O ÚLTIMO BANDONÉON:


Fonte: [+] [-]
Original: El Ultimo Bandoneón
País: Venezuela/Argentina
Direção: Alejandro Saderman
Elenco: Documentário
Duração: 94 min
Estréia: 09/05/2008
Ano: 2005


Há uma outra busca na intenção verdadeira


Autor: Cid Nader

Em tempo de busca quase desesperada de explicações sobre o que é verdade quando o assunto se trata de documentários, sobre o quanto é direito dos diretores interferirem na suposta história (ou fato) narrada ao espectador, sobre o quanto pode-se considerar documental um trabalho que foi roteirizado antes (sem falar na edição que corta qualquer possibilidade - pela lógica inerente de procedimento – de pureza factual incontesti), e sobre o quanto é óbvio que tal linguagem trafega paralelamente próxima à absolutamente ficcional, estréia num momento interessante o lançamento desse trabalho argentino lá do distante ano de 2005.

"O Último Bandoneón" é dirigido pelo documentarista argentino Alejandro Saderman e surge trazendo como mérito interessante a discussão dos limites que deveriam ou não enquadrar uma obra designada como documental. Sem estender demais essa questão que abordo quase que invariavelmente a cada documentário tratado por mim aqui no site, o que consegue o diretor é um contraponto interessante à jornada incansável de nosso maior diretor do gênero, Eduardo Coutinho, que culminou com o "monstrengo" (hibridismo seria muito pouco como designação) ilusório que é o bom "Jogo de Cena" - porém, enganador. Tomando como ponto de partida o fato de uma "garota", Marina Gayotto, ir a Buenos Aires na tentativa de ser aceita na formação de uma orquestra de tangos formada por jovens músicos, pelo maestro Rodolfo Maderos, o diretor na realidade acabou por concretizar um trabalho que se faz (obviamente com intenção disso mesmo) de viagem antropológica pelo verdadeiro "Mundo Tango" que habita a alma e as localidades físicas portenhas.

O que fica bastante marcado após essa viagem por esse mundo muito particular é que os argentinos ainda mantém uma ligação com um passado mais dourado, mais glorioso, de um modo muito forte e nítido. Há um saudosismo indisfarçável na alma do povo de lá. Mas a saudade não se situa num patamar puramente emocional – no cérebro, ou alma – e sim nos vestígios sólidos que o filme vai revelando serem em grande quantidade ainda existentes. A câmera um tanto nervosa e um tanto mal "enquadardora" de Saderman percorre salões de baile – freqüentados por alguns turistas, sim, mas se notarmos com mais atenção basicamente por argentinos saudosos mesmo -, locais onde velhos tocadores de tango se reúnem para executar suas músicas, lojas que consertam instrumentos, locais que vendem instrumentos também, e uma boa gama de pessoas (quase sempre mais velhas, como se a capital fosse um recanto de idosos bem cuidados e felizes) que retratam com seu comportamento natural frente às câmeras o modo de ser meio italianado da população local.

Para criar um modo, uma razão de ser, dessas revelações "antropológicas" é que o documentário escapa mais do que nunca do que se imaginava antigamente como incorruptibilidade de informações e captações destas, revelando-se ostensivamente roteirizado. Há a busca de um instrumento de mais qualidade (um Doble A, uma espécie de Stradivarius dos acordeóns) por parte de Marina, como modo necessário de ser aceita na formação da nova orquestra. Nessas buscas as câmeras aguardam a instrumentista já dentro dos estabelecimentos e as figuras buscadas por ela fazem "carinha de surpresa" - há essa tentativa da dinamização que busca a empatia mais facilitada junto ao espectador. Não vejo mal nessas pequenas atitudes, só vale lembrar que fazem parte de um movimento quase que unânime, mundialmente, nos últimos trabalhos que tenho visto. Saderman não extrapola, não omite sua intenção e não tenta inventar demais através da utilização desses recursos e isso é um ponto positivo para o filme. Junto com a busca antropológica, essas intervenções dão ganho à obra.

Mas as falhas de enquadramento, uma má fotografia, a tal da câmera nervosa e o assunto real em si – que, imagino, não deva ser de tanta apreciação para o nosso gosto – não permitem dizer que seja um trabalho imperdível. Simpático, sim, mas só.

Leia também: