FIM DOS TEMPOS:


Fonte: [+] [-]
Original: The Happening
País: EUA/India
Direção: M. Night Shyamalan
Elenco: Mark Wahlberg, Zooey Deschanel, John Leguizamo, Spencer Breslin, Betty Buckley, Tony Devon, Victoria Clark, Jeremy Strong, Frank Collison, Stéphane Debac, Ashlyn Sanchez, Robert Bailey Jr., Edward James Hyland, Susan Moses
Duração: 90 min.
Estréia: 13/06/2008
Ano: 2008


"Fim dos Tempos": Filme sobre a questão ecológica?


Autor: Fernando Watanabe

Sobre M. Night Shyamalan existem dois tipos de discussão: uma que gira em torno do autor Shyamalan e outra que se dedica a analisar seus filmes. Este texto pretende se encaixar na segunda categoria, e de modo mais específico, se concentrando neste novo “Fim dos Tempos”.

Esta breve introdução se faz necessária neste momento, quando vem a conhecimento público este filme até então mantido em segredo, mas que devido à rapidez e imediatismo deste meio de comunicação chamado Internet, em questão de algumas horas já recebe críticas vindas do mundo inteiro. A maior parte delas, mais do que críticas, são resenhas, negativas. Pedradas. Irresponsáveis ou não, é certo que tais opiniões foram formuladas em um curtíssimo espaço de tempo, numa situação semelhante à recepção instantânea de um filme em um festival. O pouco tempo para reflexão, no entanto, não justifica a superficialidade de certos textos. Um dos motivos para a superficialidade tem sua origem na incapacidade de enxergar através da superfície do filme. E isso passa muito longe da questão de “entender o filme”. O que realmente incomoda – e, portanto, serve de motivo para esta introdução – é a grande indisposição crítica para a compreensão. Goste-se ou não do mais novo trabalho de Shyamalan, é preciso analisá-lo. Pelo menos é nisso que eu acredito, no momento.

Sobre o filme, é quase desnecessário afirmar que sua tradução de “The Happening” (algo como “o acontecimento” ou “o evento”) para Fim dos Tempos gera expectativas que não se cumprem em todo no filme. Ao menos, não de maneira óbvia. O título em português tende a enquadrar o filme no gênero “catástrofe” de uma maneira um tanto grandiloqüente. Todavia, o que vê-se na tela é um filme que não esbanja sofisticação, tampouco catarses. Ao contrário, existe uma certa insistência em efeitos cênicos considerados “fáceis” (portanto, pouco sofisticados), no qual chuta-se a sutileza para escanteio, sem receio de mostrar explicitamente que a mão do diretor - como diz um velho jargão advindo da tradição do “sofisticalismo” - “está pesando”. Corpos mutilados, sangue, sustos fáceis à maneira de um filme B de terror. No entanto, Fim dos Tempos não carrega consigo o crachá de um filme B autêntico. Carrega, sim, e escrito na testa, a assinatura de Shyamalan, o “novo mestre do suspense”. Inevitável, portanto – mesmo para os mais habituados ao universo do diretor – não haver o efeito de estranheza pela sem vergonhice que o filme transpira. Falta de pudores expressa no comentado tom de filme B, na direção de atores esquisita em relação ao arrumadinho padrão standart, no roteiro um tanto cafona que aparentemente argumenta em favor do senso comum (mas só aparentemente!), em suma, na expressão de um gosto pelo bizarro.

Quando afirmei que o lado “filme catástrofe” contido em Fim dos Tempos não se realiza de todo, é porque o tema “catástrofe natural” não me parece o principal motivo do filme. Claro, ele é por demais evidente, é a partir dele que a narrativa se desenvolve, é o tema do desaparecimento natural do homem da face da Terra que cultiva a curiosidade pelas cenas que se sucedem numa relação hiper funcional de causa e conseqüência. Mas, existe um desvio traiçoeiro. Se falamos que o roteiro é cafona, essa impressão existe devido ao encaminhamento que é dado ao “plot da catástrofe”. Tudo, além de hiper funcional, é muito didático, aparentando baixeza e preguiça na resolução de certas questões. Por exemplo, o uso desmedido de velhos clichês como a televisão que informa aos personagens - e por tabela ao espectador - o que está ocorrendo, comic reliefs rasteiras, o entrelaçamento da história sentimental dos personagens com a história geral principal, e, finalmente, o epílogo, que parece ter sido imposto pelo estúdio a fim de plantar uma continuação – à maneira dos blockbusters norte–americanos. Vejamos os dois últimos clichês citados, começando pelo último.

