LUZ SILENCIOSA:


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Original: Stellet licht
País: México, França, Holanda
Direção: Carlos Reygadas
Elenco: Cornelio Wall Fehr, Miriam Toews, María Pankratz, Peter Wall, Elisabeth Fehr, Jacobo Klassen
Duração: 127 min.
Estréia: 23/05/2008
Ano: 2007


A “Luz Silenciosa” que expõe as feridas e oferece redenção


Autor: Fernando Oriente

O primeiro plano de “Luz Silenciosa” começa com a tela escura. Notamos que a câmera enquadra o céu noturno, aparecem algumas estrelas e a câmera passa a mover-se. Lentamente o quadro se ilumina, percebemos algumas árvores e vagarosamente surgem no plano fundo as primeiras luzes de uma aurora que irá iluminar toda cena e explicitar a amplitude e a vastidão do cenário onde o filme se desenvolverá. É um começo visualmente poderoso, em que a noção de espaço associa-se imediatamente ao conceito de tempo que irá marcar o longa. É exatamente esse tempo, lento e sensível, que foge de uma concepção tradicional, que é sentido na seqüência seguinte, quando vemos em ângulos fechados os rostos dos primeiros personagens a entrar em cena.

O novo filme do diretor mexicano Carlos Reygadas aborda uma comunidade de menonitas (grupo de protestantes de origem européia que vive em semi-isolamento do resto da sociedade preservando seu cotidiano rústico e seu estilo pacífico, pelo menos aparentemente, de levar a vida). Esse universo serve de micro-cosmo para o cineasta apresentar um estudo sobre os conceitos ético e morais do mundo judaico-cristão, além de tratar de temas como a dor, a angústia e a impossibilidade de agir. As noções de moral, ética, bem como do conservadorismo e da hierarquia familiar são postas em cheque pela ótica de Johan, quando ele se vê apaixonado por outra mulher. Na amante ele encontra uma válvula de escape em que pode fazer aflorar seu desejo e romper sua inércia existencial e a incomunicabilidade na qual está encerrado em sua pacata vida familiar.

Com fortes ecos do cineasta russo Andrei Tarkovski ao longo do filme, Reygadas mostra seus personagens presos a uma imobilidade em que a amargura e a dor interior são recalcadas dentro de um distinto desenrolar do tempo. Os planos lentos, construídos com belos enquadramentos e sutis movimentos de câmera, envolvem o ambiente dessas pessoas num sufocante andamento do tempo cíclico que parece impossível de ser rompido. Romper com toda essa atmosfera seria uma forma mais autêntica de entrar em contato com sentimentos que esses tipos humanos estão condenados a manterem reprimidos.

O amor em “Luz Silenciosa” vem sempre associado à dor. As situações amorosas, o ato físico e os toques entre Johan e a amante são doloridos, cheios de melancolia. O prazer vem sempre ligado à culpa. Eles fazem parte de uma comunidade que tem em sua essência a busca por uma vida tranqüila, serena. Essa necessidade de viver em harmonia faz com que a amante de Johan afirme, ao tentar romper com a relação dos dois: “A paz é mais forte que o amor”. Eles dizem que não se arrependem de nada, mas o que realmente queriam era não se arrepender, não viverem com uma culpa quase insuportável de carregar.

O envolvimento dos personagens com a terra, sua ligação com a natureza que os cerca é muito bem inserida no longa. É uma das molduras para Reygadas abordar temas clássicos com um tratamento complexo e profundo, onde dá muitas texturas aos personagens e aos dramas que encena com muita sofisticação estética. A fotografia de Alexis Zabé é de uma beleza que impressiona, da mesma forma que se impõe com discrição no tratamento da luz e na composição cromática dos planos.

A luz que dá título ao filme vai lentamente se tornando mais clara, vai vagarosamente deixando tudo mais nítido e explícito. Passa a inundar o ambiente e com isso revela o interior em conflito dos personagens. Em algumas das seqüências finais, essa luz assume uma brancura extrema que chega a impor uma atmosfera metafísica ao ambiente. Essa claridade é tão forte que, ao penetrar a essência das pessoas que vemos na tela, provoca inusitadas ações que fazem com que elas sintam-se quase reconfortadas, além de abrir caminho para uma possibilidade de redenção, de um novo começo. A situação criada por Reygadas é complexa e dúbia; essas esperanças são contrapostas claramente a um vazio existencial que promete, apesar de tudo, não abandonar esses tipos atormentados.

Para fechar o filme, a câmera de Reygadas volta a encontrar o céu em meio à vasta natureza que compõe o cenário. Agora estamos no crepúsculo e a luz vai lentamente se extinguindo, até a escuridão dominar o quadro, cumprindo assim mais uma etapa em seu percurso cíclico dentro da complexa noção de tempo que pauta o longa.

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