SPEED RACER:


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Original: Speed Racer
País: EUA
Direção: Andy Wachowski e Larry Wachowski
Elenco: Emile Hirsch, Susan Sarandon, Christina Ricci, Matthew Fox, Scott Porter, John Goodman, Richard Roundtree, Benno Fürmann, Hiroyuki Sanada, Christian Oliver, Cosma Shiva Hagen, Paulie Litt
Duração: 129 min.
Estréia: 09/05/2008
Ano: 2008


"Speed Racer" – a volta por cima dos irmãos Wachowski


Autor: Cid Nader

Quando penso num filme realizado com a assinatura dos irmãos Andy e Larry Wachowski, nem tenho como negar que maus pressentimentos me assaltam a mente. Quando concretizaram a trilogia "Matrix", marcaram de modo negativo a história das novidades técnicas advindas do avanço quase inacreditável da computação gráfica, criando uma obra que parecia estar gritando: "o que importa é esse avanço tecnológico, vejam; no fundo, no fundo, a ilusão tem que prevalecer e âmagos e essências são algo descartável, ou manipulável para enganar quem queira ser enganado". Quando soube que estavam envolvidos na transformação do ícone televisivo que era o desenho seriado "Speed Racer" (um verdadeiro caso de produto japonês americanizado) num produto para o cinema, pensei sem pestanejar: "pronto, acabou a era das belas transposições de linguagens (desenhos clássicos que viraram filmes, com protagonistas de carne e osso, inclusive) que vinham sendo realizadas nos últimos tempos, com um entendimento quase sempre superior das possibilidades humanas que habitavam o interior dos personagens desenhados, que resultaram verdadeiros clássicos recentes ("Homem Aranha", "Hulk", "Superman"...).

Há uma diferença básica entre os exemplos que citei acima e "Speed Racer" (ou "Mach Go Go Go", título original japonês, ainda em formato Mangá no início dos anos 60, criado e ilustrado por Tatsuo Yoshida, que em seguida transformou os traços na tal sequência de episódios televisivos, até vê-los adquiridos pela produtora americana Trans-Lux, que americanizou o produto, modificando o nome original para o atual e mais conhecido, modificando também o nome do carro – antes Mach Go, depois Mach 5 – e transferindo o foco original da história que girava bem niponicamente em torno do carro, ao modo mais ianque possível, passando a valorizar o personagem humano central e sua relação familiar): enquanto os desenhos clássicos sempre foram bem vistos como obras de real valor plástico/artístico de nível superior, ainda mais por terem sido difundidas por traços (desenhos fixos em páginas de papel), Speed surgiu para o grande público mundial como uma inovação no mundo do traço não fixo (o animado), que parecia meio tosco e imóvel demais se comparado à tradição de animação americana, com cores primárias vigorando ostensivamente, por exemplo, e sua essência também parecia mais superficial, muito mais ligada a um exibicionismo estético/futurista/violento e muito menos densa nas complexidades interiores.

Mas aí vem esses dois irmãos com sobrenome polonês (os Wachowski), com "Matrix" no currículo como maior referência - um grande exemplo do ode ao nada, ao vazio conceitual, ao exibicionismo estético de novas possibilidades técnicas como soterrador de idéias a serem desenvolvidas como o ideal de um produto de arte -, e surpreendentemente arrancam "alma" de onde parecia nem existir, além de se manterem fidelíssimos à excelência no modo de uso da computação gráfica. O filme "Speed Racer" explode na tela com a abundância (reverência?) das cores primárias utilizadas no modo TV. Os diretores usam e abusam delas, parecendo entender uma importância mais introspecta desse aspecto formalista na obra original. Mas aliam (ou adrenalizam) a essa explosão de cores simples um refinamento de 3D impressionante, jogando seus personagens e bólidos num mundo futurista sessentista que não deixa dúvida de que o "futuro" já existiu lá atrás mesmo. Só que: como dispensar esse excesso de imaginação vanguardista com a possibilidade de retratá-la, finalmente, na tela grande através dos recursos que a computação gráfica empresta de maneira cada vez mais generosa? Eles não dispensam, usam e abusam – com tremenda competência – e mais, já começam a descobrir a tal "alma arrancada sabe-se lá de onde" com uma interessante mistura de singelidade, quando mostram as primeiras imaginações do futuro corredor Speed Racer (ainda na vida adolescente interpretado por Nicholas Elia) transmitidas através de primários desenhos feitos à mão com lápis preto; ou quando subdividem a tela com imagens que giram, remetendo a lembranças, ou a idéias, ou a planos, como se fossem "truques" dos mais antigos utilizados pela arte cinematográfica. E tudo se mostra complexo, quando constatado que imagens saudosistas de pistas parecidas às dos antigos autoramas, podem significar o mais moderno "impensável" visual, representando as utilizadas nas corridas disputadas no filme.

