ONDE ANDARÁ DULCE VEIGA?:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Guilherme de Almeida Prado
Elenco: Maitê Proença, Carolina Dieckmann, Eriberto Leão, Júlia Lemmertz, Oscar Magrini, Nuno Leal Maia, Christiane Torloni, Matilde Mastrangi, John Herbert, Cacá Rosset, Carmo Della Vechia.
Duração: 135 min.
Estréia: 27/06/2008
Ano: 2007


"Onde Andará Dulce Veiga?" - novas apostas, na velha e boa revisita a São Paulo


Autor: Cid Nader

Guilherme de Almeida Prado é diretor que faz da cidade de São Paulo seu maior achado. Filma-a com muita intimidade, certeza de onde pisa, de quem conhece todos seus caminhos – os caminhos mais simbólicos e representativos, ao menos. Toda sua obra, ajuntada, faz um emaranhado de citações e ostensivos olhares para recantos da cidade que são de evidente apreço ao diretor. Seu carinho é muito mais endereçado a um lugar um tanto recuado no tempo, e localizado de maneira mais específica na "representação" emprestada pelos velhos prédios e locais da região central – nota-se sua atenção a locais que tenham atmosfera de anos 60, 70 e 80 (no máximo), e que hoje em dia lembrem em sua decadência uma cidade que não existe mais.

O diretor é um esteta muito particular. Seus filmes são prova disso e compõe uma espécie de caminho autoral, que poderia até classificá-lo como alguém que com sua obra tenta preservar ou desvendar – depende do momento – a cidade; fazer de sua história recente um marco de civilização nova, mas que já tem algo a ser contado. "Onde Andará Dulce Veiga?" é a marca da volta do diretor após quase dez anos sem filmar – seu último trabalho havia sido "A Hora Mágica", no ano de 1998 – e ele resolveu que não deveria voltar de maneira modesta ou acanhada. Esse trabalho bebe de fontes que não parecem muito com o pregresso do realizador.

O filme tem um caráter de "urgência informativa" como raramente se vê no Brasil. Há um excesso de efeitos criados por computador que lembram muito o que se faz em outros países, e que nega discursos nacionais que evocam liberdade de tais tipos de "contaminação". Mas Guilherme tem "imaginação brasileira", jogo de cintura, e ao utilizar essas possibilidades técnicas, foge do padrão repetitivo que se faz comum em obras estrangeiras – que as utilizam mais por ostentação de técnica ou como facilitadoras de trabalho -, criando alteração no ritmo do filme (como se resolvesse problemas de desenvolvimento da trama enxugando o tempo gasto para explicações ao simples toque de um botão de animação), e possibilitando uma excelência visual notável.

Como se fosse um apêndice dessa utilização técnica – ou ao contrário, talvez – a edição do filme revelou-se espantosamente importante. Se fosse para definir esse seu novo trabalho com uma única palavra, "edição" seria ela. O ritmo inicial – principalmente – é "angustiado", apressado, preenchendo todas as possibilidades de respiro com notas que não dão lugar a divagações. Tal "ritmo total" faz com que o filme se diferencie de outros que utilizam o "não deixar espaços" para evitar que o espectador pense, perceba. Cumpre a função de alteração de ritmo que citei acima, não deixando dúvidas de que o andamento foi totalmente controlado pelo diretor na mesa de montagem. Aí, se evidencia o grande trunfo do trabalho, mas aí também se cria um contraste desfavorável, que se nota quando a obra passa dos tempos "preenchidos", aos tempos determinados pela atuação.

Não que todo o elenco se dê mal no quesito atuação. Carolina Dickman (fazendo o papel da filha de Dulce) está bem: forte, visceral e em contrapartida necessitada de amparo; ou Cristiane Torloni (Lyla Van), ou Maitê Proença (a própria Dulce), ou Maira Chasseroux (Patrícia). Mas o ator principal, Eriberto Leão (Caio) e alguns outros personagens emperram o ritmo que vinha forte, quando chamados para cumprir seu papel – se bem que, voltando ao histórico de direção de Guilherme com relação a atores, me parece que ele talvez tenha por princípio valorizar o glamour de seus personagens femininos e, talvez, como forma de mantê-los num patamar mais elevado, utilize uma "manipulação" mais dominadora e opressora dos masculinos; talvez. Enquanto o filme, como peça maior, um todo, vai muito bem, algumas das partes (alguns atores, mesmo em se imaginando que por opção do diretor) destoam em intensidade, sinceridade e como "continuadores" de ritmo. A obra que vinha se mostrando forte e surpreendente pelas opções de Guilherme vacila um pouco mais próxima do desfecho. Mas - noves fora - no todo, no frigir dos ovos, restam como lembrança muito mais os acertos do que as falhas. Até porque, se pensarmos que momentos finais – por algum tipo de lógica racional ou científica – são os que mais ficam retidos na memória, na retina, os de "Onde Andará Dulce Veiga?" (mais especificamente o último mesmo - dentre uma imensidão de últimos) são de vital importância para lembranças boas. A última cena – de canto e chuva – é bela e singela, lembrando um pouco um bom modismo que tem sido repetido por alguns jovens autores franceses da atualidade.

Leia também: