento da vida em que já não há (em que se dispensa mesmo) o amparo dos pais ante a possibilidade do tombo ao erro, e quando as buscas são muito mais curiosas e ousadas, já que é a fase que precederá e criará as bases para os momentos em um ser vira único, já, na juventude. Fácil simplificar tal momento quando se nota que se passa a andar em turma e quase sempre com atitudes desafiadoras que parecem simples fruto de idiotice: difícil mesmo é perceber que essa união com os próximos talvez seja a única maneira de se perceber segurança e ajuda diante das novidades que estão surgido e tentando atrair.

Mais difícil ainda trabalhar sobre o momento da constituição dos sentimentos e afetos mais ligados aos desejos hormonais (em fase de total ebulição sobre chama descontrolada), que perturbam e tomam muito do tempo da molecada. E é para cima dessa descoberta ou construção (indecisão, com certeza) que Rafaela Camelo volta de maneira bastante sensível e direta sua câmera. Mais do que falar de duas garotas soltas e tentando “descobrir” tudo pelas ruas de Brasília, seu filme – que é feito no formato de história contada, mas com percepção do tempo necessário a cada setor e sem nenhuma chance de parecer história longa encurtada – observa duas garotas da idade como seria em qualquer outra urbe, nos modelos de estilhaços e barreiras com que se deparam, ou de qualquer outro local mais ermo, no tratamento dos sentimentos que afloram. Resultou bonita e limpa tal tentativa. Bonita porque a diretora com certeza trata de um mundo que foi seu há pouco tempo, e limpa porque caminha por trilhas técnicas seguras, deixando que a essência se encarrega-se da captura das atenções. Por Cid Nader


A Cidade, de Liliana Sulzbach. 2012 • cor / 25 min. (FOTO 4)

Liliana Sulzbach construiu um documentário que de forma rara percorre seu trajeto como se fosse extensão factual – nas velocidade e nas sensações – das pessoas que lhe interessaram e do entorno que as abriga. Fez um trabalho onde não parece haver intromissão modificadora de sua parte, e onde o resultado do respeito demonstrado se insere de modo plácido e natural nas retinas que assistem a tudo. Plácidas também são as pessoas retratadas – todos com bem mais do que 60 anos de idade -, vivendo num mundo que parece deslocado no tempo e no espaço. Teríamos ali o retrato lúdico de um local e suas gentes que são coisar rara diante de um mundo exterior tão mais ruidoso e veloz.

Mas há um truque por trás de toda essa placidez, que se revela quando aparecem as primeiras explicações escritas para tentar situar nossas atenções sobre fatos e dados, quando já estávamos acostumados com o ritmo e crentes de que não seriam necessárias mudanças de ritmo e foco. E tal truque, ao quebrar a cadeia da acomodação – mas sem romper o ritmo tranquilo que se instalara desde o início -, modifica também e radicalmente o que se preconizava como possívis razões do filme. E fica mais lindo saber o que se passa – mais lindo do que acompanhar o ritmo plácido de um local e pessoas lúdicas -, tanto quanto mais cativante, constatado de forma respeitosa no modo pelo qual Liliana optou a inserção das “novidades”, e na dignidade que impõe àqueles seres.

Há invenção no curta, pois se é filmada a atualidade, as imagens de arquivo que passam a existir a partir das primeiras explicações escritas também se encaixam de forma bastante orgânica ao todo (imagens nem OB de qualidade excepcional); há a invenção que é justa quando remete a entender o trabalho por modos simples de aceitação, sem que isso tenha advindo de inocência técnica e estética (muito ao contrário, já que o casamento das partes é fruto de compreensão dos mecanismos); e há a invenção que encerra tudo com alternância de imagens específicas (sobre indivíduos, não o todo), alternância dos tempos espaciais, e muita emoção gerada quando se nota que a vida é tão mais importante para uns do que para outros. Por Cid Nader


A Dama do Estácio, de Eduardo Ades. 2012 • cor • 35 mm / 23 min. (FOTO 19)

Curtas que utilizam um grande ator (grande ator pensando naqueles que, ou estão em pleno gozo da fama máxima – por aqui, geralmente proporciona pela televisão -, ou são veteranos cultuados pelo currículo) costumam causar desconfiança porque, querendo ou não, o universo do formato costuma estar ligado à exiguidade de aporte financeiro, o que, por consequência, faz imaginar grandes estrelas não muito afeitas a topar empreitadas no “setor”: é uma realidade, e quando há uma enorme, da constelação, num trabalho curto, surge instantaneamente algo como que uma pulga atrás da orelha - ou pulga invejosa, ou pulga maldosa.

Três atores, então... Eduardo Ades conta com três grandes no elenco de A Dama do Estácio: Fernanda Montenegro, Joel Barcelos e Nelson Xavier. E enquanto o filme vai rolando na tela, enquanto se nota que a história a gira em torno do manjado tema da “velha prostituta...” – ainda mais utilizando Fernanda para o papel –num subúrbio “idealizado” do Rio de Janeiro, e com câmeras e tomadas feitas a partir de aparatos requintados, a aura do pitoresco rico entorna os atos, enquanto a aceitação vai adernando a cada segundo para a avaliação negativa. Penso que o público que não é tão dos curtas, a “esta altura da projeção” estará encantado com a presença daqueles bambas na telona.

Não dá para negar em nenhum instante que é bem filmado e editado de forma muito competente. E não dá para negar, também, que os tais bambas estão nele sem fazer corpo mole e interpretando como se fosse para algum evento propício a maior reconhecimento do público. Mesmo assim, o pitoresco e as desconfianças anteriores persistem, até que... Nos últimos instantes, quando cessa a trama e inicia-se um passeio motorizado pelas ruas do Estácio, a opção de Eduardo na música e no modelo louvador-suave a um Rio mais de verdade – quando se nota que o grande personagem do filme é mesmo a aura do local – acabam por apagar as negatividades das marcas anteriores na retina. E. numa grande sacada cinematográfica - que é a da aposta máxima num grande desfecho -, com a ajuda da bela música que encerra junto com o passeio, consegue-se o “milagre” de desarmar corações e mentes rancorosos.Por Cid Nader


A Mão que Afaga, de Gabriela Amaral Almeida. 2011 • cor • digital / 19 min. (FOTO 16)

Gabriela Amaral Almeida faz filmes paulistanos: isso é muito óbvio pela sua origem. Mas há mais indícios para “segregá-la” a essa constatação: filma dramas em que as pessoas sofrem evidente peso das cargas que a cidade imprime aos seus – já havia sido assim em Uma Primavera, que se passa ainda por cima no parque do Ibirapuera, e é nítido novamente aqui em A Mão que Afaga, quando retrata uma mãe que trabalha como atendente de telemarketing sofrendo por ter de “cruzar” nos telefonemas que dá com pessoas repletas de signos dos stress daqui.

