A QUESTÃO HUMANA:


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Original: La question humaine
País: França
Direção: Nicolas Klotz
Elenco: Mathieu Amalric, Michael Lonsdale, Edith Scob, Lou Castel, Jean-Pierre Kalfon, Valérie Dréville, Rémy Carpentier, Laetitia Spigarelli
Duração: 143 min.
Estréia: 20/06/2008
Ano: 2007


“A Questão Humana” e as feridas expostas por Nicolas Klotz


Autor: Cesar Zamberlan

Um dos primeiros planos de “A Questão Humana” é um plano fixo da chaminé de uma fábrica com a fumaça encobrindo a cidade ao fundo. Como primeira imagem, o plano parece servir apenas para situar a trama dentro do ambiente industrial ou corporativo, mas sua significação é muito maior. A chaminé servirá a uma potente metáfora, a uma tese que faz do filme do francês Nicolas Klotz um bem fundamentado ensaio sobre a sociedade contemporânea, um discurso engajado, duro e cinematográfico acima de tudo.

Nesse sentido, Klotz consegue algo raro hoje: faz um cinema político que conjuga cinema e política de forma equilibrada, constrói um discurso que alia a força do texto a uma inteligente dramaturgia e a imagens plenas de significação. Num momento que qualquer discurso que se assuma mais ideológico é esvaziado pelos defensores de um esteticismo muitas vezes vazio - o predomínio da forma ao fundo ou conteúdo -, o cineasta alemão nos traz uma obra orgânica com uma força impar e inquestionável sob todos os aspectos, daí o sucesso do filme no Brasil (foi exibido na última Mostra), agradando a gregos, troianos e espartanos.

Filme de tese, “A Questão Humana” é um trabalho corajoso e necessário e, de certa forma, até mais facilmente assimilável na sua construção narrativa que o trabalho anterior do diretor, o igualmente corajoso e necessário “A Ferida”, filme que tratava dos imigrantes ilegais na Europa.

Se no longa anterior, já nas seqüências iniciais Klotz mostrava a sua intenção e o seu tema - as longas seqüências dos imigrantes presos no aeroporto registrados em planos bem fechados, que enchiam o quadro de uma intolerável angústia certamente ainda ecoam na mente daqueles que viram o filme quando ele foi exibido em Mostras passadas -, em “A Questão Humana”, Klotz revela menos sua intenção e constrói a narrativa aos poucos, com uma perversa suavidade, num ritmo crescente e musical como todo o filme, conduzindo o espectador, a partir do ponto de vista do personagem principal, um psicólogo que trabalha na área de recursos humanos de uma indústria química, numa investigação que o fará mergulhar em um cenário bastante desnorteador e desolador.

Falemos sobre esse mergulho e sobre a tese que o filme constrói na sua hábil construção narrativa. Se você não viu “A Questão Humana” pare por aqui e corra ao cinema; se viu, provavelmente vai concordar comigo quando afirmo que Klotz maneja com habilidade o espectador nessa jornada, fazendo-o se identificar com o personagem, não tanto quando este, de modo arrogante, se coloca acima da sua realidade - até pelo fato de não a conhecê-la tão bem como imagina -, mas, de maneira mais forte a partir do momento que Simon percebe que por detrás daquela verdade que ele aceitava e imaginava pertencer há uma outra verdade. Verdade que ele, como funcionário modelo, ajuda a perpetuar. Verdade que aproxima a realidade corporativa de hoje àquilo que a humanidade assistiu de mais detestável que foi o nazi-facismo com seus campos de concentração e assassinato daqueles que não se encaixavam nos processos de seleção baseados na criminosa hipótese do predomínio de uma “raça”, inteligência, sobre a outra.

Pior que apreender essa realidade no mergulho do personagem - mergulho que se dá depois da investigação a qual ele é incumbido e que o levará aos meandros do poder -, é a sensação que o filme traz que essa história faz parte de um ciclo no qual os fatos se repetem, só que as formas de manipulação se aprimoram e parecem cada vez mais camufladas.

Se nos arrogamos da certeza de Simon num determinado momento, nos identificamos ainda mais com ele e cambaleamos com ele ao nos vermos também “traídos” pela ordem “natural” das coisas que nos leva sempre em direção a morte e não a vida, por mais que sejamos impelidos a acreditar no contrário.

Nesse sentido, morte é a anulação do personagem na fábrica quando se submete à corporação e elimina aqueles que não servem mais ao sistema; na rave, quando se anestesia sob o impacto das drogas e da música eletrônica repetitiva; na rua, quando não pode seguir seu instinto mais básico que pede ao corpo que descanse visto que o cansaço o atordoa. Fato, memoravelmente representado na cena na qual um anônimo o interpela quando ele, exausto, deita para dormir no chão da rua - como está elegantemente trajado não pode dormir ali, o traje o insere numa outra ordem e estar ali deitado, nesse caso, só poderia significar um mal estar passageiro e não uma recusa a ordem das coisas tal qual a recusa do maltrapilho mendigo que renuncia a tudo. A morte de Simon se dá também quando não ouve e não se permite ouvir o lamento do fado ao lado da namorada; quando se distancia desta, mesmo quando ela o alerta que ele está “morrendo” pare ele e para ela.

Já a vida, por mais paradoxal que possa parecer, está presente no desvelar do sentido da trama, trama do filme e trama da vida, a questão humana como coloca o diretor e o autor do livro que Klotz adaptou, no caso “La Question Humaine” de François Emmanuel. A percepção desta questão é que confere vida ao personagem e não há como voltar atrás após essa descoberta, a não ser sair de cena, aceitar-se num estado mínimo ou ocupando um espaço menor, mas possível, como o do personagem de Lou Castel, Arie Neumann, que se refugia numa pequena cidade, ensinando música para crianças e se dando o direito dos pequenos e frugais prazeres de uma refeição numa simples taberna.

E é este personagem que nos dá um dos mais belos textos do cinema recente, comparável aos dos filmes recentes de Godard e ao dialogo no final de “Onde os fracos não têm vez” dos irmãos Cohen. Arie que foi banido pelo sistema e despedido por ser alcoólatra fala da linguagem e de como as palavras podem mascarar uma verdade, como elas podem servir a um outro sentido e usa como exemplo a própria palavra questão, “questão social”, “questão humana”, que deixa de ser usada, pois é uma interrogação em aberto, sem resposta, passando se a usar “problema”. Pois, “problema” é algo que impede algo de tomar um curso e pede, mesmo que isso só seja possível aparentemente, uma resolução definitiva.

Klotz e sua roteirista Elisabeth Perceval ao dar forma aos personagens de François Emmanuel, mais do que apontar para essas questões trágicas e demasiadamente humanas, colocam o dedo na ferida, mas não a ponto de explodir o ferimento em jorro de sangue, o que seria o seu fim, seu dilaceramento, sua morte; mas a ponto de provocar um doce latejar, proporcionando uma sensação que se por ora é dolorosa, o é também, pelo seu contrário, a prova mais concreta da existência.

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