O SONHO DE CASSANDRA:


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Original: Cassandra’s Dream
País: EUA/INGLATERRA
Direção: Woody Allen
Elenco: Ewan McGregor, Colin Farrell, Hayley Atwell, John Benfield, Jim Carter, Philip Davis, Sally Hawkins, Tom Wilkinson, Mark Umbers, Andrew Howard, Clare Higgins
Duração: 108 min.
Estréia: 30/04/2008
Ano: 2008


"O Sonho de Cassandra": Woody Allen volta ao drama em tons de tragédia grega


Autor: Fernando Oriente

“O Sonho de Cassandra”, o novo filme de Woody Allen, traz o cineasta americano no melhor de sua forma, longe das comédias que o consagraram, mas próximo de alguns de seus melhores filmes com “Crimes e Pecados”, “Maridos e Esposas” e “Match Point”. A complexa formação cultural e intelectual de Allen, um dos artistas mais sofisticados de sua geração, serve para uma trama inteligente em que aborda temas como ambição, culpa, fracasso e, ao mesmo tempo, apresenta uma criativa releitura da tragédia grega, na qual o destino trágico dos protagonistas já está determinado.

Woody Allen domina como poucos a arte da construção de paródias. Não apenas no significado corriqueiro de sátiras, mas no sentido da elaboração de releituras dos mais diversos temas, da comédia ao drama, com muita densidade e criatividade. Em suas requintadas paródias, o cineasta nova-iorquino, utiliza suas referências, eruditas e populares e mistura com talento conceitos de arte, crítica social e, sem dúvida, variados elementos da psicanálise.

Em “O Sonho de Cassandra”, Allen constrói o drama, a tragédia anunciada, de dois irmãos que movidos pela ambição e a necessidade de fugir de uma vida de fracassos, embarcam em uma trama crime. O limite da ética das ações é rompido pelos protagonistas e uma sucessão de fatos incontroláveis é desencadeada, fugindo totalmente do controle dos dois e provocando as inevitáveis conseqüências. A culpa e o castigo, temas caros ao cineasta, são novamente colocados em cena. Vemos nitidamente a dialética woodyalliana em que a tragédia grega e suas implicações dialogam com os conceitos de Dostoiévski sobre o caráter sombrio da alma humana e o preço que a existência cobra pelos atos cometidos.

A culpa é, mesmo que inconscientemente, um prenúncio da inevitável punição que se aproxima. Enquanto um dos irmãos (Colin Farrell) é incapaz de conviver com o peso de seus atos, o outro (Ewan McGregor) mostra uma aparente capacidade de superar o impacto do que fez. Mas o destino da dupla, do qual eles não têm como fugir, será o mesmo; a pequenez do homem diante do universo e de suas leis inexoráveis é nítida, a punição é uma certeza.

Allen mostra, como sempre, total domínio de todos os elementos do filme. O ritmo da construção e sucessão dos planos é primoroso e, ao mesmo tempo, conduzido com a discrição e o charme estético tão característicos nos longas do diretor. A capacidade de imprimir textura dramática às cenas que compõe e aos personagens que cria é uma das principais marcas da sofisticação de seu cinema.

Pela segunda vez em sua carreira, Woody Allen conta com a colaboração do fotógrafo Vilmos Zsigmond (que já assinou a fotografia de filmes de Brian De Palma e Michael Cimino), que mantém o requinte visual comum aos longas do cineasta. A cidade de Londres é novamente o cenário e, como em seus dois últimos filmes, Allen filma a capital inglesa com o mesmo talento e carinho com que fez ao longo de sua obra com Nova York, o que demonstra o apreço que dá ao ambiente em que desenvolve suas tramas.

O suspense é elemento constante em “O Sonho de Cassandra”, ele permeia as ações e está presente em quase todas as seqüências. A música de Phillip Glass é muito bem utilizada como suporte e agente construtor deste suspense, o que evidencia o quanto Allen trabalha com precisão os detalhes que compõem o todo de seu filme.

O talento na direção de atores, marca registrada de Woody Allen, está presente na atuação de todo o elenco, de Ewan McGregor e Tom Wilkinson a estreante Hayley Atwell E fica ainda mais evidente na excelente presença de Colin Farrell, que vem se consolidando como um dos melhores atores de sua geração. Após um começo marcado por papeis insignificantes em filmes fracos, Farrell tem tido oportunidade de mostrar seu talento e sua capacidade de escolher grandes papéis em filmes de peso, como “O Novo Mundo”, de Terrence Malick e na obra-prima de Michael Mann, “Miami Vice”.

Na comédia ou no drama, oscilando entre grandes filmes e alguns menores, Woody Allen é sem dúvida um dos maiores cineastas americanos da história. Seus filmes têm o poder agradar aos mais diferentes grupos de cinéfilos, além de ser uma excelente porta de entrada para aqueles que querem conhecer e se aprofundar no que o cinema tem de melhor. “O Sonho de Cassandra”, embora não deva ser incluído entre seus principais trabalhos, é um belo exemplar do talento do diretor.

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