Até onde é bom ou ruim carregar a marca de alguém que filma muito seu nicho? Se for o caso de fazer dessas proximidades com as pessoas, e com seus comportamentos estranhos, algo como trechos de dramas que ajuntados se imiscuirão placidamente à narrativa, tal conhecimento tende a imprimir potência e credibilidade ao filme. Se for para isolar características de forma a refratá-las pensando no impacto do estranhamento como o que sustentará o trabalho por conta de atração exercida pelos exageros (isso pode ser designado como “utilização de clichês”), aí a coisa pode ficar feia.

No caso do anterior, o aproveitamento dos medos de mudanças se deu de forma a não conflitar com o ritmo que a história impunha, e Gabriela acertou um curta que passou credibilidade para além da belíssima fotografia obtida. Nesse daqui, as figuras imaginadas parecem ter surgido para cada uma criar seu próprio universo de estranhamento, o filme passou a parecer modelo (clichê) de outros que costumam viajar o mundo para revelar países ricos (especialmente os nórdicos europeus) soterrados em dramas impensáveis, e a sensação de coisa forçada imperou por mais tempo do que seria o aceitável. E isso é chato, principalmente porque tecnicamente o trabalho executado completou algo de muito valor estético: o ambiente do apartamento e sua iluminação determinam desde sua constituição física (são obtidos recantos que parecem universos distintos a cada tomada) até o movimentar das peças humanas dentro dele para servirem de preenchimento raro ao visual e repletos de sombras interessantes.

Acontece que esse modelo tem potencial e deve agradar muito mais do que desagradar... Mas o certo mesmo seria torcer para que na próxima todas as qualidades dela como diretora prevaleçam às facilitações encantadoras. Por Cid Nader


A Mulher no Alto do Morro, de Cássio Pereira dos Santos. 2012 • cor • digital / 10 min. (FOTO 12)

A câmera de Cássio Pereira dos Santos, como se fosse um espírito curioso e lúdico, cumpre duas funções específicas nesse documentário em que se fala de cobras, lanternas de papel, floresta, avó ou demônio, com a mesma naturalidade que usamos para discutir futebol ou outras coisas mais bobamente mundanas-comuns-atuais. O diretor dá a largada nesse papel curioso desde quando um bando de moleques e molecas se preparara para atravessar os “perigos” oferecidos por uma floresta, acompanhando-os com a lente sempre bastante grudada neles (o que provoca imagens bonitas pelo foco e desfoque alternando ante a proximidade de obstáculos e vazios súbitos – crianças se movimentam mais aos supetões), enquanto caminham para a visita a uma “avó” que mora lá no frio alto do morro.

Nesse instante inicial da jornada, imagens bonitas da natureza e a mais bela ainda provocada pela procissão deles com lanternas de papel coloridas acesas, fazem compreender que é de um outro mundo que se trata o que nos é mostrado. A partir do momento em que chegam à casa da senhorinha, o “outro mudo” persiste, mas pelo viés mais distante ainda ditado pela narrativa das histórias de demônios e assombrações contadas por ela de forma hipernatural, para as crianças que realmente não se assustam com os relatos: na realidade percebe-se que foram até lá também para ouvi-las.

Quando no dia seguinte há o regresso e a despedida, a opção pelo diretor em permanecer e não regressar acaba criando essa ilusão da curiosidade (o espírito curioso) que busca as “estranhezas” de ambos os lados, e que não há eleição ou preferência pelo carinho ou pelo susto: há sim a opção certa para um fechamento correto de algo que, afinal de contas, iniciou lá em baixo, ontem. Boas soluções e boas escolhas. Por Cid Nader


A Triste História de Kid-Punhetinha, de Dida Andrade, Andradina Azevedo. 2012 • cor/pb • 35 mm / 15 min. (FOTO 11)

Típico filme de escola, A Triste História de Kid-Punhetinha sofre e se beneficia de alguns atos que o fazem trabalho ainda distante do mundo comum. Entre os prejuízos, o mote maior da história conduzindo a relação fugas de dois adolescentes ao momento extremo-atemorizante de pais, o que cria marca forte extremo-atemorizante também na molecada. A partir de pensar na situação como o mote essencial principal, boa parte – as principais – das situações e confecções acabam reféns disso, complicando o afastamento necessário entre a intenção de confecção e a “moral” a ser contada: isso faz notar que Dida Andrade, Andradina Azevedo ainda carregam no âmago algo da adolescência, para ser finalmente revelado, só que agora com a bagagem aprendida na universidade. Talvez questão de dar tempo ao tempo.
Por outra, algumas situações positivas conseguem sobreviver ao medo trazido de casa. As interpretações dos moleques é boa e se faz óbvio que houve bom aproveitamento das características dos atores jovens, o que permite facilidade de aceitação. Por conta dessas boas atuações, dois momentos preservados e inseridos no filme são especiais: a cena da bicicleta, quando o moleque desabafa aos ventos; e principalmente a “gravada” em vídeo, quando aquele típico momento de meias-maldades entre garotos flui de forma rara de tanta naturalidade obtida.

Da escola, ainda, veio o truque já um tanto antiguinho que contrapõe momentos específicos em PB (no caso desse curta representando o momento presente) aos de cor. Não serve muito como exercício estético, e não é de auxílio ao andamento.Por Cid Nader


A Vida Plural de Layka, de Neco Tabosa. 2012 • cor • 35 mm / 15 min. (FOTO 22)

Antes de mais nada, além de normalmente ser muito prazeroso ver curtas ou longas vindo de Pernambuco (valendo lembrar sempre que aquela Recife efervescente culturalmente já há uns bons muitos anos parece – ao menos no cinema – não querer abandonar o posto da que mais produz sem deixar a peteca cair), é preciso notar o quanto eles transitam, como tratam, trabalham, bem com um bem-vindo despudoramento, fazendo dessas “normalidades” humanas, quase sempre execradas pela maioria, material farto para muitas de suas artes: ao menos o pessoal do cinema é assim. E Neco Taborda não deixou de modo algum escapar a oportunidade – plantada por ele mesmo – de trazer, novamente com um curta bem realizado de lá, essa questão da sexualidade jogada na cara sem disfarces (sem disfarces hipócritas de comportamento, mas com os disfarces comuns e naturais à técnica do fazer cinema), como fator a ser trazido à tona sempre: já que é da condição dos bichos, e funciona bem demais quando tratado com esperteza.

Esse A Vida Plural de Layka, para além de ser plural nas demonstrações de afetos e desejos (dos mais variados quilates), para além de ser plural nos modos de discursos oralizados (que percorrem todos os trechos do filme como a banda sonora explicadora e indispensável aos relatado pelas imagens), é também pluralíssimo nas maneiras de confecção pensadas. Curta-metragem que se nutre de variadas formas de animação (desde o “singelo” 2D do desenho, passando pelo 3D do stop-motion, e ainda com intervenções texturais aplicadas por digitalização – como a que é inserida sobre a pele de um homem, por exemplo), caminha por alternâncias estéticas que propõem a concretização do andamento variando na forma como as essências narradas (e mostradas) variam incessantemente.

E tome discurso marginal (há inclusive um grito citando a vocação natural de nosso cinema contra o bom comportamento institucional), e tome corpos nus e insinuações de bom calibre representando sensações de prazer, e tome confissões “anormais”. O diretor soube de forma competente manter o ritmo pelo alinhavamento grosso entre os saltos de cenários e fatos, com o discurso sujo e... jocoso (?), deixando não um tecido liso e bem passado, mas costuras que ostentaram nódulos: ritmo que se mostrou persistente e contínuo, mas que causou solavancos, justamente para se perceber de forma bastante clara que não se tratava de roupa de festa a confeccionada ali. Por Cid Nader


A Vida Noturna das Igrejas de Olinda, de Mariana Lacerda. 2012 • cor • digital / 19 min. (FOTO 17)

Não costumo usar as referências percebidas em filmes como algo a destacar-se a mais do que a obra feita por um ser, e não por um “copiador”. Acho que textos que sempre se amparam na “elucidação” e descoberta de origens para o diretor/filme analisado, quase sempre estão se amparando em muletas, que dispensam mais mergulho na obra analisada e mais “torração da mufa”: pra não dizer que normalmente quem executa tal prática com assiduidade normalmente arrota “sabedoria e erudição”, mesmo quando joga um carteado numa mesa de boteco.

Desancados os que agem assim e deixando bem claro que não costumo fazer isso, jogo tudo ao chão e inicio o que tenho a dizer de A Vida Noturna das Igrejas de Olinda. É muito fácil intuir que Terrence Mallick e Jia Zhang-Ke serviram de espelho para todos os procedimentos tomados na construção por Mariana Lacerda. A maneira como a câmera flana lentamente nos interiores sacros utilizados, indo por vezes aos tetos, por vezes às imagens sacras e mais outras em direção à luz do exterior; o modo como diversos textos de várias épocas são inseridos na banda sonora (o que quase sempre dificulta demais quando queremos terminar de ouvir algum relato que pareceu muito bacana), causando a sensação de que o cérebro também flana por variados locais e tempos diferentes de ação entre a audição e a visão; é muito Mallick.

O jeito encontrado pela diretora para contar do estranhamento, da não mais aceitação de organismos novos ao que é antigo (e aí nota-se novamente pernambucanos citando a urbanização tresloucada de seus lugares), retirando o que é rejeitado de maneira surreal do plano comum, é muito Jia Zhang-Khe.

Mas vale ressaltar que as referências (das que merecem ser imitadas, diga-se) não fizeram do curta arte de setores estanques, imiscíveis. Vale ressaltar que o resultado é de um filme, único e fluido, com narrativa que soube amarrar as partes para mantê-lo único e um só abrigador das ideias. É bonito como o é Olinda e suas histórias.Por Cid Nader


Adorável Criatura, de Dellani Lima. 2012 • cor • digital / 9 min. (FOTO 10)

E Dellani Lima sempre sem medos de ir aos cinemas que possam causar espanto, ou possam ser de feitura doméstica, ou que falem somente consigo mesmo, ou ainda que provoquem náusea: desde que tenha ficado a seu contento, os fatores “compreensão” ou “aceitação” se darão sempre bem distante da obra que já chegará mastigada, ou mesmo se não for a intenção mesmo que seja compreendida e decodificada na íntegra levando junto a certeza de que o que se fez foi dentro dos parâmetros de justa manipulação das ferramentas.

Saltemos diretamente para dentro desse Adorável Criatura: mesmo sendo obra que traga implícita a noção de que se está falando da morte nela e de que diversos signos ostentados são de ligação inconsciente a ela, mesmo em se notando que dá para se compreender que mesmo não vomitadas em jorro as informações estão lá e dá para percebê-las e cheirá-las, o que conta mais e vale muito é sua feitura. Que se dá novamente com pouco manusear das lentes e câmera, que ganha seus aspectos mais hipnóticos pictoricamente quando de imagens obtidas da filmagem feita no próprio bojo (e é literal isso, num instante), que retraz o assunto de destreza na arte ser de origem de conhecimento dela, e não de excesso de grana.

É um modelo de cinema que tem muito a nossa cara – pelo pregresso de cinematografias marginais do país -, pois se sustenta principalmente na concepção de que “há de se fazer, e muito com as ideias”. Dellani avança nitidamente nessa caminhada: no início já tinha bem-vindas e desejáveis intenções tortas, mas deu cabeçadas. A cada novo trabalho nota-se que há mais “diálogo” entre o que intenciona e o que obtém – talvez até seja o caso de voltar a ver alguns de seus filmes do início para perceber se é isso mesmo ou se acostumamos com o sabor estranho. Mas é evidente que o clima e as matizes desse curta daqui resultaram em situações que remetem a pensar nas belas possibilidades que o formato curta-metragem oferece para quem quiser arriscar. Filme de imagens (muitas autofeitas), de entranhas e de música bem casada com o todo. Por Cid Nader


Aluga-se, de Cris Azzi. 2012 • cor • 35 mm / 15 min. (FOTO 9)

Cris Azzi já havia rodado há muito tempo – creio que em 2006 ou 2007 – um documentário, Sumidouro, onde tratava da desapropriação de uma região que viria ser inundada por desvios forçados pelo homem: construção de uma represa ou hidrelétrica. Tratava ali de vidas que iriam ser modificadas na marra.

Aqui, muitos anos após, realiza um singelo curta de ficção, em que dois personagens (uma garota que tenta aprender, solitária em seu apartamento, a tocar música, e um vizinho novo que também, se descobre, representa uma outra figura solitária, e também apreciadora de música) tendem a se encontrar, cada um com particularidades estranhas para o mundo, mas justas para fazerem atração entre ambos. Cris criou uma espécie de fábula, onde a solidão (urbana, dos tipos que carregam consigo situações muito próprias, ou causada pela não adequação ao que se preconiza o comum ideal) serve de linha condutora, e que deverá ser cutucada para se saber até onde deve ser semore a imperante.

