ROMANCE DO VAQUEIRO VOADOR:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Manfredo Caldas
Elenco: Documentário
Duração: 71 min.
Estréia: 25/04/2008
Ano: 2007


Filme coloca em cheque o deslumbre ainda existente com a capital federal


Autor: Marcelo Miranda

O “Romance do Vaqueiro Voador”, produção brasiliense dirigida por Manfredo Caldas. É uma espécie de documentário dramático focando as dificuldades impostas aos nordestinos que se deslocaram para o cerrado e buscaram trabalho na construção de Brasília, no final dos anos 50. Luís Carlos Vasconcelos aparece o tempo todo, representando o tal vaqueiro voador do título e recitando o poema de João Bosco Bezerra Bonfim, no qual o filme se baseia. Em meio às aparições, o espectador acompanha depoimentos e imagens dos candangos, os tais homens responsáveis pela criação da cidade.

O filme, em si, é bastante estranho – no mau sentido. Caldas parece preocupado demais em documentar a própria experiência de documentar e se coloca diante da câmera interagindo com seus depoentes ou andando com Vasconcelos durante as filmagens. Não que isso seja um problema, mas, como ficou, não parece de acordo com as propostas do projeto. “Romance do Vaqueiro Voador” cresce exponencialmente quando coloca em primeiro plano a fala de antigos candangos relembrando o processo selvagem e o dia a dia desumano na labuta que era erguer Brasília. Há momentos de impacto, como quando um deles diz que, por não existir cemitérios na região, os trabalhadores que morriam durante o expediente eram enterrados ali, na obra mesmo – abrindo uma perspectiva funesta e irônica de que Brasília está plantada em cima de corpos putrefatos.

Aliás, a morte dos candangos é o tema mais frisado no documentário. Muito se sabe que as condições de serviço impostas a centenas de homens não eram das melhores, mas poucas vezes se viu isso com tamanha voltagem. Diz-se, no filme, que morriam de três a quatro empregados por dia. Houve revoltas contra a qualidade da comida servida. As autoridades, para manter a ordem, metralhavam quem se rebelasse. Os sobreviventes dessa época infernal falam com dor e mágoa – um deles chega a dizer que “a obra em Brasília foi a pior obra que já se teve notícia”.

Se “Romance do Vaqueiro Voador” não é um trabalho de grande destaque cinematográfico, ganha crédito por colocar em xeque o deslumbre ainda existente com a capital federal. Deixar de lado todo aquele papo de arquitetura moderna e cidade à frente de seu tempo. Para Manfredo Caldas, importa o aspecto humano (ou desumano) do processo.

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