E se esse "Speed Racer" deles já passou a angariar minha simpatia pela diversidade e alternância estética, avançou mais ainda com o transcorrer da película e sua história sendo contada. Não a história em si, que na realidade repete o "chavão" do herói, Speed (adulto, Emilie Hirsch) que tem que ir a uma disputa de rali para tentar salvar os negócios da família (sempre ligados à construção artesanal de carros de corridas), e também como tentativa de desmascarar uma grande potência econômica que utiliza de todos os meios possíveis para faturar – logicamente os mais excusos e violentos. Mas dentro desse simplismo de história sugerida, em suas sub-compreensões, começa surgir a força da "alma arrancada" essencial do empreendimento no formato cinema. A defesa da empresa familiar nos envia automaticamente ao eterno "drama" americano que é o da valorização da instituição familiar. No início dessas tentativas o filme até derrapa, pois passa uma primeira impressão – nunca muito agradável, na realidade – de que tudo tem de girar em prol do núcleo, a qualquer custo, e que esse núcleo tem de ser, além de fechado, formatado dentro dos padrões mais rigidamente conservadores: a mãe (Susan Sarandon) cozinha e cuida dos filhos, o pai é severo trabalhador e só pensa nos seus, a namorada Trixie (uma Christina Ricci surpreendentemente magra) está sempre presente... Mas o simplismo sucumbe com o avançar linear e, como se fosse intencional, o entorno passa a se imiscuir no núcleo, e a força das imagens passa a focar os paralelos, como Sparky (Rick Gurry) o eterno ajudante da oficina e meio filho-adotado, ou o dilema de Taejo Togokhan (Rain) e o de sua irmã. Toma bastante corpo no imaginário da família – como um fator perturbador bastante amadurecedor do filme - a morte do primogênito Rex (Scott Porter), as razões, os por quês; e o simplismo toma ares de emoção pura com o surgimento cada vez mais decisivo do misterioso Corredor X.

A obra ganha muito com os momentos bem delineados dos vilões – bem desenhados, com particularidades próprias. Dentro desse quesito surge um grande momento de luta entre mocinhos e bandidos, engraçado e ao mesmo tempo muito bem desenvolvido. A obra ganha muito, também, quando transfere parte de sua narrativa ao modo mais "modernamente ancestral" de narração que é o dos locutores: parece que os irmãos Wachowski perceberam que a tradição americana recente vem bastante amparada na criação dos meios midiático/eletrônicos (o rádio, a princípio, e a TV) como uma maneira de aglutinação da família sob o mesmo teto protetor, e o quão importante os narradores esportivos se tornaram nesse sentido. O filme investe bastante na imagem dessas figuras, amplia para o mundo – há narradores de toda parte, como no desenho original, mas sempre lembrando que mesmo na obra japonesa a fixação por eles já vem copiada da admiração por americanismos – e chega a ter momentos de emoção gritados em diversas línguas.

"Speed Racer", o filme, dá bastante espaço para a dupla Zequinha (o chimpanzé da família) e Gorducho (o irmão mais novo) criando momentos infantis pra lá de necessários, já que o filme, apesar de variadas possibilidades, se presta perfeita e justamente ao entretenimento infantil. Chegando a um momento emotivo superior quando da singeleza da fala da mãe ao filho Speed, que num momento de angústia questiona-se a si e à sua opção como piloto, recebendo em troca palavras que comparam seu modo de pilotar a grandes pinturas, a movimentos de um grande artista (vale mais a pena conferir do que repetir aqui em palavras escritas).

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