Parece lhe importar essa observação do ser humano que está prestes (mesmo que acomodado numa pequena região do país, ou conformado com seus problemas de rara modificação e que excluem) a ser “invadido” pela novidade. E parece ser do tipo de pessoa que prefere crer na “beleza” e nas novas chances que invariavelmente surgirão em algum momento. Por Cid Nader


Amores Passageiros, de Augusto Canani. 2012 • cor • 35 mm / 23 min. (FOTO 23)

Tão rico no acabamento fez seu curta, o diretor Augusto Canani. Tão bem se preveniu com dois grandes atores como Osmar Pardo e Sirmar Antunes. Tão original a ideia principal para tocar o trabalho. Mas, na hora do vamos ver... Tão desnecessários aqueles excessos (e bote excessos nisso) de câmeras lentas: até porque os cenários imaginados e o andamento estranho que o mote exigia já seriam tão suficientes para preencher a tela de imagens, no mínimo, justas. Tão artificial o resultado da soma das sequências: que no início dispensam alguns cortes que fariam bem, e no final atropelam um tantinho a mais do que se faria justo (já que houve uma certa busca da realidade com a intromissão da polícia na história) – sem que a intenção de Augusto Canini fosse a de empregar artificialidade. Tão distante de qualquer aproveitamento das vias por caminhos tortos que o formato oferece como um brinde a ser testado: já que a opção foi pela – apesar, volto a dizer, do mote interessante pela estranheza – correção bem comportada ao máximo.

Obviamente que encontrará o seu caminho e muitos defensores/apreciadores, mas casaria tão melhor com uma realização mais, digamos, “suja”. Por Cid Nader


Animador, de Cainan Baladez, Fernanda Chicolet. 2012 • cor • 35 mm / 20 min. (FOTO 24)

Muitos filmes sofrem transformações durante o transcorrer da história que os conduz – aliás, é meio óbvia essa constatação. Nem tanto: principalmente com alguns diretores que adoram quebrar as regras e se negam em agir como os ditames das cartilhas para o sucesso recomendam, e mais principalmente ainda aqui, nesse mundinho dos curtas-metragens. E virar o jogo durante o transcorrer de tempo tão enxíguo exige bom traquejo e consciência do “valor” de cada segundo. Cainan Baladez e Fernanda Chicolet, por mais incrível que pareça, pareceram entrar num ritmo mais lento prum trabalho que guina sua trajetória de modo impensável a partir de um dado momento: não uma guinada que levada por tramas mirabolantes ou quebras duras na dramaticidade, mas algo que vai ganhando corpo sutilmente, como é o desenrolar mental quando levemente incomodado.

O filme é feito com bastante cuidado, tem interpretações surpreendentemente boas da dupla principal feminina (sendo que quem usa a fantasia de coelho é a diretora Fernanda) – o que segura demais a atenção -, e mostra um cotidiano anormal, que é o dos animadores (com direito a anão) de um parque de diversões, no início deixando que as implicações comuns de alguém que não deve ganhar tanto e tem de enfrentar jornadas desgastantes sejam as leves preocupações, para, com o tempo (bem utilizado) permitir que medos de variadas camadas e origem tomem seu espaço. Nada de muito drástico e nem cheio de truques: mas tudo com muita competência. Por Cid Nader


Arrotos e Soluços, de Renato Cabral. 2011 • cor • digital / 11 min. (FOTO 25)

Renato Cabral foi ao máximo das tentativas de choque em Arrotos e Soluços. Como se fosse um admirador incondicional de Feios, Sujos e Malvados, ou de Pasolini, criou uma família disfuncional (modinha da vez no cinema mundial), contrapôs cenas de teor sexual ou de descuidos corporais ao destrinchamento de uma galinha, enfeou o ambiente e as figuras que representaram nele (com exceção da garota grávida e sexualmente sedenta), expôs suores, filmou bocas comendo de forma pouco gentil, digamos, camisolas e shorts, coçares de partes íntimas, panelas de pressão soprando forte... Num crescer alternado e cada vez mais veloz de imagens, ações, ruídos incidentais e música orquestral de pegada experimental, tentou criar uma espécie de sinfonia da podreira, que elevou andamento e tom até o ponto de cessação comum em sinfonias que abordam qualquer tipo de caos.

Só que tudo pareceu artificial a mais do que as intenções em buscar artificialidade: mais fruto de algum desleixo nas opções de ângulos e iluminação. E tudo pareceu artificial debilitado, nas intenções de fazer do choque ao senso do espectador o que outros diretores e filmes obtiveram com menos espalhafato. Há que se seguir algum padrão mínimo de coerência técnica quando se faz cinema: mesmo em filmes que buscam o choque e evidenciam desregulamento social como sua maior razão de ser. Choca mais notar falta de boas soluções do que os atos imaginados para tal. Talvez, talvez, alguma sensação particular de Renato de que filmes sujos não seriam tão sujos se cuidados nas estruturas...Por Cid Nader


Até a Vista, de Jorge Furtado. 2011 • cor • digital / 18 min. (FOTO 15)

Jorge Furtado parece ter pensando nessa sua volta aos curtas-metragens como se estivesse cumprindo um rito brincalhão. Até a Vista, pra valer, parece mais uma historinha contada por algum contador de casos que se diverte por vezes mais do que os que o ouvem. Não que seja ruim essa historinha, mas é que como filme, como trabalho de alguém que transitou pela arte antes de ir para a TV e outras paragens – inclusive com curtas bastante marcantes e importantes nos seus tempo, Barbosa e Ilha das Flores, e alguns longas que ao menos mostravam um diretor que trabalhava o cinema como cinema (mesmo com mais equívocos do que acertos nessa fase de filmes “mais esticados”) -, a aparência do mostrado pareceu mais pro desleixo do que para o acerto minimamente comum.

O que se passa na tela, de essência suave e fluida se pensada como um conto, tem problemas de ligação que atrapalham a apreciação mais mergulhada: as mudanças de ambientes e tempos são feitas por emendas mal costuradas, que ainda pra piorar recebem trechos musicais de qualidade estranha que iniciam e cessam como se tivessem sido colocados de improviso. Não marcará como um retorno... Por Cid Nader


Através, de Amina Jorge. 2012 • cor • digital / 9 min. (FOTO 26)

Primeiro olhar: quando uma das namoradas, que varria o chão, pergunta para a outra, meio indignada, “que música é essa?”, para logo após ela mesma também passar a cantarolar junto a tal música, sendo focada de frente pela câmera com a vassoura na mão e dançando levemente como se nada tivesse acontecido; quando se intui, com calma, que o olhar de Amina Jorge sobre toda a pobreza que, arrumada cenicamente, parece o olhar do burguês (ou do estudante de faculdade rica) que parece tentar criar estética da pobreza, e também paternalizar esse observar; ou quando se as percebe comendo em marmitex sobre a cama onde fazem amor, pintam as unhas, se tatuam e tudo mais, como se fosse impossível ser pobre sem conviver com o desleixo... toda a desconfiança do mundo craveja de rejeição a ideia do curta.

