O QUARTO VERDE:


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Original: La Chambre Verte
País: França
Direção: François Truffaut
Elenco: François Truffaut, Nathalie Baye, Jean Dasté, Patrick Maléon e Jane Lobre.
Duração: 98
Estréia: Reestréia
Ano: 1978


O Quarto Verde" - uma floresta de chamas pelos mortos


Autor: Cid Nader

Escrever a respeito de trabalho realizado por François Truffaut, requer um tanto de ousadia e muito de coragem. É dar palpite em relação a um dos mais respeitados críticos da turma de "Cahiers du Cinéma", avaliar filme de um dos grandes diretores da história do cinema.

Truffaut é um dos raríssimos exemplos de crítico - em qualquer setor de arte - que conseguiu materializar, com qualidade, seu conhecimento teórico. Mais importante ainda se torna tal materialização, pela sua extensão quantitativa.

Tem em seu currículo um invejável número de "obras primas", incluindo uma espécie de "saga épica", feita através dos anos, que acompanha o crescimento e amadurecimento de seu alter ego, Antoine Doinel.

O pessoal do Estação - com seu meticuloso e sistemático trabalho pelo não esquecimento dos grandes mestres, e criando um "tipo de curso" para cinéfilos através da exibição de obras completas deles - nos traz agora "O Quarto Verde", feito em 1978, que tem Truffaut como um jornalista do jornal Le Globe - "Julien Davenne" - e Nathalie Baye - "Cecília Mandel" - protagonizando os principais papéis.

Mais um belo trabalho. Estranhamente bom, por tratar-se de história bastante soturna, que aborda tema de adoração doentia pela morte. Na realidade, o jornalista Davenne, mantém uma espécie de ligação com a esposa, Julie, morta já há 10 anos - 1919, junto com o final I Grande Guerra. Ligação na qual a diviniza - adora - a ponto de fazer de seu quarto um enorme altar, com fotos, objetos e velas eternamente acesas.

Quando um amigo, Gerard Mazet, retorna casado, passados poucos meses desde que ficara viúvo, reage de maneira inconformada em conversa com seu chefe de redação, que rebate tal inconformismo com uma cobrança a ele, sugerindo que também procurasse um novo relacionamento e deixasse de pensar ostensivamente em Julie, ao que o jornalista retruca com uma frase lapidar: "nesse mundo cruel, quero ter o direito de não esquecer".

Não esquecer e uma certa revolta ante a reação de pessoas e igreja, que tentam diminuir o sentimento de perda usando para isso a "ilusão da ressurreição", determinam fortemente os traços da personalidade quase única de Davenne. Quase, pois encontra, num certo momento, Cecília Mandel, que passará a compartilhar, ao se identificar, suas angústias com ele.

François Truffaut não era um diretor de construir obras com surpresas e sobressaltos. Tinha muita intimidade com essa arte. Tratava-a com carinho e simplicidade. Simplicidade por ter o domínio do que fazia. Tem nesse um trabalho complexo do ponto de vista emocional, principalmente pelas vias de abordagem adotadas. Trata de misticismo quando, tanto Davenne quanto Cecíclia, relatam terem visto perto de si seus entes queridos no momento de sua morte, mesmo não estando presentes no local. Mostra as dificuldades de relacionamento com os outros; ele, por exemplo, mora perto de um garoto mudo e uma governanta que também pouco fala - não questionam e não cobram, muito apropriado. Há também o sonho maior, desejo inicialmente dele e posteriormente compartilhado com ela, que envolve uma velha capela destruída e o querer fazer com velas uma floresta de chamas para homenagear os mortos.

É um filme de belas e estranhas cenas: numa delas, construída de modo simples e singelo, a governanta - Mme. Rambaud - costura e ao fundo, do lado de fora , vemos o garoto que recebe uma carta das mãos de um padre. Noutra, emocionante, há um suceder de fotos e explicações: o alemão durante a guerra, um irlandês, um casal que foge para a Holanda ou um músico. Estranha a cena em que Davenne mostra slides com imagens de mortos, corpos destruídos e destruição para o garoto. Ou outra, na qual uma estátua é destruída, filmada do lado de fora, através de grandes janelas. Porém a grande, a que mistura o belo e o estranho, é a da floresta de velas, quando apresentada a Cecília. Todas criadas com o dedo e o olhar de Nestor Almendros.

Truffaut tinha um prazer, óbvio, em atuar em seus filmes, lembrando um pouco nisso um de seus grandes ídolos Alfred Hitchkock - que na realidade fazia aparições relâmpagos, um brincadeira de esconder.

Grande François Truffaut. Grande "La Chambre Verte". Grande idéia a sua se for assisti-lo.

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