O DRAGÃO DA MALDADE CONTRA O SANTO GUERREIRO:


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Original: Idem
País: Brasil
Direção: Glauber Rocha
Elenco: Maurício do Valle, Odete Lara, Othon Bastos, Hugo Carvana, Jofre Soares
Duração: 100 min.
Estréia: 30/05/2008 (Reestréia)
Ano: 1969


“O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro”: Glauber é a essência do melhor cinema brasileiro


Autor: Fernando Oriente

Falar de Glauber Rocha traz uma dificuldade extra: evitar os superlativos para caracterizar a obra desse que é, sem dúvida alguma, um dos cinco maiores cineastas da história do cinema mundial. “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreio”, que deu a Glauber o prêmio de melhor diretor no Festival de Cannes de 1969 (em um ano no qual o júri era presidido por Luchino Visconti), é um longa em que o cineasta baiano utiliza quase todos os elementos da estética cinema-novista, da qual foi um dos principais artífices. É uma obra fundamental, onde a urgência do cinema revolucionário (tanto em sua forma como em seu conteúdo) é sentida em seu potencial máximo. Ao mesmo tempo, é um dos trabalhos mais “palatáveis” para a assimilação do grande público em sua obra.

“O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreio” transporta para a tela representações de tipos característicos do sertão nordestino, um dos meios no qual Glauber procura incorporar aspectos primários da cultura popular brasileira. Temos o coronel imbuído de um reacionarismo retrógrado, literalmente cego em seu apreço à propriedade da terra e aos valores de indiferença diante da miséria que o cerca. Ele é um típico representante da minúscula oligarquia que impõe há séculos a pobreza e o subdesenvolvimento ao nordeste do país. Ao lado do coronel aparece outro representante do egoísmo e da crueldade da elite: o jovem capitalista interpretado por Hugo Carvana que carrega as crenças no desenvolvimento brasileiro propagado pelos milicos da ditadura. Eram pessoas que viam o Brasil como um local de inúmeras possibilidades para uma modernização calcada no dinheiro dos Estados Unidos e na manutenção do poder econômico na mão de poucos, enquanto o restante da população era relegada à condição de pobreza e fome.

O povo é composto por uma massa de famintos, entregue ao misticismo religioso e a crença no poder vingador e no potencial revolucionário dos cangaceiros. No longa, o cangaço é representado por um “herdeiro” de Lampião e Corisco que promete redenção dos sertanejos calcada na violência de resistência à situação vigente e aos códigos de exclusão do sertão. Em meio a esses tipos temos ainda a representação da “santa” e do “negro guerreiro”, além do intelectual de esquerda (um professor vivido por Othon Bastos) corroído por uma impossibilidade de agir, desiludido e entregue ao cinismo e ao sarcasmo.

Mas a principal presença em “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreio” é a de Antonio das Mortes, o mais temido dos jagunços. Personagem mítico vivido por Maurício do Valle e que apareceu pela primeira na vez nas telas em “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964), primeira obra-prima de Glauber. Antonio das Mortes é um personagem gerado e criado pelo sertão e por seu folclore; é um tipo autenticamente nordestino. Ele possui seus próprios códigos de conduta, carrega suas crenças e é dotado de um misticismo particular, as suas ações são pautadas pela necessidade que sente de interferir naquela sociedade para impor os valores que acredita. A violência é algo natural para ele, é uma forma pura de se manifestar e de tentar moldar o mundo a sua volta com suas crenças e seu senso ético. A moral é abstrata e subjetiva e Antonio das Mortes age para fazer valer o seu conceito moral.

Antonio das Mortes entra em cena logo no primeiro plano do filme. Com a câmera fixa, ele ingressa e sai de quadro atirando com seu rifle, em seguida entra em cena um cangaceiro ferido pelo “maior dos jagunços”, que agoniza e cai sem vida no solo seco do sertão. Essa violência que abre o filme é composta por Glauber como fruto do subdesenvolvimento, da miséria social. Ela nasce de outra violência: a miséria social que impera no universo sertanejo.

Glauber trabalha com um anti-naturalismo que impõe uma dialética entre mito e inconsciente, cria representações e parábolas através de imagens e situações muitas vezes barrocas. O cineasta contrapõe aspectos míticos e metafísicos em meio à religiosidade, devaneios e delírios e põe tudo em contato direto com o cotidiano ordinário e material da miséria. Esse cenário é potencializado pela fotografia de Affonso Beato, onde prevalece uma luz chapada que inunda o espaço de uma intensa claridade que sufoca os personagens e o ambiente seco e poeirento.

A realidade de sofrimento do sertão é finalmente percebida por Antonio das Mortes quando ele acompanha a agonia do cangaceiro que matou. A dor daquele homem, bem como a de toda a comunidade pela qual ele lutou, faz o jagunço entrar em processo de culpa e até mesmo de remorso. Após ter matado mais de 100 cangaceiros em sua vida, ter sempre lutado ao lado dos ricos contra os pobres como lhe diz o moribundo que ele acaba de ferir de morte, Antonio decide usar a mesma a violência que sempre regeu suas ações para impor o que começa a acreditar que é o certo. Nessa sua nova cruzada ele contará com a ajuda do professor, que vê nessa situação a oportunidade de transcender suas idéias em atos. Nesse momento de nova “lucidez”, Antonio das Mortes afirma com convicção: “Deus fez o mundo e o diabo o arame farpado”. Mas concluída essa nova empreitada, o jagunço volta a sair de cena com a mesma amargura de sempre, continuará eternamente como um condenado da brutalidade que o alimenta e o cerca; não há redenção possível para ele.

Os cortes ao longo do filme são primorosos na separação dos planos que dividem os focos das ações dramáticas. Glauber utiliza-se muito bem de pequenas elipses que avançam e recuam em meio ao desenvolvimento narrativo. O cineasta é mestre ao compor a totalidade do quadro, usa a tela toda. Compõe com pleno domínio estético os planos de fundo, primeiro plano e planos intermediários, além das bordas dos enquadramentos. Isso permite a divisão da ação na mesma cena sem a necessidade de cortes e garante movimento constante através do deslocamento dos personagens e do uso da câmara na mão.

A música e o som também são elementos fortes em “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro”. Muitos discursos passam da boca dos personagens para a banda sonora que embala novas cenas, as palavras transcendem os personagens que as estão proferindo e suportam um discurso maior, que serve de ilustração para o contexto geral dos dramas encenados. As canções não-diegéticas são usadas para comentar e ilustrar acontecimentos, sentimentos e sensações.

Outro aspecto singular no longa é o tratamento da sexualidade. Ela é forte ao mesmo tempo em que é latente e reprimida nos personagens. Quando essa sexualidade vem à tona (ou melhor, tem necessidade de ser exposta) ela surge como um “grito” de desespero, que também é promovido pela fome e pela miséria da realidade retratada no filme. É o desespero da carne, das necessidades da carne, que assume aspectos materiais no cinema de Glauber, tornam-se elementos sensíveis e não apenas representações narrativas. Essas situações surgem de forma muito intensa devido à atuação de todo o elenco, que como em todos os filmes do diretor, mostra total entrega ao projeto.

O cinema de Glauber é revolucionário em todos os aspectos. Essa estética revolucionária era a força motora de sua obra e, por mais que não agrade alguns com olhar menos atento, palavras do próprio Glauber ajudam a definir e caracterizar a grandeza ímpar de seus filmes. “O cinema revolucionário é sempre melhor que o cinema reacionário”.

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