Segundo olhar: há finais de filmes (por isso, no mínimo, se faz justíssimo assistir a qualquer deles que seja até o último momento, e muito mais justíssimo ainda rejeitar análises partidas de quem não cumpriu essa mínima obrigação para arvorar pitacos), e alguns diretores preparam toda sua estratégia apostando no último instante, o que definirá e imporá razões reais para tudo que foi tentado e executado no decorrer (os iranianos adoram isso e salvam muitos filmes no último take da montagem); e quando a lente aplica um curto e suave zoom reverso, bem próximo do fim, Através pula sem escalas do inferno da desconfiança ao paraíso das grandes soluções. E nota-se que Amina teve total consciência dos momentos do curta.

E aí, livre do preconceito assoma à memória a cuidadosa elaboração das imagens, normalmente captadas por câmera precisa e tranquila na busca de seus alvos; e aí, relembra-se que a imagem mostrada só se revela verdadeira quando se lhe é imposta razão - e relembro ter visto trechos "físicos" no escuro, enquanto transavam, que no momento se marcou como trecho de uma cabeceira ou coisa que o valha. No fim, contadas as favas, resta um trabalho que vale muito. Por Cid Nader


Babás, de Consuelo Lins. 2010 • cor/pb • 35 mm / 20 min. (FOTO 2)

Esse curta de Consuelo Lins tem feito sucesso considerável pelos festivais e mostras onde vem sendo apresentado. Na realidade, a discussão dela que remete à comparação temporal sobre uma atividade, levando o filme a crônicas (chamadas de jornal) que desfilam tempos seculares da escravatura estabelecida como norma comum, não consegue se sustentar como peça forte conclamadora à observação do que se fez com os negros ou pessoas que continuaram “escravas” com o passar dos tempos – parece artificial demais, principalmente quando pensada juntamente com a narração de própria voz. Nesse trecho de observação, o filme tem sua importância principalmente nas fotos obtidas e numa fala que tenta intuir a verdadeira razão de por que as babás escravas aparecem vestidas com roupas boas nas fotos com as crianças.

Para mim, o que mais o enfraquece (e isso pode ser impressão...) é o fato de notá-lo como algo de rememoração saudosa, coisa que se identifica mais firmemente nele quando a diretora parte em busca (e encontra) de sua babá na infância. O que me atrapalhou bastante na compreensão de Babás é ter depreendido que há uma “camada preocupada” tentando se impor aos olhos do espectador, para camuflar a camada de busca de um passado bem mais próximo e pessoal – o que poderia render bem, se fosse feito sem firulas. Por Cid Nader


Boa Noite (Oyasuminasai), de Leandro Tadashi. 2011 • pb • digital / 6 min. (FOTO 27)

Há cada vez mais curtas que usam diretamente a família como o mote escolhido para se contarem. Muitos são de primariedade acachapante, deixando no ar a vontade de falarmos gentilmente para seus realizadores que o lugar do filminho é uma festa familiar, e também a vontade de questionarmos curadores sobre se sabiam o que estavam fazendo quando os escolheram para seus festivais. Leandro Tadashi inverte de forma tremendamente bem-vinda essa corrente do mal estar, ao entregar de brinde ao espectador um filmete que é preciso por variados aspectos.

Filmado com capricho de quem entende demais do riscado (ângulos, iluminação, definição de PB com contraste preciso e riquíssimo), e montado com certezas e sem firulas: o que permite à história seguir ritmo quase fabular. Especial por em nenhum momento definir sobre se tudo que se passa na tela é retrato real, ficção, mistura de ambos (na realidade é mais por aí), e por construir rapidamente todos os segmentos de trabalho da personagem que desembocarão em resultado tão inesperado quanto singelo. Atento a detalhes físicos e cenográficos, consegue nas alternâncias de ambos criar empatia imediata com o espectador. Esperto, por conseguir inclusive criar pequeno suspense com “questionamento” sobre “o que será mesmo que ela está costurando lá?”....

Ao final, no último instante, percebe-se definitivamente que o curta é mais um sobre a família. E percebe-se, também, ainda bem, que dá para usá-la como mote, só faltando mesmo é saber trabalhar cinema (como ele soube) para quase todos que têm feito disso praxe.Por Cid Nader


Capela, de Gustavo Rosa de Moura. 2011 • cor • digital / 12 min. (FOTO 14)

Mostra festas típicas de alguma região quase sempre pretende soar atípica para todas as outras que a veem pela primeira vez. E é por esse viés de estrangeiro total que Gustavo Rosa de Moura segue com suas lentes, para mostrar uma festa do Sergipe, que existe desde 1939, onde a mistura de pessoas enlameadas, religiosidade e floresta contrastam quase diametralmente ao que ocorre na noite da cidade, quando os mosquetões de pólvora, rojões e outros aparatos barulhentos substituem as louvações. O olhar de Gustavo é do estrangeiro, mas nem sempre isso redunda em não compreensão: ou compreensão que virá com “moral da história” subscrita. Por vezes esse olhar estrangeiro enriquece a obra, principalmente quando não há a intenção de fazer dos momentos filmados peças de imagens plásticas que serão aglutinadas e interferidas.

A sensação – pela insistente câmera lenta utilizada no intuito de potencializar ao olhar o que já seria suficiente se observado com carinho por lentes bem posicionadas, e pela moral da história citada anteriormente (que surge literalmente escrita na tela) – é de que poderia render sim algo que, mesmo abdicando da informação, causasse sincero interesse, mas por atração de outros aspectos: não como se fossem as situações impostas na base do fogo e da queimadura. Por Cid Nader


Cine Camelô, de Clarissa Knoll. 2011 • cor • 35 mm / 15 min. (FOTO 30)

Por vezes ficamos sobressaltados quando ouvimos sobre mais um filme utilizando metalinguagem sendo o que veremos em seguida. Em outras, quando alerta para um curta que foi feito nas ruas de muito movimento, com pessoas comuns que escolhidas de supetão, sobressalto parece a menor das sensações que tomarão a dianteira. Prevenção é algo que pode salvar a pele, mas é ato covarde quando se comenta cinema. Enfrentar, além de garantir melhorias para a imagem do crítico, pode ocasionar surpresas, e mais, surpresas muito agradáveis.

O que Clarissa Knoll conseguiu em Cine Camelô senão alcançar a essência inicial do cinema, relativizando as ordens de preparação e concretização, trazendo as pessoas que admiram (como era no início com os que olhavam para aquele instrumento monstrengo e não resistiam a serem capturados pelas lentes, fazendo poses ou sorrindo; ou como agiram os índios quando se viram transformados em seus reflexos, que passaram a gostar tanto que entenderam atuar para as lentes) a magia que é ver uma equipe na rua como colaboradoras que resistem pouquíssimo à sedução de se verem astros e estrelas?

