CORPO:


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Original: Idem
País: Brasil
Direção: Rossana Foglia e Rubens Rewald
Elenco: Leonardo Medeiros, Rejane Arruda, Chris Couto, Regiane Alves, Louise Cardoso
Duração: 85 min.
Estréia: 30/05/2008
Ano: 2007


Corpo estranho


Autor: Cid Nader

Existe um olhar pejorativo que alguns companheiros lançam sobre algumas obras da cidade de São Paulo - sou de lá, vivo lá -, dizendo que têm um humor muito característico, repetições de espaços físicos revelados e que se repetem, atuações que tentam imprimir aos personagens um certo ar de habitante de cidade grande, sotaque inconfundível. Normalmente vejo tais manifestações expressadas por esses companheiros como revelação inconsciente de algum segregacionismo, que denuncia preconceitos interiores que não são revelados jamais de forma consciente. "Corpo" padece de alguns desses modelos criticáveis.

O filme - talvez por ser trabalho inaugural, inicial (se bem que isso não poderia jamais servir de desculpa para um mau resultado, ainda mais quando se trata de trabalho realizado por quem conhece academicamente o assunto) - é muito baseado e escorado em clichês dos tipos que denunciam a obra ser muito paulistana. Tenta enganar em alguns passeios inexatos pelo metrô - mostrando a bela estação Sumaré desnecessariamente (se bem que aí, talvez eu esteja querendo interferir em modos de idealizações, de concepções) -, carrega demais na maneira de mostrar um comportamento urbano e descolado que seria quase que inato em cidadãos que habitam cidades grandes e cultas, e utiliza um pouco de humor (principalmente na concepção da personagem vivida por Rejane Arruda, que é a "maluquete atriz de teatro de plantão") descartável. Filmes de situação clichê é algo que o cinema menos precisa. Sendo trabalho de iniciantes no ramo, então, menos ainda.

Falando em atuações, a de Chris Couto - de modo até um pouco compreensível, já que não é atriz de "verdade" - e, principalmente, a do "ator de verdade", Leonardo Medeiros (o médico legista, Arthur, que imagina um corpo de mulher encontrado, intacto, em meio a ossadas de origem suposta do período da ditadura militar, como originário do mesmo período - final do sessenta, início dos setenta) são algo a ser repensado. Atuações não são tudo no cinema - dependendo do diretor, maus desempenhos podem até servir de gancho para um grande trabalho... -, mas despretensão demais, como o que passou a impressão, o resultado do trabalho de Leonardo, são coisas a serem evitadas, ou corrigidas; numa função única e exclusiva do realizador(es).

E aí vem a história, que se faz confusa - não na idéia estrutural básica, pilar, mas por entre - trechos que procuram desvinculá-la de linhas conclusivas formais, acomodadas (o que, normalmente seria até tentativa louvável) -, engana, se mescla e se reveste de "climas". Interessante se fosse idéia assumida e levada a cabo como tentativa de causar estranhamentos, fazer pensar. Mas não. Ao final, no frigir dos ovos, quando se percebe que a tentativa de incomodar não é concretizada, com um final que "se" nos é entregue mastigado e deglutido, fica a sensação de que tudo realmente não passou de acumulação de estereótipos, clichês, e que a intenção foi sempre a de surpreender no clímax, no ocaso (que nem é tão surpreendente assim, também). Sei que isso é opção dos autores, mas sei que a mim - mais especificamente - não agrada. Principalmente quando há uma nova trajetória sendo iniciada.

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