FÔLEGO:


Fonte: [+] [-]
Original: Soom
País: Coréia do Sul
Direção: kim ki-duk
Elenco: Chang Chen, Ha Jung-woo, Park Ji-a
Duração: 84 min.
Estréia: 25/04/2008
Ano: 2007


"Fôlego": Kim Ki-Duk espanou


Autor: Cid Nader

Infelizmente parece que está definitivamente constatado: Kim Ki-Duk espanou. O cineasta coreano mais conhecido no ocidente – mas muito longe de ser o mais reconhecido como grande ou somente bom autor – parece que abalou de vez minha confiança no mundo; aquebrantou minha fé. Digo isso nesse tom um tanto acima do recomendável porque, enquanto muitos e muitos o acusavam de fazer um cinema vazio, sem direção ou algo realmente relevante a ser dito, eu o defendia como um dos autores de ponta de um cinema coreano que começava a surgir forte. Entendia que o choque causado por "A Ilha" estava muito dentro do que os cineastas do país vinham tentando exercer numa tentativa de revelar um povo com características um tanto fora do padrão normal da região. Em seus filmes posteriores continuei tentando crer nessa sua proposta do choque – os detratatores continuavam a bradar: "choque por puro exercício gratuito de estilo", "choque por chocar".

Quando lançou em 2003, "Primavera, Verão, Outono, Inverno... e Primavera Novamente", senti um baque debilitando minha defesa. Surgia com um filme que trafegava no sentido inverso do que vinha realizando até então, que propunha a contemplação, um mergulho num dos vértices pilar de sua civilização, o Budismo, recheado de um lirismo de imagens e tempos muito superficiais, na verdade, e que me fizeram saltar aos olhos, pela primeira vez, um dos cânticos difamatórios dirigidos à sua obra, que dizia da tentativa inequívoca de se mostrar folclórico ao mundo ocidental, mas por puro "folclorismo" como tentativa de agarrar almas que procuravam o novo. Ainda assim, teimoso, tentei perceber que alguma mudança estava em curso, e tropeções em novos terrenos têm que ser relevados – ao menos uma chance, vai.

"Casa Vazia", 2004 – mesmo ano de "Samaria" que remexia novamente no outro pilar da raça, o catolicismo deslocado geograficamente em excesso -, me encheu de orgulho. Senti e entendi que uma mudança havia sido tentada e estava lá, agora, com uma obra muito mais correta e pungente: era o filme que estaria definido a virada mal iniciada com "Primavera...". O filme era obra dupla, que iniciava com a discussão da desilusão dentro de um país complexo – como alguns traços esboçados em seu início de carreira -, mas que virava obra budista na essência. Quase que dividido ao meio. Compreendi como implicância as pedradas que o filme levou da mesma turma que sempre apedrejou seu realizador. Não me conformei e parti para o atrito em discussões sobre o filme. Passa o tempo, a vida continua, e eu na esperança de que Kim Ki-Duk viesse com um novo trabalho aprumado para me fazer dono das verdades.

E não é que o sujeito me surge com um dos maiores embustes da história do cinema, denominado por "O Arco", onde o exercício do vazio, do nada a dizer, nada a contar, do tudo a camuflar, da beleza imagética gratuita a serviço do zero (afora a musiquinha que se repetia "ad eternum"), se fazia de tal maneira ostensivo, que o que pude fazer em protesto, amargurado e ofendido em meus brios, foi romper de maneira forte e decidida com o antigo "amor". Romper dessa maneira é dolorido e pode nos fazer não enxergar mais qualquer virtude em quem um dia nos pareceu intocável. Mas romper dessa maneira, também, significa que vendas podem ter caído da frente de nossos olhos, e que o que enxergávamos antigamente através de olhar entorpecido, realmente não foi tão belo. Digo isso com um sentimento de medo, porque ainda tento crer na primeira fase do diretor, e mais, tento acreditar nas verdades de "Casa Vazia" – mas confesso que tenho medo de voltar vê-los; ao menos por enquanto.

Estranho esse meu texto sobre um filme, do qual ainda nada falei, e do qual realmente nada falarei. Não é necessário. Porque é obra de um diretor que se repete; que espanou. Que repete as falsidades de uma paixão que surge do nada mais como reação à traição ou a negligência, e que executa tal reação dentro de patamares narrativos insustentáveis. Que continua abdicando do uso da oratória, mas sem razão mais profunda para tal. Que usa signos manjados. Que se repete, gira em falso, sem nada de verdadeiro a ser contado. Com maneirismos que chegam a ser odiosos. Se falei o tempo todo tão na primeira pessoa, é porque me sinto mais ofendido dos que os que nunca se deixaram enganar.

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