Sem muitas firulas preparatórias emendou um Cine Camelô em plena Rua 25 de Março (por onde passam diversos Brasis por dia), atraiu habitantes desses Brasis ficcionalizando o que se entregava como verdade, fez das verdades (essas pessoas) ficções, que ainda por cima circularam por seus campos de predileção, criou diversos esquetes que tinham um centro nervoso para impedi-los dispersos e fugidios, e não dourou pílulas para camuflar imperfeições e verdades que são as mesmas que abasteceram essa arte lá no seu início, quando tateava em busca dos caminhos a seguir. O que se encontra nesse curta (de forma mais complexa – pela infraestrutura -, mas similar na reverência), se percebe também como um dos motes, uma via mais incrustada, no longa Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo: que variando das imagens iniciais, para o teor documental, chegando enfim – com a cooptação das pessoas comuns, as de verdade – ao esboço de atuações que caracterizam a ficção, e o cinema, afinal de contas. Por Cid Nader


Corpo Cidade, de Gabriela Greeb. 2012 • cor • digital / 6 min. (FOTO 29)

A cena da bailarina que caminha por uma muralha de concreto – um das cercavas a antiga casa de detenção de São Paulo, no Carandiru – resulta mais densa e bela, pelo preenchimento que impõe a quase todo o quadro: deixando que as bordas fossem completadas por copas de árvores ou o concreto armado da estrutura. Inversamente, as tomadas das bailarinas penduradas em enormes e coloridos balões, executando movimentos bastante complexos (pela situação física a elas impostas), acabam não conseguindo (imageticamente) a mesma gama de beleza plástica: por vezes muito isoladas no meio do quase nada, ou ladeadas por estruturas arquitetônicas que remetem a entender o quão feia pode ser a cidade em alguns de seus trechos (os balões sobrevoaram uma região que, além de deteriorada, estava em demolição – antiga rodoviária, onde será erguido um complexo destinado às danças).

Obviamente que há de se atentar à ideia da Gabriela Greeb, que era justamente a de contrapor o visual leve e colorido de bailarinas e balões a essa arquitetura desgastada, cinza e suja, e entender o resultado como o desejado, realmente – no contraste arte/dureza – tenha sido o que foi tentado. Mas, se ideias e idealizações não podem ser questionadas, resta palpitar sobre seus resultados: e poder-se-ia termos ao visual algo que conseguisse se contar, aceitando os contrastes buscados, com um pouco mais de potência, como o obtido nas cenas da muralha.Por Cid Nader


Cowboy, de Tarcisio Lara Puiati. 2011 • cor • digital / 10 min. (FOTO 18)

Duas coisas principais a serem destacadas para apreciação de Cowboy: filmar em plano-sequência normalmente resulta filmes muito bons de serem vistos (mesmo em se sabendo que cinema é muito edição, não há como deixar de lembrar que nela se acertam todas as essências de filmagens captadas numa tacada só, se acerta a cor, se insere o som – que especificamente aqui é todo gravado em estúdio...), e as imagens de um fim de tarde próximo do norte do Brasil (na região amazônica) empresta cores e sombras muito bonitas e inéditas pra os cá de baixo; e criar ficção que se faz de documentário jamais se rendendo à “necessidade” de contar verdades (que, afinal, documentários devem prezar para que se mantenha fé neles e razão para existirem) é sacada das mais bacanas, por retirar da mesmice a atenção a obras que são feitas com muita vontade de serem vistas como “perfeitas”, mas por outros motivos e ilibações que não somente os de feitura de filmes lá nas suas entranhas técnicas.

Tarcísio Lara Puiati filmou uma figura que é denominada como “cowboy”, andando de bicicleta atrás do veículo que carrega a equipe, o que faz das molduras algo variante em seres que passam pelo quadro, e muito mais variante nas configurações estéticas obtidas pela observação do céu acima de tudo. Filmou o tal cowboy contando uma história até um certo trecho do curta, que muda de verdades num outro, e vai iludindo o ansioso espectador até o final: quando não o diretor não se sente na “obrigação” de explicar mais nada. E aí reside a força que fecha bem demais algo que caminhara bem durante todo o tempo, já que é de ilusão que se nutre a boa arte. Por Cid Nader


Destimação, de Ricardo de Podestá. 2012 • cor • digital / 13 min. (FOTO 21)

Feita no 2D mais básico – o do traço (pode ser ponta de pena, lápis, caneta, pincel...) sobre papel -, com variações de PB e cores pastel propositalmente desbotadas, Ricardo de Podestá fez sua animação dentro de parâmetros interessantes para o modelo. Um tanto (só um tantinho, na realidade) ao contrário do que se faz nas animações norte-americanas (e destaque-se que muitas delas muito boas de ideia além da evidente e qualidade técnica), a personagem fêmea (ou outra ave qualquer de traço indefinido que grite tal qual) resolve que tem de mandar o papagainho da gaiola para a vida: e intua-se aí que, ou faz isso porque aquele atrapalha a pasmaceira dela e do marido hipnotizados pela televisão, ou como a metáfora da genitora que tem de ver seu filho ganhando a vida fora do lar natal – e tome situações inusitadas para cumprir essa missão. Um tanto ao contrário... os desenhos são mais sujos e de menos valor atrativo para quem se interessa por personagens fru-fru. E m tanto mais ao contrário, nota-se nos créditos finais que tem muito da mão dele (o diretor) em quase todos os setores creditáveis do curta.

Que roda bem, atrai pela dinâmica quase histérica (apesar de mostra ao final uma espécie de redenção em busca da paz e do carinho), tem muito valor nas opções de movimento que imitam tomadas com câmera que estaria fazendo movimentos fora do padrão, com focos e desfoques como se fossem equívocos de quem filma, e com desvendamento dos ambientes (tanto internos quanto externos) como se a observação tivesse de ser detalhada para revelar ao espectador a riqueza nos detalhes e recantos, para além da suposta poluição que se nota pelo olhar mais superficial. E é sempre muito bacana constatar como se fazem animações boas por aqui: e com evidentes poucos recursos para tal. Por Cid Nader


Desacerto, de Rodrigo T. Marques, Eduardo Consonni. 2011 • cor • 35 mm / 17 min. (FOTO 28)

Não que não tenha importância voltar a filmar essas pobrezas impensáveis que habitam as ruas de nossas cidades grandes (sob seus viadutos – como ocorre aqui - ou marquises, que são mobiliados por carroças, caixas de papelão, plásticos, vez por outra um fogãozinho, e sempre com gente que vive à margem mais inacreditável de se pensar estar tão isolada do todo da sociedade). Cada vez que se transforma em imagens que viajarão esses seres isolados em condições por vezes inumanas, uma parte do papel possível do cinema está sendo cumprida: documentários ou peças ficcionais têm função importante, e quando se fazem pela via do cinema, obviamente, alcançam públicos numerosos em quantidade quanto em locais onde podem ser alcançados.

