LADY JANE:


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Original: Lady Jane
País: França
Direção: Robert Guédiguian
Elenco: Ariane Ascaride, Jean-Pierre Darroussin, Gérard Meylan, Yann Trégouët, Frédérique Bonnal, Pascale Roberts
Duração: 108 min.
Estréia: 27/06/2008
Ano: 2008


Novo longa de Guédiguian perde força em escolhas equivocadas


Autor: Fernando Oriente

Depois de realizar o que é, provavelmente, o seu pior trabalho (o sentimentalista e piegas “Armênia”), o cineasta Robert Guédiguian volta à boa forma com “Lady Jane”. Em seu novo longa, o diretor flerta de forma competente com o suspense e o thriller, gêneros que nunca havia explorado em sua carreira, marcada basicamente por dramas político-sociais.

“Lady Jane” tem como mote a vingança, tema explorado à exaustão ao longo da história por diversas filmografias. Guédiguian parte do seqüestro de um adolescente que acaba por reunir a mãe do jovem com dois ex-companheiros de crime. Esse recurso é bem explorado no roteiro pela forma como os três personagens principais retomam um convívio interrompido há muitos anos e recuperam um nível de intimidade e cumplicidade que expõe como a força de relações consolidadas no passado influencia para sempre o destino das pessoas.

Os primeiros 40 minutos do filme são muito bem conduzidos por Guédiguian, a decupagem precisa e as situações bem amarradas garantem a unidade dos planos. Com bom uso da montagem paralela, o longa contextualiza a rotina tensa dos três personagens em um angustiante clima de espera. O desfecho trágico do seqüestro, marcado claramente como “plot point” no roteiro, conduz “Lady Jane” do suspense ao drama. E é a partir daí que o filme cai, quando o diretor passa a depender de personagens que não se sustentam de forma satisfatória.

O primeiro equívoco de Guédiguian é na composição da personagem principal. Embora Ariane Ascaride seja uma atriz competente, seu tipo no filme não tem a densidade necessária para conduzir o drama. Ao fazer dos outros dois personagens centrais figuras dramáticas muito mais interessantes, o diretor erra o foco de condução da trama. Outro erro que chama atenção em “Lady Jane” é a tentativa frustrada do roteiro em fazer com que as peças se encaixem em uma trama sólida. É exatamente o aspecto raso desse processo que vem à tona.

Mas o pior defeito de “Lady Jane” é a forma como o tema da vingança é explorado. A intenção de Guédiguian era construir um discurso crítico, de negação de tudo o que envolve a vingança e de denúncia de suas conseqüências trágicas para todos os envolvidos nesse processo destrutivo. Ao tentar mostrar como a vingança é uma bola de neve, em que cada ação radical provoca uma nova desgraça que abre infinitas possibilidades de dor contínua, o diretor acaba abraçando soluções banais. Ao buscar a origem dos conflitos entre os personagens em fatos do passado que não são explorados de forma crítica ou de maneira complexa, o longa deixa de cumprir suas intenções e perde seu poder retórico.

Apesar dos claros problemas que apresenta, “Lady Jane” tem suas qualidades. Na parte final, o filme volta a ganhar em fôlego e alguns diálogos chamam a atenção. O poder discursivo do cinema francês é notado em algumas falas, como quando um personagem explica que seu amor pela protagonista é um esforço, uma tentativa de “ouvir seu coração que anda mudo há anos”. Essa necessidade dos protagonistas de reencontrar a felicidade do passado, de recuperar a juventude e a sensação que de que as coisas faziam sentido é um dos pontos altos do filme.

Na conclusão do filme fica nítido como Guédiguian passa perto de acertar em cheio. As situações estéticas interessantes que encontra para o trio principal nas últimas cenas são diluídas pelos excessos de explicações das seqüências anteriores. Ao “mastigar” demais os motivos que levaram os envolvidos na trama aos conflitos que vivenciam, o diretor diminui muito a densidade que sua obra poderia alcançar.

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