BODAS DE PAPEL:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: André Sturm
Elenco: Helena Ranaldi, Darío Grandinetti, Walmor Chagas, Cleide Yaconis, Antonio Petrin, Angela Dip, Sérgio Mamberti, Imara Reis, Natália Lorda
Duração: 104 min.
Estréia: 16/05/2008
Ano: 2007


"Bodas de Papel", simples ou simplório?


Autor: Fernando Watanabe

Na maior parte das vezes, a atividade crítica mais interessante consiste mais em analisar e construir pensamento a partir de um filme do que propriamente de julgá-lo a partir de critérios qualitativos (é bom, é ruim, é fraco, é forte). Quando um trabalho se apresenta com extrema qualidade técnica, o crítico está disciplinado a não se impressionar com estes aspectos (fotografia, atuações) que constituem somente a base estrutural de um filme, base essa que, numa boa crítica, tenderá a ser menos enaltecida e somente constatada a fim de abrir espaço para uma verdadeira reflexão estética. Digamos que uma alta qualidade técnica (na fotografia, no som, na arte, na atuação) é o mínimo que todo cineasta deve atingir. Todavia, há casos em que, na experiência do crítico-espectador com o filme, o que primeiro salta à vista é a precariedade técnica do produto, uma forte impressão ruim que, infelizmente, passa da condição de sensação momentânea da sessão para ir adquirindo estatuto permanente na cabeça do crítico. Tal impressão acaba por guiar o crítico em seu esforço de análise de forma praticamente inevitável.

E é esse aspecto negativo que fica muito marcado ao se assistir Bodas de Papel. Atuações fracas, imagem ruim em textura e composição, instabilidade na construção de um universo fictício crível agravada por um ritmo narrativo cambaleante. Para algumas sensibilidades, existem elementos que até podem cativar e sensibilizar (de maneira sempre fácil), como o uso da voz em over no início, metáforas precárias como a da pipa e a filiação a uma certa fábula antiga e citação constante desta durante o filme, só para citar alguns.

Mas o que parece mais problemático no filme diz respeito ao casal protagonista. Falta crença da parte do filme e do espectador naquele casal e, mais do que “ausência de química” entre os atores, essa carência de Verdade parece resultado de uma concepção de roteiro demasiadamente simplória (não confundir com simples). Não é necessário esmiuçar cena a cena, mas, em resumo, o que se pode afirmar é que cada momento parece confeccionado de maneira absolutamente funcional a uma relação de causas e conseqüências por demais óbvia. Nada contra a obviedade (do cinema e da vida), os clichês sempre estão aí justamente para serem (re)trabalhados; mas, falta o “salto”, falta algo que pudesse fazer o filme transcender suas próprias obviedades. Falta a motivação do filme para ser um filme.

O que seria este elemento faltante? Maior cuidado com a linguagem, com o tempo das cenas, com o ritmo e, principalmente, falta a habilidade de gerar sensações. E não está se falando aqui de música bonita ou da generosidade humana de supermercado (ambos elementos bem presentes no filme), mas, sim, da percepção de que o cinema possui um aspecto sensorial, de imersão. Por mais que se queira contar uma história, deve haver algum motivo para que ela seja realizada em filme cinematográfico e não em outro meio. Bodas de Papel chega a contar sua história (evidentemente bem planejada pelo roteiro), mas parece prescindir de ser um filme. Nesse sentido, câmeras na mão desleixadas, confusão nos eixos de montagem e o uso abusivo de telas pretas como pontuação (denunciando a falta de planos que fizessem as passagens entre as cenas) em nada ajudam a experiência de se assistir ao filme.

Bodas de Papel é mais um exemplo de idéia mal transposta para o cinema. Mais um exemplo, não de incompetência, mas de aparente descaso com questões cinematográficas, descaso com as imagens. Pode-se dizer que é um filme ingênuo. Tal ingenuidade reside no fato de que suas boas idéias e intenções são extremamente evidentes, mas aparecem desprotegidas, nuas, devido ao não-suporte de um pensamento formal consistente (parece óbvio, mas cinema é uma forma). Se o que importa é a execução e o resultado, Bodas de Papel pode ser considerado um filme fraco.

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