A ÚLTIMA AMANTE:


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Original: Une vielle maîtresse
País: França/Itália
Direção: Catherine Breillat
Elenco: Asia Argento, Fu’ad Ait Aattou, Roxane Mesquida
Duração: 114 min.
Estréia: 27/06/2008
Ano: 2007


Breillat mostra como o desejo aprisiona o homem


Autor: Fernando Oriente

Em seus filmes, a cineasta francesa Catherine Breillat, sempre procurou focar o sexo e o desejo e como eles representam, na maioria dos casos, as relações de poder, dominação e submissão na sociedade. O corpo e as possibilidades de exploração desse corpo pelo ser humano fazem parte de um processo de descoberta e servem como caminho tanto para uma busca de liberdade como para um trajeto sem retorno para o aprisionamento existencial.

Em “A Última Amante”, Breillat usa o personagem de um jovem libertino francês do século XIX, Ryno de Marigny, e expõe, através de seu desejo incontrolável por uma cortesã espanhola, como um homem, por mais que tente romper com a força esmagadora que lhe é imposta por uma obsessão sexual, é incapaz de abandonar o objeto pelo qual alcança o prazer mais sincero e intenso.

O pano de fundo do longa é a alta sociedade parisiense da primeira metade do século XIX. Uma França recém egressa da revolução burguesa que mudou o mundo e pôs a burguesia no comando das ações políticas, relegando o que havia sobrado da nobreza a um papel secundário em um decadente jogo de aparências que visava camuflar a inutilidade social e existencial.

As peças desse jogo, seres humanos constantemente manipulados por outros seres humanos, têm que recalcar qualquer sentimento mais autêntico, são obrigados a reprimir seus desejos mais sinceros e só exprimi-los quando isso for permitido dentro do roteiro do grande teatro social que fazem parte. São pessoas que não vivem suas vidas, apenas as encenam.

A cortesã espanhola, Vellini, vivida por Ásia Argento, é uma figura estranha nesse meio social. Ela vive mais de acordo com seus sentimentos, o desejo para ela é algo que tem de ser concretizado. Embora tenha usado esquemas tradicionais para se firmar na sociedade, ela não vê entraves para abandonar a estabilidade e embarcar em uma vida de paixão e concretização de sua explosiva sexualidade. Seu relacionamento passional de entrega mútua com o jovem Ryno é vivido até as últimas conseqüências pelo casal. Quando uma tragédia marca a vida de ambos, é na consumação sexual do desejo e no prazer ilimitado da carne que eles vivem as dicotomias entre dor e desejo, amor e ódio.

Visto de forma simples, toda essa situação que pauta “A Última Amante” pode parecer algo repetitivo, que muitas vezes já foi assistido ou lido. O mérito de Breillat é carregar seu filme de densidade dramática, é compor um relacionamento sólido entre os personagens principais e explorar bem os sentimentos do casal de protagonistas.

A cineasta conduz a trama e com ela as emoções de seus personagens tirando força das situações dramáticas por meio de ângulos fechados, closes nos rostos de seus atores e obtendo uma constante tensão sem apelar para o uso da música, que muitas vezes serve de muleta para diretores ao retratarem dramas de época. O que interessa para Cathrine Breillat é a complexidade das situações em que envolve seus personagens, suas angústias e seus limites pessoais diante de uma sociedade que constantemente reprime e censura seus desejos.

Para Breillat, a concretização do desejo é apenas uma tentativa de libertação para seus personagens. Viver os prazeres da sexualidade em um mundo que esmaga o indivíduo só pode fazer do homem um outro tipo de escravo: um prisioneiro de seu próprio desejo. Ao ser incapaz de romper com sua amante e viver uma vida de matrimônio respeitável, Ryno é condenado a depender física e mentalmente desse desejo e de suas possibilidades de prazer; é um prisioneiro de sua liberdade sexual.

As possibilidades de viver o sexo, no caso dos protagonistas, ou a impossibilidade de uma vida sexual satisfatória, como no caso dos personagens velhos que vivem de intrigas e fofocas, é a força motora da sociedade de “A Última Amante”, bem como o fio condutor do cinema de Cathrine Breillat.

Ásia Argento é outra peça fundamental no conjunto das muitas qualidades de “A Última Amante”. O que para muitos pode parecer um equívoco, é, na realidade, um dos maiores trunfos do longa. A presença da atriz, que pode ser vista no cinema de hoje como “uma atriz como personagem”, empresta para a figura dramática que interpreta uma força muito maior do que o papel do roteiro poderia prever. A forte sexualidade de Ásia, sua figura visceral, de uma postura quase masculina ao renegar os estereótipos frágeis da visão comum do feminino na arte, garante uma densidade e um poder muito maiores a sua criação da passional Vellini.

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