OTÁVIO E AS LETRAS:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Marcelo Masagão
Elenco: Donizete Mazonas, Arieta Corrêa, Fábio Malavoglia, Heitor Goldflus, Victoria Camargo, Nilce Costomski
Duração: 83 min.
Estréia: 25/04/2008
Ano: 2007


"Otávio e as Letras": o roteiro e o filme.


Autor: Fernando Watanabe

Há uma cena que, se considerarmos somente o significado dela no conjunto do filme, é muito bela. Trata-se do momento em que, quase ao final, Clara vai ao apartamento de Otávio oferecer-lhe um bolo de cenoura e, ali, é celebrado o “encontro” entre os dois membros de uma par que se complementa (de maneira matemática!). Lindo momento, se pensamos somente nos sentidos ali construídos dentro do contexto do filme. Mas, ali, no momento da projeção do filme, a cena apresenta problemas de encenação que dificultam sua boa fruição, como se derrapasse ao invés de deslizar pelos nossos olhos. O que importa mais? A geração de significados e sentidos criados de maneira forçada pela linguagem? Ou a percepção sensorial imediata das imagens e sons que só pode ocorrer no presente da projeção? O questionamento acerca dessa cena pode ser estendido ao filme inteiro, que parece oscilar entre construir (e obstruir) os sentidos com mais ou menos eficiência artesanal.

No que diz respeito a informar o espectador e a fornecer pistas, Otávio e as Letras se comporta de maneira extremamente lacônica. Nada contra nem a favor de tal opção. No entanto, se obstruir a leitura de sentidos parece ser prioridade, é de se esperar que o filme ofereça qualidades positivas em aspectos cinematográficos outros - a plasticidade, o ritmo - ou então em uma concepção forte e sedutora de personagens. No entanto, a sensação geral que se tem é que o filme sonega os índices narrativos com orgulho, mas voa muito pouco além disso, ficando no meio do caminho entre “negar as explicações lógicas” e “criar sensações cinematográficas positivas”. Nem dá chão seguro ao espectador nem o convida a voar. Ao final, prevalece a sensação de que faltou “discurso” ao filme, quando, na verdade, essa impressão só existe devido a falta de uma experiência sensorial consistente que substituiria muito bem a demanda por articulações racionais.

O trabalho então fica limitado à elaboração de um enigma – nem tão enigmático assim -, a um jogo de esconder que pouco encanta por conter poucos atrativos no aspecto sensual cinematográfico. O ponto mais grave diz respeito à textura do filme. Imageticamente, a despeito da busca por angulações diferenciadas, o filme tem sérias dificuldades em manter as imagens como ponto de sustentação. O uso de um digital de baixa definição parece prejudicar um filme que em vários momentos necessita de um “clima” mais próximo do surreal e do lúdico. Portanto, a textura da imagem é muito crua, em descompasso com outros elementos (enquadramento, atores e som) que operam numa busca pelo estranho. Ruídos da realidade seca em um filme cuja lógica é a da estranheza artificial. Falta o efeito de crença na suspensão do real.

É necessário observar que esta crítica ao digital de baixa resolução empregado não leva em conta se tal suporte foi uma primeira escolha estética, ou se foi fruto das circunstâncias de orçamento e produção ou, ainda, se tudo foi resultado de uma pós - produção aquém das expectativas. O resultado, independente do processo, é soberano, e é somente ele que aqui abordamos.

Se o filme é um ensaio - na verdade, uma ficção subserviente ao ensaio -, sobre o que ele discursa? Com bastante evidência, o filme quer falar sobre a questão da Imagem e do ato de ver. Um discurso que busca menos chegar a conclusões do que mostrar ações e acontecimentos. Faz um uso mais ou menos funcional de seus personagens como peças do jogo. Esse esquematismo dos personagens é mais evidente quando se vê o taxista (devidamente munido com óculos fundo de garrafa) e a freira (que coleciona figurinhas de jogadores de futebol). Já o “casal” principal, por terem mais tempo de tela, ganham mais espessura enquanto seres vivos, principalmente nas cenas nas quais a disposição por afirmá-los enquanto solitários é nítida. Ganha-se muito ao não se explicarem os motivos de seus comportamentos insólitos, o que desvia o filme do motivo da patologia. Mas, pela precariedade de encenação em algumas cenas, fica menos o encantamento misterioso advindo daqueles seres do que a incômoda sensação de que a nós algo está sendo negado.

Analisar outros aspectos pontuais (positivos e negativos) poderia ser uma abordagem deste texto. Mas, por ora, me parece primordial essa questão do “bloqueio de leitura” que, infelizmente, se sobrepõe a todas as outras questões após uma primeira sessão do filme. Resta a impressão de termos assistido a um ensaio que a primeira vista soa intelectualizado e erudito, mas que depois se revela frágil e até apaixonado. Ao final, as boas intenções e essa paixão ficam escancaradas. Mas ainda como intenções, pois com pouco apuro na maneira de lidar com a linguagem fílmica, “Otávio e as Letras” deixa visível demais os sentidos (ou a ausência desses) que o roteiro procurou laconicamente construir justamente por não ter tais sentidos transmutados com habilidade em matéria fílmica.

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