O filme já chegou a sua resolução quando os personagens sobrevivem no campo e a onda de fúria advinda da natureza acaba. Uma elipse nos leva a “3 meses depois”, a fim de comentar, de forma irônica, o nascimento do filho do casal. Estaria aí concluído o filme de maneira satisfatória, portanto, com um falso final feliz. Porém, existe ainda o segundo epílogo, que nos leva à França, onde novos ataques da natureza surgirão. Este segundo epílogo, óbvio de doer, possui a importantíssima função de esclarecer, definitivamente, que a causa da catástrofe é, sim, a Natureza, praticamente extinguindo as brechas abertas para possíveis especulações acerca do envolvimento do governo no acontecimento. O final, portanto, é bem claro. Segundo o filme, existe um ciclo de renovação da Natureza que não inclui o homem em seus planos para o futuro. Podemos nos perguntar, “ok, mas é só isso”? A mensagem do filme não traz nada que não seja encontrado numa manchete de jornal. A abundância de informações acerca da questão ecológica é tamanha que quase ninguém precisa hoje ver Fim dos Tempos para aprender algo de novo sobre o assunto. Teria Shyamalan feito um filme preguiçoso (reprodutor do mais banal senso comum)? É aí que entra a malícia do cineasta, o talento do artista.

O plot principal, o da catástrofe em si, aparece tratado com tamanha superficialidade justamente para valorizar outra reflexão mais fundamental. É um jogo de delicado equilíbrio: escolhe-se desvalorizar algo a fim de valorizar outra coisa. O que é essa outra coisa? É algo que está além da superfície, todavia, só podemos chegar a ela por meio dos indícios concretos que o filme nos dá.

No início do filme, tão logo o tema geral da catástrofe coletiva se impõe, abre-se outra linha narrativa: aquela chamada de “história sentimental dos personagens”. De cara, o tema do casamento e da família se impõe. Ao contrário da tradição clássica, a família não é reduto seguro do sujeito, pois ela é frágil, para não dizer virtual. Fim dos Tempos explora a fragilidade de tal instituição. Nesse sentido, podemos conectar Fim dos Tempos a vários outros filmes contemporâneos que tratam da dissolução do conceito de família tradicional: Reis e Rainha, Clean, o brasileiro A Casa de Alice , só para citar alguns que pude estudar mais atentamente (há vários outros proliferando cada vez mais). O diferencial de Fim dos Tempos é que, ao invés de abordar o desmonte da família dentro de um contexto contemporâneo, ele o faz de uma maneira atemporal, questionando, num nível mais abrangente, as relações humanas em geral. O contato do homem com seu semelhante, esse ser essencialmente solitário cuja necessidade maior, naturalmente e paradoxalmente, é se comunicar. Mesmo quando a catástrofe coletiva é iminente, a lógica do “cada um por si” não prepondera no filme. Diversos são os momentos onde, apesar da morte iminente, os personagens buscam um contato final com as pessoas pelas quais nutrem afeto. Há no filme três planos próximos de mãos que se juntam em momentos de crise.

Ao longo do filme, diversos retratos - todos datados - de casais são mostrados. O anel de Elliot reconhece nas pessoas os sentimentos de alegria, tristeza e tesão, mas talvez não possui a cor que representa o amor - Mark Whalberg, quando questionado sobre qual cor representa o amor responde “não lembro”. Alma, apesar de casada, não está nem nunca estará preparada para o casamento. A velha solitária que vive isolada do mundo já foi casada um dia; hoje, vive só e, ao final, morre só. Uma das casas onde os personagens se refugiam é chamada de “casa modelo”. Tudo clean, tudo perfeito, o símbolo de estabilidade padrão de uma família tradicional. No entanto, tudo é falso, a cenografia é falsa. Tudo é de plástico e evapora diante das forças da natureza. Tudo, absolutamente tudo. Os seres humanos são tratados como uma espécie, assim como as abelhas. Existem casas, existem grandes construções arquitetônicas, grandes obras, laços familiares, afetivos e casamentos destinados a organizar minimamente o caos inerente à condição de fazer parte da natureza. No entanto, por mais que procuremos a segurança, ela nunca chegará. Segundo Fim dos Tempos, tudo evapora.

É um filme de quem já passou pelo processo de ter as balizas seguras de sua vida demolidas. É um filme sombrio, uma visão desesperada, transbordante de lirismo, acerca da condição humana. Trabalho de um artista, logo não é um filme sobre a questão ecológica, mas, sim, uma visão sobre o homem como integrante da natureza e toda a angústia que a tomada de consciência desta condição gera.

Existe uma imagem na qual, no fundo do plano, Alma conta a Elliot que está grávida, e, portanto, irá trazer ao mundo mais um ser humano que adentrará o caos. Nos cantos do enquadramento, plantas silenciosas observam e participam da cena.

Leia também: