DOUTORES DA ALEGRIA:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Mara Mourão
Elenco: Documentário
Duração: 96
Estréia: 23/09/2005
Ano: 2005


Muita injeção de ânimo e pouca palhaçada


Autor: Érico Fuks

Parece que a diretora Mara Mourão encontrou seu caminho das lentes. Seus longa-metragens anteriores, “Alô?” e “Avassaladoras”, somados à experiência dos filmes publicitários, imprimiram em seu currículo um tom em falsete na direção da representação. Nesses filmes citados, a maior fraqueza era a caricatura dos personagens, apresentados de modo estereotipado demais, como que dizendo à platéia aos berros que tudo não passa de encenação. Embora tivessem uma proposta de fazer um registro do cotidiano, com pitadas de humor urbano, a vontade de mostrar a teatralização do absurdo era maior do que o impacto cênico das situações trabalhadas. Pelos trejeitos ultrapassados e pelo ângulo distorcido de entrar em contato com o universo artístico, parecia que ali havia atores fazendo papel de palhaço.

Já este documentário “Doutores da Alegria”, prêmio de Melhor Filme do Festival de Nova Iorque e Prêmio Especial do Júri e Júri Popular do 33º Festival de Gramado, caminha pelo processo inverso. Há muita sinceridade nos relatórios filmados sobre o ser humano na busca de sua essência. Atores que exercem a atividade de clown como profissão, mostrados tirando a maquiagem depois de um dia de trabalho, é uma prova disso.

Em 1998, o diretor Tom Shadyac dirigiu um lacrimoso filme de sucesso, baseado em fatos reais, no qual o ator Robin Williams fazia o papel do doutor Hunter ‘Patch’ Adams. Era a história de um estudante de Medicina meio vagal, autodidata, que acreditou que não bastava o doente de câncer em sua fase terminal, especificamente a criança, ser tratado somente com medicamentos pesados. De acordo com suas teorias, revolucionárias pra época, o riso produz, além do efeito psicológico positivo, uma série de reações no organismo que retardam e diminuem os sintomas da doença. Claro que o filme se usou de um tom maniqueísta, mas mostrou de maneira eficiente a resistência do ser humano em aceitar o novo, o desconhecido, ainda mais se tratando dos conservadores núcleos médicos. Patch Adams foi tratado como insolente, um incapacitado que queria trazer a medicina alternativa ao trabalho sério realizado em hospitais, e quase foi jogado à fogueira assim como os curandeiros da Idade Média.

“Doutores da Alegria” é um documentário que tira um pouco dessa romantização ficcional e mostra que, hoje, as sementes plantadas por Patch Adams faziam sentido. Fundada pelo ator e marido da diretora, Wellington Nogueira, a organização Doutores da Alegria atua em dez hospitais em São Paulo, Rio de Janeiro e Recife e já visitou mais de 350 mil crianças e adolescentes hospitalizados, desde 1991. Conta com 35 atores profissionais, que recebem treinamento específico. É a única organização do gênero no mundo a ter um Centro de Pesquisa e Desenvolvimento próprio. Desde 2002, firmou parceria com o Ministério da Saúde na área de formação profissional.

O filme é uma compilação de depoimentos que fomentam o interesse pelo tema. Tinha tudo pra chegar à pieguice, mas não chega. Poderia ficar no hermetismo teórico, mas não fica. Não cansa o espectador com exercícios e vocalizes de treinamento, tampouco abusa da comicidade e da tristeza dos leitos. Atingiu o ponto de equilíbrio certo que não deixa os relatos nem tão acadêmicos, nem tão pueris. Mara Mourão encontrou uma maneira interessante de intercalar as cenas de atuação do grupo nos hospitais, um ambiente em princípio frio e tétrico, com locações mais aquecidas, como parques. Os atores são documentados numa perspectiva totalmente fora de seu âmbito profissional, como andando de bicicleta, amamentando, tomando sol na praia. Aqui eles aparecem desmascarados, despidos das couraças interpretativas. São pessoas iguais a todo mundo, que também precisam se alimentar da vida pra continuar seu exercício de alegrar quem está entubado à base de quimioterapia.

Tendo como foco principal a trupe, autodenominada “besteirologistas”, há uma seqüência de divagações que procuram entender melhor o significado que cada um dá à sua profissão. Wellington começa falando que o clown é um arquétipo milenar da sociedade, personificado nas figuras do pajé, do bobo da corte (capaz de dizer as mais duras verdades ao rei sem ser degolado) e do próprio palhaço. Hoje, o fundador entende que a figura do palhaço não deve ficar restrita ao palco, ao circo, mas torna-se necessária em outras rodas, e o hospital foi a primeira iniciativa. Do ponto de vista dos atores, o palhaço é um subversivo, que não tem medo de dizer as verdades. Ao invés de esconder a personalidade criança, a indumentária espalhafatosa traz à tona um universo repleto de descobertas e novas perspectivas. Graças a essa capacidade de olhar as situações por um outro prisma, estabelece-se uma nova dimensão a questões inerentes à vida.

Como se fosse uma história de ação, o filme também revela os percalços desse cômico labor. As piadas prontas, o riso fácil, são condenados pela maioria. Pra eles, a pior coisa é ser um mau comediante. Eles têm a plena consciência de que seu trabalho não serve de anestésico, mas ajuda o doente a entender e conviver melhor com seu problema. É um trabalho de fazer graça, não gracinha. E o fato de se travestir de palhaço não significa necessariamente uma aceitação imediata da criança. Alguns acamados sentem medo, outros começam a chorar. Na análise do grupo, a porta do quarto de hospital é uma moldura, um meio de intercâmbio entre o mundo externo e o interno. Há muita coisa a se temer do desconhecido que vem de fora. Para o palhaço, a maior frustração é não causar o riso, é não se fazer perceber.

Para chegar ao rico campo que é a imaginação infantil, os Doutores da Alegria têm de passar por uma série de barreiras dentro do instituto farmacológico, como médicos de plantão, enfermeiras, atendentes. A câmera consegue captar a fácil interação entre uma ponta e outra. O grupo já entra “fantasiado” evitando resistências e trazendo desde o saguão a alegria do humor imprevisível. Cativam os funcionários, o que facilita o trabalho com os enfermos. Numa das falas, é dito que colocar o nariz vermelho é uma maneira de identificar que aquela pessoa está num outro campo interpretativo, que lhe permite fazer brincadeiras sem ofender o lado sisudo da verdade. É como se o nariz de palhaço fosse o crachá de identificação dos besteirólogos. Um dos chefes do Hospital das Clínicas admite que este ambiente deve ser asséptico somente do ponto de vista bacteriológico, o que comprova que hoje há uma aceitação maior em relação ao que era considerado antigamente uma macumba de hospital.

“Doutores da Alegria” é um filme que evita os histrionismos e os apelos fáceis. Há um cuidado em relação à descontração e ao improviso sem deixar a coisa mambembe. Tanto no espectro de quem atua quanto de quem filma. Ainda bem que Mara Mourão acertou a veia, encontrando muita verdade nesse universo que parece de mentira.

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