FALSA LOURA:


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Original: Idem
País: Brasil
Direção: Carlos Reichenbach
Elenco: Rosanne Mulholland, Cauã Reymond, Maurício Mattar, Djin Sganzerla, Suzana Alves, Léo Áquilla, João Bourbonnais, Vanessa Prieto
Duração: 101 min.
Estréia: 18/04/2008
Ano: 2007


Reichenbach usa as potencialidades do cinema para mostrar como a realidade esmaga a fantasia


Autor: Fernando Oriente

Carlos Reichenbach é um dos cineastas mais passionais da história do cinema brasileiro, no melhor sentido da palavra. Artista de grande repertório cultural, Carlão trabalha diversos gêneros no mesmo longa e sempre agrega referências literárias, filosóficas e políticas a seus projetos. A música também marca forte presença em sua obra, com excelente uso das canções e da trilha sonora. Desde seus primeiros filmes na Boca do Lixo, no final dos anos 60, o diretor consegue transpor todas as dificuldades de fazer cinema no Brasil e levar para a tela suas idéias de forma criativa e original.

“Falsa Loura”, seu novo filme, é uma obra que dialoga o tempo todo com as potencialidades do cinema. O cineasta vai do naturalismo à fábula (quase “conto-de-fadas”) com total domínio de decupagem e ritmo. Novamente vemos os diversos gêneros sendo trabalhados: drama, comédia, musical e crônica social. Mas o que mais chama atenção no longa é a presença esmagadora da realidade destruindo as possibilidades de sonho e fantasia. A operária Silmara (vivida pela belíssima Rosanne Mulholland) está condenada a ter seus momentos de prazer (e de fuga da vida opressora que leva) solapados pelo peso do real.

O filme começa e termina com imagens do bairro proletário e pobre que a protagonista vive e trabalha. Carlão usa esse recurso para delimitar fisicamente o lugar em que a jovem operária está presa; por mais que sonhe, ela não tem como sair de lá. No plano de abertura, existe a fusão da imagem das casas simples com a de Silmara dançando ao lado de uma amiga. A câmera acompanha o movimento delas, vemos duas garotas bonitas e cheias de vida esbanjando sensualidade, fica clara a impressão que essas mulheres podem tudo, tem todo um caminho aberto para trilharem e “vencerem”. Já o plano final (um dos mais bonitos do cinema nacional nos últimos anos) acompanha, em um travelling de ré, a angústia e a tristeza no rosto de Rosanne Mulholland voltando, em um caminhar solitário, para a fábrica onde trabalha. Após ter passado por diversas situações, ter se iludido e enganado com falsas promessas de felicidade e momentos de prazer fugaz, ela é obrigada a encarar a realidade a que está acorrentada, e novamente Reichenbach faz a fusão dessas imagens com o plano aberto do bairro; com o “cárcere” de Silmara.

Carlão trata de temas sociais com sinceridade, o universo proletário, que sempre foi tão caro ao cinema brasileiro, é um terreno pelo qual o diretor caminha com segurança. Fica nítido como o cineasta ama suas personagens, suas trabalhadoras (como também pode-se perceber claramente em “Garotas do ABC”). São pessoas comuns, que se apaixonam, sonham e divertem-se com o pouco que tem, não existe nelas um rancor ou uma resignação que muitos olhares “piedosos” esperam encontrar em indivíduos de classes sociais menos favorecidas.

O tema do falso, da invenção de uma aparência ilusória na tentativa de se criar um significado irreal, também é crucial no longa. O simulacro, a construção idealizada de arquétipos é um dos elementos básicos do cinema e da ficção em geral. Carlão usa essas características para compor a válvula de escape de Silmara, sua arma para seguir em frente. Ela sonha com cantores, do jovem vocalista de uma banda de pop-rock (Cauã Reymond) até um interprete de músicas bregas (Maurício Mattar), que são seus “objetos de desejo” e promessas de felicidade. Reichenbach funde fantasia com realidade ao por a protagonista em contato direto (sexual no caso) com seus “príncipes encantados”. Em ambos as situações, os momentos de prazer da jovem são prontamente interrompidos por acontecimentos que a jogam de volta, de forma seca e até cruel, para seu universo em que estas possibilidades de felicidade são impossíveis. Principalmente nas seqüências entre Mattar e Rosanne, o cineasta cria um clima de fábula, quase um conto-de-fadas. Leva o espectador para um mundo artificial de beleza e romance para depois, de forma precisa e com muito talento, puxar o tapete do público e pôr a realidade sem perspectivas da operária de volta na tela.

Outra figura dramática importante de “Falsa Loura” é o pai de Silmara, interpretado por João Bourbonnais. Ao contrário dela, ele não tem mais esperanças de uma realidade melhor. Traz a amargura no rosto, convive com um passado de sofrimentos e frustrações. Abandonado por todos aqueles que ama, com exceção da filha, que além de morar com ele sustenta a casa com seu salário, ele decide sair de cena. Sabe que a jovem não vai ter seus sonhos concretizados, vê o destino que a aguarda, mas é incapaz de destruir suas esperanças. Para não fazê-la sofrer, decide retirar sua triste figura de seu cotidiano. É um personagem muito bem construído, que tem seu potencial no roteiro ampliado bela interpretação de Bourbonnais e pelo talento de Carlão na composição da mise-en-scène.

O elenco do filme, composto por atores e atrizes das mais distintas formações, é uma das melhores coisas de “Falsa Loura”. Desde a ótima presença de Djin Sganzerla, irreconhecível como a amiga feiosa de Silmara, até Suzana Alves, precisa na composição de uma colega de fábrica da protagonista, compõe um time afiado que é conduzido com maestria pela direção de cena de Reichenbach.

“Falsa Loura” é um filme sobre proletários, no sentido mais literal da palavra. Os tipos que aparecem durante o longa que não fazem parte desse universo de trabalhadores simples e pessoas abandonadas pela realidade do capitalismo, são mostrados de forma intencionalmente caricatural. Tanto o advogado, como a mulher que oferece um trabalho para Silmara fazem parte de um universo à parte dos outros personagens, são quase que onipresentes (mesmo que não se possa vê-los), mas ao mesmo tempo totalmente distintos deles. São representantes de um pequeno grupo de indivíduos que vivem de explorar, manipular e abandonar pelo caminho os sujeitos comuns que Reichenbach retrata com tanto carinho.

Uma presença no filme merece registro especial. O ator Bertrand Duarte (que já havia trabalhado com Carlão em “Alma Corsária” além de ter protagonizado a obra-prima de Edgar Navarro “Super-Outro”) faz uma pequena participação como um policial que interroga Silmara. A simples presença em cena de um ator do talento de Duarte não pode deixar de ser registrada e representa mais um mérito entre os muitos de “Falsa Loura”.

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O projeto político e estético de Reichenbach nunca foi desenvolvido com tamanha leveza e doçura