Mas é que conforme o curta de Rodrigo T. Marques, Eduardo Consonni avança, se nota que o modelo utilizado parece estar ficando desgastado, sem chegar a poder ser considerado estetização da miséria (pois são filmes feitos com rigor, mas sem intervenções que não as angulações das câmeras e o aproveitamento de iluminação ambiental natural), mas correndo o risco que correm outros quando repetem e repetem a ponto de espanar e não ter mais a dizer. Só que há o avançar que vais mais à frente e, num dado momento, pretensas conversas entre o casal de carroceiros passam dividir a banda sonora com os ruídos do trânsito que eram a “música” até então. Nota-se que os diretores queriam dizer mais ainda do que parecia ser a repetição, e vê-se que Desacerto “fala” também – e principalmente – do silêncio que passa a ser entrave entre pessoas de todas as espécies e camadas sociais. Nota-se que há muitas tristezas a serem observadas, e que tanto lá como cá a possibilidade da solidão pode significar terror maior do que a pobreza material. Boa guinada. Bela observação. Por Cid Nader


Deus, de André Miranda. 2011 • cor • 35 mm / 12 min. (FOTO 20)

Por vezes me vejo caminhando e questionando a esmo: e se Deus for um frango? Normalmente faço isso quando vejo uma fileira de frangos abertos, limpos e espalmados, assando numa grelha enorme aqui perto de casa. Delírios particulares à parte, aparentemente muita gente pensa coisas similares, ou no destino de frangos ante o insondável e imponderável... André Miranda foi atrás de sua – ou das dos que criaram o texto – história insana, botando a mão na massa e fazendo-a virar filme, para fazer crer ao mundo de insanidades particulares. E fez-se Deus.

Típico curta-metragem que no início dispara o sinal de alerta pelo amontoado de situações apresentadoras desfiadas velozmente em narração off (a assustadora narração off), e com teor que lembra modelo que perpetuou, com sutis variações, após o fenômeno Ilha das Flores, já há mais de duas décadas. Mas André estourou logo seu rojão com efeitos especiais, colocou prumo no andamento das coisas, inseriu um monte de naturalidades bem engendradas em texto engraçado e de boas sacadas, foi ao exagero mais largado no visual (sem ser relapso na montagem das imagens captadas), contou com a naturalidade de seus atores, aproveitou aquele visual que normalmente não cai muito às lentes de luz chapada do Planalto Central, e teve noção do tempo suficiente para sustentar seu curta num patamar que impedisse o cansaço.

Sim, tal modelo de trabalho – bastante amparado no texto veloz e de piadas sutis – corre sempre o perigo de cansar por falta de fôlego, levando consigo o fôlego do espectador. E há em se sabendo onde frear, ganha muito, pois marca os que viram que sairão com sorriso no rosto e vontade de ver novamente. Aqui, as coisas estiveram bem adequadas e no tamanho ideal.Por Cid Nader


Dia Estrelado, de Nara Normande. 2011 • cor • 35 mm / 17 min. (FOTO 13)

Sempre relembrando que apesar de animações serem campo propício para novas tecnologias, e tendo em mente que as mais diversas técnicas visuais desde sempre foram transportadas para o cinema na hora de fazer dele campo de abrigo de invenções que dispensam a filmagem de seres que respiram para transitar na tela, o stop-motion poderia e deveria ser visto como a alma maior, como a mais bela maneira de trabalho, como o Rolls Royce do modelo.

Nara Normande se cercou de diversos craques do ramo para fazer essa sua animação em stop-motion – percebe-se isso pelo caminhar do filme e constata-se definitivamente que estava bem assessorada quando dos créditos finais -, e realizou uma história que nem sempre tem a fluidez (no sentido de movimentação mesmo) plena, mas que foi ousada já por isso: há muitas caminhadas em Dia Estrelado, “fluidez plena” representa sempre alguns muitos dias a mais de trabalho, e mesmo assim se manteve a aposta nisso.

O todo do filme é espantoso, com detalhes raros de serem notados em outros trabalhos similares de praças com mais tradição do que é Recife, no caso: a criação das “pessoas” com massinha mesmo traz na sua manipulação a ideia de que se trata de bonecos feitos com argila, numa espécie de metáfora palpável do chão de barro que é o comum do sertão retratado em suas fases longas de seca; toda a estrutura de apoio a esses seres (e veja-se aí as roupas, flores que abrem de maneira linda, cabelos e tal) é confeccionada com outras tramas, com panos, com madeiras, e nota-se variações de textura nesses detalhes bastante interessantes para confirmar algo bastante rico.

Detalhes raros que emprestam beleza espantosa na criação de um céu com pôr de sol recheado de cores e variações, numa sequência rara pela complexidade plástica obtida; detalhes raros que ganham beleza e diferenciação ao que é comum nas “certezas” visuais do stop-motion quando há o delírio de um dos personagens (sedento e esfomeado), transformando o que ele enxerga em “desejos” desfocados (parece arte plástica abstrata esse momento); além dos precisos “falsos movimentos” de câmera que são necessários num modelo em que os movimentos das lentes são fruto de ilusão para imitar o que se faz quando se filma “aqueles outros que respiram”. É estimulante e sempre bom renotar mais um “filminho de massinhas”.Por Cid Nader


Dique, de Adalberto Oliveira. 2012 • cor • digital / 18 min. (FOTO 7)

Não fosse esse mais um curta de Pernambuco; não fosse outro de lá que repete de uma certa maneira o questionamento da anteposição entre a natureza local e o solapamento da beira da praia (por construções de enormes edifícios que matam a natureza e a cidade antiga); não discutisse ele seu mote totalmente por imagens (sem que necessitasse de diálogos, abastecendo sua banda sonora com sons recolhidos com um hidrofone), captadas por lentes que observam tudo com muita paciência na utilização do tempo e trabalhadas com muita destreza na hora da edição; não tivesse resultado, no todo, um filme que até poderia ser pensado como “mais um da mesma” escola, mas que, também como os da mesma escola, se confirma como bastante bem trabalhado.

