DO OUTRO LADO:


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Original: Auf der anderen Seite
País: Alemanha/Turquia
Direção: Fatih Akin
Elenco: Nurgül Yesilçay, Baki Davrak, Hanna Schygulla, Tuncel Kurtiz, Patrycia Ziolkowska, Nursel Köse
Duração: 122 min.
Estréia: 04/07/2008
Ano: 2007


"Do outro lado": Fatih Akin aborda identidade e destino em drama desigual


Autor: Fernando Oriente

As origens turcas do cineasta alemão Fatih Akin parecem mover sua obra. Depois de levar o Urso de Ouro no Festival de Berlim em 2004 com o poderoso “Contra a Parede”, Akin volta à ficção com o drama “Do Outro Lado”. O longa, vencedor do prêmio de melhor roteiro no Festival de Cannes do ano passado, trabalha com o destino de vários personagens que se cruzam na busca de identidade e de suas origens.

A busca dessa identidade em “Do Outro Lado” é a principal força motora dos personagens. Não apenas os imigrantes turcos que vivem na Alemanha ou são obrigados a fugir para lá, mas também os próprios alemães, de gerações distintas, parecem o tempo todo trombar em dilemas angustiantes que cercam o vazio existencial em que vivem. Achar suas origens, ou recuperar elementos que um dia ocuparam o centro de suas vidas, é o que o destino acaba por proporcionar aos tipos que Akin põe na tela.

O roteiro do filme trabalha a favor de “Do Outro Lado” quase na mesma proporção em que atrapalha o conjunto final do novo trabalho de Akin. Enquanto o primeiro núcleo de personagens (os turcos que vivem na Alemanha) é muito bem desenvolvido, tendo cada um deles suas nuances de caráter compostas com densidade, o segundo grupo de tipos dramáticos (a jovem turca que foge para Hamburgo e a estudante alemã que a acolhe) é fruto de resoluções ruins de roteiro e mal conduzidas pela mis-en-scene. A exceção à fragilidade desse grupo de personagens fica por conta da mãe vivida por Hanna Schygulla, que cresce muito com o desenrolar da narrativa e assume um contraponto fundamental na trama.

A jovem turca surge como uma figura dramática caricata, principalmente em sua suposta postura agressiva e em seu discurso, que torna-se raso no decorrer do filme. A estudante alemã chega ao espectador com uma ingenuidade artificial, que por mais que se perceba que o diretor pretendia usá-la para discutir a ingenuidade dos alemães (ou mesmo dos europeus em sua parcial alienação aos problemas vividos por habitantes de outros países), acaba por impedir que ela exerça um papel mais sólido no longa.

O segundo núcleo de personagens representa um grave problema para o filme, também, pela necessidade que Akin tem de arrastar o longa para desenvolver a teia de relações que acaba por unir esses tipos todos. O cineasta termina por perder tempo e diluir a força de seu filme ao se deixar escravizar pelo roteiro, que dá importância demais a personagens que não tem o mesmo vigor das outras figuras dramáticas da história. Desse problema surgem muitas situações que incomodam pela superficialidade das soluções encontradas.

Mas o resultado final de “Do Outro Lado” é um filme bom, bem acima da média do fraco cinema alemão dos dias de hoje. Fathi Akin usa, em seu novo trabalho, movimentos de câmera mais elaborados, com um ritmo mais lento do que os que tinha criado para “Contra a Parede”. Os planos são compostos de maneira mais sofisticada e os enquadramentos mais estudados em um sentido formalista mais apurado. Embora seu longa anterior seja melhor em quase todos os aspectos, percebe-se que o diretor continua buscando uma evolução em sua obra, ao evitar se manter preso a apenas um estilo de filmar.

Por mais que o filme perca ao mudar o foco das ações em sua segunda parte, ele recupera sua qualidade na parte final. O tema da busca por identidade, o peso que as origens exercem sobre as pessoas é muito bem trabalhado por Akin. Essas origens podem ser étnicas, mas são principalmente de personalidade; são construídas por homens e mulheres ao longo de suas existências, são compostas de ações e ideais e de como cada um lida com esses elementos vitais na constituição da personalidade e da visão de mundo.

O roteiro, com seus claros problemas, também oferece situações bem interessantes ao longa. Diversas possibilidades de encontro entre os personagens, as perspectivas que têm para encontrar algumas respostas, não se concretizam. Esse é um dos melhores recursos do filme, o que ajuda a dar maior complexidade às relações entre os tipos e expõe como os acasos da vida agem sobre qualquer um. As duas mortes que ocorrem ao longo do filme, que servem como intertítulos para “Do Outro Lado”, também são frutos de uma boa concepção de roteiro, principalmente pela solução estética dos percursos de ida e vinda dos caixões, elemento que potencializa ainda mais o aspecto dos destinos cruzados da narrativa.

Em um filme cheio de sutilezas que dão força aos dramas vividos, Fatih Akin compõe complexas e inesperadas relações entre personagens que não se conhecem, e que são muito diferentes entre si. São pessoas postas em contato pelo acaso e que acabam por desenvolver uma cumplicidade cheia de inesperada ternura e que não segue a lógica racional das relações humanas nos dias de hoje. Akin é, em muitos aspectos, um humanista sem disfarces.

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