CONTROL:


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Original: Control
País: Reino Unido / EUA
Direção: Anton Corbijn
Elenco: Sam Riley, Samantha Morton, Craig Parkinson, Joe Anderson, Nigel Harris, Nicola Harrison, Toby Kebbell, Alexandra Maria Lara, Matthew McNulty
Duração: 121 min.
Estréia: 23/05/2008
Ano: 2007


Filme traz vida de Ian Curtis de forma objetiva e sem culto à idolatria pop


Autor: Fernando Oriente

Raramente o cinema é capaz de transportar para a tela a vida de um ícone do rock e dar ao personagem uma densidade que rompa com o culto e com a idolatria que limitam seu aspecto humano. “Control”, primeiro longa dirigido pelo fotógrafo holandês Anton Corbjin, é um filme que explora sentimentos sem ser sentimentalista e trata de forma objetiva da vida e da morte precoce do poeta e líder do Joy Division, Ian Curtis, que se suicidou aos 23 anos de idade em 1980. O longa tem o mérito de retratar passagens da vida de Curtis, bem como reconstituir o ambiente em que viveu, sem se preocupar em dar explicações ou elaborar teses sócio-psicológicas a respeito de seu destino trágico.

Curtis, muito bem recriado pelo ator Sam Riley, carrega um sentimento de não-pertencimento que provoca um desconforto em sua existência. Sente-se deslocado, estranho ao mundo vive e em suas relações com tudo e todos. Sua angústia é extravasada em suas poesias, em sua presença no palco e na maneira de se colocar diante da realidade que o cerca. O que Corbjin põe na tela é um homem frágil, retratado sem glamorização.

A fotografia em preto e branco ressalta a sensibilidade do personagem através de planos e enquadramentos bem compostos por Corbijin, dando ênfase à maneira como Curtis enxerga o mundo e como essa apreensão de tudo o faz um ser deslocado. Essa mesma beleza plástica que trabalha a favor do longa, às vezes parece um pouco “bonitinha demais”, e acaba por diluir de certa maneira o impacto das situações dramáticas. Fica a nítida sensação de um “exibicionismo formalista” por parte do diretor, que tem a capacidade de criar belas imagens, mas não tem talento suficiente para fazer com que elas sirvam como um elemento sólido na sustentação do filme como um todo.

A edição de som é, talvez, o maior destaque de “Control”. O filme alterna silêncios e ruídos com músicas do Joy Division e outros clássicos do rock da época. As canções são usadas de forma preciosa, servem de elo entre os planos e de pano de fundo para as situações e emoções que os personagens vivem na tela.

Ao contrário de muitas cinebiografias de astros da música, que procuram colocar as canções, discos, shows e os aspectos excêntricos e excessos de seu estilo de vida “alternativo”, “Control” centra-se em um personagem bem composto, mostrado nas várias camadas de sua personalidade. É um filme onde o personagem está no centro na narrativa, seu lado humano e seus dilemas existenciais. O Joy Division é apenas o pano de fundo que pontua uma narrativa conduzida com sensibilidade pelo diretor Corbjin.

Outra boa opção é abordar e contrapor os dois relacionamentos amorosos que marcaram a vida de Curtis. Sua vida com a mulher Debbie é pontuada por uma cumplicidade e um companheirismo que faz dos dois mais amigos do que amantes. Ela se mostra compreensiva, capaz de entender o deslocamento dele no mundo, a intimidade entre eles faz com que ela seja um porto seguro para seu espírito melancólico. É uma personagem que se anula, sofre por amor e pela necessidade de dar ao marido uma paz que ele não consegue encontrar. Já a aspirante à jornalista Aniki provoca o desejo em Curtis, ela o atrai como mulher independente, tem uma força que nem ele nem Debbie aparentam ter.

Desse conflito de sentimentos entre a mulher e a amante surge uma culpa em Curtis que faz com que ele perca ainda mais o frágil controle. Ele não consegue suportar a sensação de não-pertencimento ao mundo, não encontra respostas em nada, nem nos relacionamentos, na banda, no sucesso e nem mesmo em suas poesias e letras.

Como trata-se da história do vocalista de uma banda seminal do rock inglês, duas seqüências do filme usam de forma competente o potencial dramático e a beleza das músicas do Joy Division. “Love Will Tear Us Apart”, maior sucesso do grupo, entra de pano fundo na cena em que Ian e a mulher resolvem encarar o arruinado casamento e “Atmosphere” fecha o filme dando carga emocional ao capítulo final da vida de Curtis.

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