DIÁRIO DE UM NOVO MUNDO:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Paulo Nascimento
Elenco: Edson Celulari, Daniela Escobar, Marcos Paulo, Nicola Siri
Duração: 92
Estréia: 16/09/2005
Ano: 2005


Barbaridade


Autor: Érico Fuks

O que o deslumbramento não faz. Imediatamente após o Festival de Gramado, especificamente a volta com dois Kikitos pra casa, a distribuidora se entusiasmou com as glórias gaúchas e se apressou em lançar este filme comercialmente. Passada a euforia do momento, houve a necessária pausa para reflexão. O que antes era a certeza de sucesso poderia, com novos ângulos interpretativos, significar uma temeridade. Um naufrágio mercadológico, literalmente falando, por vários motivos. Em primeiro lugar, a crítica mais descontente lançou uma série de questionamentos sobre a seriedade deste tão badalado evento. E, embora tenha abraçado a estatueta de Melhor Roteiro, o mérito de seu outro troféu é um tanto quanto relativo. Afinal, ganhar o prêmio de Júri Popular um filme feito por gaúchos, para os gaúchos, sobre a história do Rio Grande do Sul é barbada, cá entre nós. Em segundo lugar, por mais generosa e abonada que seja a classe cinéfila, nenhum circuito agüenta o lançamento simultâneo de quatro filmes nacionais. Isso sem falar na achincalhação que fizeram com o campeão Gaijin e outros concorrentes a serem lançados em breve. Portanto, os donos do dinheiro foram menos emotivos e mais prudentes. Numa decisão de última hora, lançaram o filme no dia 2 de setembro em cidades estratégicas gaúchas, um mercado-teste que não oferece riscos, e deixaram os rolos na geladeira do resto do país até agora, colocando nas salas somente a partir do dia 16.

Mas o mais entristecedor não é falar da quantidade. Caso fosse lançado nacionalmente há duas semanas, os quatro brazucas somados não dariam um bom filme. Tirando o meia-boca Coisa Mais Linda, o melhorzinho de todos, Diário de um Novo Mundo se emparelharia com a execrabilidade pretensiosa de Gaijin e o grotesco e primário Coisa de Mulher. Tendo essas bombas como fonte de referência e comparação, talvez seja o que menos afunda.

Este longa-metragem de estréia de Paulo Nascimento tenta trazer um pouco da história da colonização do extremo sul do continente sul-americano, nas terras que hoje incluem Uruguai, Argentina e sul do Brasil. É um filme que, à sua moda confusa e parnasiana, retrata os conflitos e disputas territoriais da metade do século XVIII. Em 1748, o rei Dom João V determina que uma leva de seus súditos ilhéus, provenientes do Arquipélago dos Açores, emigre para o Brasil, em troca de um quarto de légua em quadro para cada família. Esse momento explica alguns dos traços da região meridional brasileira.

Em 1752, um navio com doentes e famintos cruza o Oceano Atlântico. Um dos passageiros, Gaspar de Fróes (Edson Celulari), médico e escritor, escreve seus diários relatando os percalços da viagem, a chegada ao Brasil, a luta entre as coroas de Castela e Portugal, a descoberta do amor. Ele se apaixona por Maria (Daniela Escobar), esposa de um influente militar português.

Sem pé nem cabeça e, principalmente, sem alma, Diário dá vários escorregões. Colocar o rock como trilha sonora num texto que em nenhum momento se pretende perverter as normas espaço-temporais é algo esquisito. E falar de amor em tempos de guerra, convenhamos, já deu o que tinha que dar.

Embora não seja tão equivocado quanto Gaijin, tampouco relaxado quanto Coisa de Mulher, esse filme esbarra em alguns supérfluos. Há um capricho um pouco mais acertado que os citados, uma cenografia minimamente cuidadosa. Mas a somatória decorativa à la novela das 6 deixa a coisa muito rococó demais. Apesar de tentar trazer registros históricos, em nenhum momento a fita passa situações críveis. Há mais verdade em Peter Pan ou Piratas do Caribe, pra se ter uma idéia.

Diário de um Novo Mundo não é daqueles filmes que erram feio. Mas também está longe de acertar. Faz questão de ocupar um vácuo cinematográfico com seu dadaísmo ensimesmado em idéias abúlicas e estilo febril. É um trabalho desbotado, apático, retrógrado, pronto pra chafurdar no ostracismo ao lado de tantas outras mediocridades que não sabem reinventar o cinema brasileiro.

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