Nota-se que sobre o que se fala - Dique, de Adalberto Oliveira - é obra que repete as mesmas preocupações, com semelhantes escolhas técnicas e estéticas do que vem sendo já há algum tempo na região: com resultados espetaculares e marcas da nossa história recente de cinema. Mas, ao invés do susto que poderia dominar a apreciação justamente pela negação de outras buscas, o jovem diretor impressiona demais: ao utilizar uma esperta captação quase em macro dos caranguejos que vivem nos mangues nas areias revela quase um mundo de marcianos (nos “gestos” dos bichos, nas moscas que pousam sobre eles),que fica mais curioso quando se nota a cidade e as pessoas ao longe; ao levar a noite ao filme, observando de lugar incomum as luzes dos caçadores e fazendo delas espetáculo visual bastante bem coadunando pelos sons; mais alguns outros procedimentos bem concretizados, que ganham alavanca quando se lê ao final que o curta é um trabalho de conclusão de curso de cinema digital. Aí bate o espanto. Por Cid nader


Dizem que os Cães Veem Coisas, de Guto Parente. 2012 • cor / 12 min.. (FOTO 5)

Parece que há quase uma obsessão nordestina nos ataques ao aburguesamento de suas grandes cidades – fato nascido e que virou filme primeiro em Recife, e que já há um tempinho transpôs fronteiras para também estabelecer-se lá por Fortaleza. Guto Parente – ligado por sangue e trejeitos à turma da Alumbramento – construiu aqui mais um trabalho (desta vez no formato curto – eles variam) que sob nenhuma intenção de querer ser vaticinador ou professoral, ou menos ainda de exemplo bem identificável (no signos aglutinados que poderiam formar denúncia linear), consegue dar uma desmontada, uma desancada, respeitável nas pessoas que fazem do “subir de vida” sua maior meta, objeto de desejo e modo de esnobar os “comuns”.

O curta é excessivamente “rico” em imagens e sons, poluído nas suas ligações e nas “tramas” criadas para fazer razão ao que queria ser dito, dinâmico na fluidez, e evidentemente (propositalmente descaradamente) reverencial à piscina como elemento comum e repetido como símbolo maior desse mal que acomete os de bolsos cheios e almas esvaziadas: com toda a capacidade de quem sabe o que fazer com as câmeras e na montagem, a ida de Guto aos extremos rendeu algo que acabou por escrachar de modo muito mais eficaz, já que não era um ataque “somente”, mas cinema bem feito, fazendo a função. Quando carrega a mão e aproxima as lentes de algumas das figuras bastante caricaturais próximo do final (no momento em que acontece “um acidente” e as atenções desviam-se do superficial por alguns instantes – quando os cachorros ganham sua vez mais importante que outros), a tela se enche de cinema na mais pura das essências, porque as imagens exibem matizes e viço que só se obtém por quem sabe o que faz.

Se a ideia era a de “brincar” jocosamente com essas situações inaceitáveis, um tanto de cenas criadas se encarregaram disso: a das mulheres empetecadas cantando, as das pessoas sentadas à beira d’água, evidentemente a dos gordos dentro da piscina, as das bebidas. Se outra era a de dar cara às reverências, o amontoado de situações à Lucrecia Martel não deixou dúvidas ou fingimentos quanto a isso. E se tudo – mesmo tendo esse mote estranho de gente que se imagina “diferenciada” se ostentando e às suas posses como o que conduz a intenção principal - se deu sob padrões pouco usuais, quase “fabulares”, as certezas emprestadas após constatados os resultados não deixam dúvidas de que vale a pena parecer se repetir: quando não é isso realmente o que está ocorrendo, e sim mais um capítulo bem contado da história.Por Cid Nader


Dois, de Thiago Ricarte. 2012 • cor • digital / 16 min.(FOTO 6)

O “garoto” Thiago Ricarte parece ter optado pela singeleza como um dos caminhos que farão com sua obra ganhe reconhecimento: singeleza que não se baseia em esvaziamento do campo de visão com economia de cuidados m favor de criar espaço mais livre para e emoção repassada; singeleza que não é obtida de histórias padrão cartilha (e nem que sejam tão ousadas, mas respeitadas dentro dos padrões de um cinema que ser completo por todos so aspectos). Com o Chapa, exerceu seu domínio pela execução de um documentário, e aqui, com Dois, utiliza sua boa noção ingressando numa história ficcional.

E é tão singelo quanto bem feito o filme: que abraça com lentes bem manuseadas a enormidade de um parque em São Paulo, fazendo com que esse parque venha a “abraçar”, por sua vez, típicos adolescentes dos tempos modernos, sem caricaturizá-los para que viessem a servir de mote de atração tão comum quanto acomodado quanto é comum pela ânsia de algumas das artes modernas. O filme segue um ritmo natural de percurso, e aproveita o procedimento dos moleques (plácido e feliz – mesmo que o mundo e o entorno não lhes esteja sorrindo e exija outras atitudes imprevistas no “seu roteiro” particular), criando linearidade entre fluxo narrativo e narrativa de tema. As atuações contribuem para isso, já que não há excessos e eles conseguem com competência serem justos ao que curta exigia para que o casamento entre a confecção e os elementos que a animariam fosse perfeito. Bom ver esse tempo da vida do ser humano – a adolescência – retratado com a dignidade que é devida a ele. Por Cid Nader


Dona Sônia Pediu uma Arma para Seu Vizinho Alcides, de Gabriel Martins. 2011 • cor/pb / 25 min.. (FOTO 3)

Mais um filme do - também crítico - Gabriel Martins. Mais um filme que não deixa dúvida alguma quanto à sua capacidade de concretizar e finalizar cinema com o mesmo bom conhecimento teórico que sempre demonstrou em textos, e que já consegue repetir atuando atrás das lentes. A criação de Dona Sônia Pediu uma Arma Para Seu Vizinho Alcides é tão complexa e elaborada como o título sugere: com várias fases, seu ritmo “descontínuo” (no sentido de não se entregar como obra que toma um padrão narrativo para contar sequências de modo linear e mastigado) revela quase que esquetes dentro de um mesmo aglomerado,e com a mesma história pilar para conduzi-los, para manter uma linha de ligação.

Recheado de referências a estilos, Gabriel monta seu painel, hora com padrões de rigor máximo nas imagens captadas (planos fixos e cortes secos), hora com ritmo que poderia remeter a histórias contadas em filmes ou programas policiais, hora por imagens antigas (num truque em que utiliza momentos de arquivo pessoal – sem saber se há algum vestígio de verdade próxima a ele na história de um assassinato) que complementam uma sequência de padrão emotivo. Para ajudar a criar elo nas diferentes opções de ritmos e imagens, uma interessante narração “off” indica com mais clareza por onde o filme está caminhando (que em outros trabalhos, por vezes, serve de muleta, mas aqui funciona como mais um elemento), até se chegar ao final totalmente inusitado, de desfecho estético perfeito (mais referências embutidas nesse momento), mas que pode deixar dúvidas em quem não conhece seus gostos cinematográficos. Se é de competência que falamos, eis um muito bom exemplo. Por Cid Nader



































































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