CLEÓPATRA:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Júlio Bressane
Elenco: A
Duração: 117 min.
Estréia: 23/05/2008
Ano: 2007


"Cleópatra" - cultura e a lírica da língua.


Autor: Cid Nader

No press-release do filme "Cleópatra" há uma definição sobre Julio Bressane classificando-o como o "mais pessoal e experimental" dos cineastas brasileiros... Há aí – por conta de uma tentativa de diferenciação louvatória – uma simplificação, uma redução a um termo único, sobre a capacidade desse diretor. Se necessária mesma qualquer adjetivação, preferiria direcioná-la para o sentido da cultura evidente que brota do cinema dele. Se necessária mesma uma mono classificação, diria que é um diretor extremamente culto. Boa parte de seu pregresso como realizador indica que a pesquisa histórico-literária faz parte ostensiva do pré-preparo e do que nos é oferecido como resultado. Cinema "difícil" o que ele executa? Sim. E aí torna-se evidente que classificá-lo por unidade, por simplismo, reduz demais sua capacidade e, principalmente, ambição como artista. Difícil porque é um trabalhador extremamente autoral mesmo; porque confecciona arte respaldada por arte, - antecedida por ela como pré-requisito -; porque dentro desse autoralismo ele se dá o direito de não conceder muito – quase nada, na realidade – e edita filmes que exigem demais dos espectadores. Difícil até por opção própria, como se pensasse – e imagino que seja isso mesmo – que não interessa à sua pretensão um público que sente na sala cinema, assista, saia e vá jantar sem ter gastado qualquer caloria que seja por esforço mental.

Indo mais diretamente à sua mais recente "execução de dificuldade", me vejo diante de "Cleópatra", que possibilita pensar Bressane como um autor que aperfeiçoa a arte cinematográfica através da atenção bem direcionada a diversos quesitos da confecção fílmica. Ser "autor", por vezes, possibilita a dispensa – descuido – de alguns cuidados dos mais simples na confecção de um trabalho (por vezes com razão de ser, mas muitas outras como uma boa desculpa para que se passe por cima de uma certa atenção a estruturas que não deveriam ser descuidadas). A ver: Bressane consegue arrancar atuações tremendamente boas de atores que não levam muita fé do público cinéfilo mais exigente; Alessandra Negrini interpreta uma governante culta e poderosa de maneira por vezes até esplendorosa, por vezes emocionante (quando sai de seu pedestal de dominadora de parte de um mundo riquíssimo em cultura e antigüidade, para mostrar-se fraca por amor), por vezes hilária (aliás, o filme não se furta a executar passagens bem humoradas); é especialmente interessante perceber um Miguel Falabella (Júlio Cesar) extrapolando em atuação, tendo uma crise epiléptica pra lá de bem atuada, caindo aos pés (com maneirismos e caras corretíssimas) da Cleópatra culta que o arrebata pela similaridade de gostos por cultura e artes, indeciso (e passa isso muito bem para a tela) quanto ao futuro de seu senado e sua Roma dominadora, como somente modelos de expropriação dos dominados e corrupção interna; e mesmo na atuação mais "cafajeste" de Bruno Garica (Marco Antônio), fica evidente que o diretor consegue arrancar o perfil ideal de alguém que sempre primou pela liderança física, pelo esplendor por manifestações muito mais "mundanas" (e que por conta dessa disposição, diferente do jeito culto de Cesar, angariou também a paixão da rainha), pelos equívocos.

Continuando a falar desse "aperfeiçoamento e cuidado primário" com a arte cinematográfica, se faz bastante notável o cuidado cenográfico com que o filme é desenhado: um mediterrâneo bastante crível tomas as costas das imagens, camuflado inequivocamente pelo Atlântico do Rio de Janeiro; trechos do Forte de Copacabana não se pretendem como "exigidores" de imaginação extra por parte do espectador para serem compreendidos como "pedras" egípcias, e se nos oferecem como partes físicas "palpáveis"; as luzes, velas e incensos fazem todo o clima imaginário que vem impregnado nas mentes de quem já pensou algum dia nos "climas meio oníricos" daqueles tempos, naquelas bandas do planeta. Outro grande detalhe de cuidado estrutural é a excelência da fotografia: o responsável por ela é Walter Carvalho, e por conta dela manifesta-se um "fenômeno" que ocorre para fazer perceber quando um diretor tem o domínio de seu ofício; Walter entende do riscado – difícil negar – mas é acusado invariavelmente (e com razão) de padronizar filmes que fotografa com um padrão estético que se repete, com exagero de "glamour", despersonalização da obra...; Bressane consegue "domá-lo" aqui, e conta com sua capacidade para fotografar um filme que vai além do bom trabalho comum, reproduzindo em todas suas cercas de duzentas cenas, imagens fixas relativas à história da rainha do Egito (o diretor pesquisou em museus europeus, e angariou pinturas retratos, "cenas" importantes criadas secularmente por diversos artistas); o filme explode em grandes momentos imagéticos que lhe emprestam uma qualidade raramente conseguida.

E quando falo da pesquisa de imagens por parte do diretor com a intenção de confeccionar um trabalho belo mas com algo a mais do que isso, passo a "encerrar" no que tange à aula de como se "fazer filmes dentro do que o padrão comum exige", e volto a citar o diretor bastante autoral que impregna suas obras de cultura. Em "Cleópatra" Alessandra Negrini usa uma variação de sotaques que podem sugerir somente necessidade causar estranhamento. Mas aí vai-se a palavras de Bressane sobre o modo e as razões de seu filme e percebe-se que o que acontece mais especificamente é que ele retrata a rainha apaixonada, como mulher culta ao extremo, e que é uma poliglota que fala sete línguas: portanto, as variações de "sotaques" (por vezes executadas com um humor bastante interessante) significam algumas das línguas diversas que ela fala – daí perceber-se o momento em que Júlio Cesar "cai" por ela, quando de um sotaque estranho denota-se que estaria falando em Grego Antigo. Pela primeira vez a "história" é contada em português no cinema e o diretor faz disso um evento em defesa das singularidades, propriedades e "líricas" de nossa língua. Utiliza-a como um dos motes que o teriam incentivado na empreitada. Esses "detalhes" resgatam a possibilidade de falar do autor que procura a cultura erudita como plataforma. Julio Bressane, também, recorreu a "Vidas Ilustres", escrita por Plutarco (nascido na Grécia no ano 46 DC) como a obra referencial do filme: "é a versão antiga de Cleópatra, glória daquela geração, e da mulher que tinha o domínio do sentidos".

O filme desvenda facetas da jovem Rainha disputando ferozmente o trono com o irmão; desvenda a rainha que se apaixona "fisicamente" por Marco Antônio (aliás, o filme é carregadíssimo por sensualidade latente); revela-a culta e protetora, defensora dos direitos dos judeus; revela a imperatriz culta e descendente de nobres especiais. Bressane cria um trabalho culto-autoral, para elevar a beleza da língua portuguesa e louvar um mito que parece ser muito maior do a história comum revela. E fecha todo o trabalho com uma cena linda, que está dentro de um filme forte, ousado, pouco fácil e também lindo.

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