ESTÔMAGO:


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Original: Idem
País: Brasil
Direção: Marcos Jorge
Elenco: João Miguel, Fabiula Nascimento, Babu Santana, Carlo Briani, Zeca Cenovicz
Duração: 113 min.
Estréia: 11/04/2008
Ano: 2007


A reiteração do brasileiro colonizado e primitivo


Autor: Anahí Borges

“O primeiro filme produzido em parceria com a Itália: “Estômago” é um filme brasileiro-italiano”, disse a produtora Cláudia da Natividade na apresentação da sessão duarante a Mostra Internacional de São Paulo em 2007. As relações entre Itália e Brasil, na área da produção cinematográfica, vem se estreitando a cada ano. Em setembro passado, o evento da 3ª Semana do Cinema Contemporâneo Italiano contou com exibições de filmes italianos realizados em 2006/2007 além de debates e encontros executivos na FIESP que visavam a negociações de co-produções entre os dois países. E justamente num contexto em que o estreitamento de laços comerciais entre Brasil e Itália se mostra beneficiário para ambas as partes no que diz respeito a novas formas e fontes de financiamento, além da expansão do mercado consumidor, “Estômago”, como pioneiro neste processo, surge nos apresentando os estigmas culturais de ambas as nações. Um filme conservador, com personagens caricatas em situações burlescas com pitadas de crítica social. Nem comédia italiana, nem pornochanchada: “Estômago” é uma comédia grotesca que trabalha códigos culturais cristalizados e reitera ao espectador o imaginário do brasileiro colonizado e primitivo.

Raimundo Nonato é um “Ratatouille” do Terceiro Mundo. Nordestino que migra para a metrópole e trabalha como faxineiro num boteco decadente, sendo explorado pelo patrão. Ao desabrochar seu talento nato para cozinha, Raimundo vira cozinheiro e um sucesso na região. Sr. Giovanni, italiano garanhão, o convida para trabalhar no seu restaurante, onde Raimundo convive com a boa educação e limpeza, aprende o bom gosto e a qualidade da comida italiana. Embora a admirável interpretação de João Miguel atribua a sua personagem aspectos de graça e ingenuidade de forma comovente, as situações a que é submetido o enquadram na visão taxativa do nordestino na cidade grande, no estereótipo das relações sociais em que o nordestino é o ignorante, explorado, primitivo e que só adquire cultura na região urbana. Mais do que isso, a alta cultura e o bom gosto estão vinculados à Europa: Raimundo representa o aspecto popular do brasileiro, e Giovanni a civilização e o bom gosto oriundos da Itália. E nessa trajetória de ascensão sócio-cultural, em que Raimundo adquire novos conhecimentos históricos, nova aparência, aperfeiçoa o seu paladar, o seu repertório vocabular e já possui condições mais dignas de vida e trabalho (com salário e benefícios), seus valores e necessidades progridem e ele deseja constituir uma família com a prostituta Iria. Entretanto, o estereótipo do italiano conquistador entra em jogo e Giovanni sai com a tal noiva de Raimundo – Iria, aliás, é mais uma personagem primitiva, uma mulher brasileira “suculenta” motivada apenas por desejos primitivos: sexo e comida. Ao ser traído, Raimundo, que naquele momento já era cidadão, vira bicho novamente, eclodindo em si o aspecto primitivo, instintivo e violento de um cangaceiro e esfaqueia com a “peixeira” o casal transando na cama. Esta é a queda de Raimundo que retorna para o mundo primitivo e inculto, não o do Sertão, mas o da prisão urbana. E neste lugar seu desejo de ascensão é outro – é o de impor respeito e conquistar, perante as regras da bandidagem, prestígio entre os presentes.

“Estômago” possui uma estrutura narrativa singular, construída por montagem paralela de eventos em tempos diversos (o presente da prisão de Raimundo com o flashback de todo o resto), mas que se encadeiam cronologicamente e são ligados, às vezes, por fusões de situações semelhantes (por exemplo, a passagem de uma cena na prisão para a que Raimundo trabalha no boteco é feita pela imagem da personagem dormindo em posição fetal - posição em que dormia na cena da prisão e na qual acordava na cena do boteco). Essa maestria da estrutura narrativa cria no espectador uma tensão inicial que só será respondida no final do filme: “qual foi o crime cometido pela personagem?”. Embora exista tal habilidade na condução dos fatos, bons diálogos entre as personagens e momentos de humor (principalmente nas cenas da prisão), “Estômago” resvala quase sempre em estereótipos e no mau gosto ao registrar o grotesco, o principal exemplo é a imagem da bunda de Iria sem um pedaço: a cena já era passível de compreensão apenas com Raimundo fritando o pedaço na cozinha. A opção pela afirmação, e não pela sugestão, é uma constante no filme, e esta cena é um exemplo disso. Mas, para além destas questões e reiterando o que já foi dito, o que “Estômago” tem de mais perverso é o imaginário do brasileiro primitivo, as entrelinhas que indicam que a civilização está na Europa: um valor conservador e infelizmente enraizado na nossa cultura.

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